*          2.1-10  Tendo recebido a resposta à sua oração, Ana entoa um cântico jubiloso de ação de graças.  Focalizando a soberania do Senhor e a sua graça aos humildes, Ana antecipa os temas principais dos livros de Samuel.  Os mesmos temas de soberania, graça, e da libertação são reiterados no cântico de Davi de ação de graças perto do fim de 2 Samuel (cap. 22).  Os dois cânticos fornecem um arcabouço poético para 1 e 2 Samuel.  O cântico de louvor (mais breve) de Maria (o Magnificat, Lc 1.46-55)  parece ter seguido o modelo de Ana.  Os dois cânticos iniciam-se com regozijo por causa do livramento pelo Senhor (v. 1;  Lc 1.46-48), exaltam a incomparabilidade e santidade do Senhor (v. 2; Lc 1.49, 50), condenam a jactância orgulhosa (v. 3; Lc 1.51), indicam mudança da sorte humana como resultado de intervenções pelo Senhor soberano (vs. 4-8; Lc 1.52, 53), e expressam o cuidado fiel que o Senhor dedica aos seus (v. 9;  Lc 1.54, 55).  O cântico de Ana termina com a asseveração de que o próprio Senhor dará forças ao seu rei, ao seu ungido (vs. 9-10). 

 

*          2.1       força.  Lit. "chifre," palavra esta que [em hebraico] é usada figuradamente no Antigo Testamento para significar orgulho e força.  É Deus quem exalta a força dos justos e abate as forças dos ímpios (Sl 75.10).  Davi exalta o Senhor como "o meu escudo, a força da minha salvação" (v. 10, nota;  2Sm 22.3).

 

*          2.2       Rocha.  Como metáfora para Deus, esse termo está concentrado nos trechos poéticos tais como o cântico de Moisés em Dt 32;  o cântico de Davi em 2Sm 22;  Salmos;  e Isaías.  A metáfora sugere a força e a soberania de Deus, e a segurança daqueles que confiam nele.  Aqui recai o enfoque na incomparabilidade do único Deus verdadeiro, em oposição às falsas fontes de segurança (compare o contraste com os falsos deuses, também chamados "rocha," em Dt 32.31, 37;  Is 44.8).

 

*          2.5       tem sete filhos.  O número sete expressa o que é idealmente completo (Rt 4.15). 

 

*          2.9       porque o homem não prevalece pela força.  As narrativas subseqüentes confirmam que não é a proeza física, mas a presença de Deus, que traz a vitória.  Na narrativa da arca nos caps. 4–6, o Senhor faz os filisteus sentirem a sua mão sem a ajuda de agentes humanos (5.6).  Outros exemplos desse tipo são a vitória do Senhor através de Samuel no cap. 7;  os resultados contrastantes de Saul e Jônatas nos caps. 13 e 14;  a escolha de Davi, o mais jovem dos filhos de Jessé, no cap. 16;  e a vitória de Davi sobre Golias no cap. 17.

 

*          2.10     seu rei.  A referência aqui ao rei do Senhor antevê o evento central dos livros de Samuel, a saber:  a instituição de uma monarquia, e subentende que a idéia de uma monarquia, corretamente cogitada, não é errada.  Que Israel teria um rei é previsto em vários trechos do Pentateuco (Gn 49.10;  Nm 24.7, 17-19; Dt 17.14-20).

 

seu ungido.  Numerosos objetos e pessoas estavam sujeitos à unção religiosa no Israel antigo (Êx 30.22-33), mas era o rei que, em última análise, tinha o título de "ungido do SENHOR" ou simplesmente de "ungido." As pessoas escolhidas para servir a Deus eram ungidas para simbolizar que essa era a sua vocação, que eram autorizadas para realizá-la, e que Deus lhes daria a ajuda da qual necessitassem.  As referências ao rei como o ungido do Senhor predominam nos livros de Samuel (v. 35;  12.3. 5;  16.6;  24.6) e nos Salmos (Sl 2.2; 18.50).  O presente trecho é a primeira referência a um rei de Israel como o "ungido" de Deus, embora a idéia de ungir um rei já se encontre na fábula de Jotão (Jz 9.8, 15).  A palavra "messias" em português representa a palavra "ungido" em hebraico.  No Novo Testamento, "Cristo" representa a palavra grega Christos, que também significa "ungido."

 

*          2.12     os filhos de Belial.  Assim se traduz uma expressão em hebraico que conota pessoas vis, sem valor [que é a tradução literal de belial].  É usada a respeito daqueles que incitam à idolatria (Dt  13.13) ou à insurreição (10.27; 2 Sm 16.7; 20.1);  que são sexualmente imorais (Jz 19.22);  ou que são mentirosos (1Rs 21.10, 13).  Infelizmente, a expressão podia ser aplicada aos filhos de Eli.

 

não se importavam.  Lit. "não conheciam," o que forma um contraste irônico entre os filhos de Eli e Samuel (3.7, nota). 

 

*          2.13     o costume daqueles sacerdotes.  A prática descrita nos vs. 13, 14 é diferente dos preceitos de Lv 7.28-36 e Dt 18.3.  A cobiça dos filhos de Eli levou os israelitas a desprezarem a oferta do SENHOR (v. 17).

 

*          2.15       antes de se queimar a gordura. Deste os tempos em que Abel ofereceu a gordura dos primogênitos do seu rebanho (Gn 4.4), as partes gordurosas eram consideradas as melhores, e por isso mesmo, reservadas para o Senhor.  Os sacerdotes tinham o dever de queimar a gordura no altar, como oferenda ao Senhor (Lv 3.16; 7.31).  Assim como o sangue, a gordura era rigorosamente proibida para o consumo humano, e quem a comesse seria expulso do meio do povo de Deus (Lv 3.17;  7.23-25). 

 

*          2.18     Samuel.  O comportamento de Samuel, que ministra fielmente diante do Senhor, e também o de Eli, que regularmente abençoa Elcana com sua esposa (v. 20),  está em nítido contraste com os abusos dos filhos de Eli. 

 

estola sacerdotal de linho.  Algum tipo de roupa interna curta,  associada ao serviço sacerdotal (22.18), que também foi usada pelo rei Davi quando trouxe a arca para Jerusalém (2Sm 6.14).  Ver também 2.28, nota. 

 

*          2.19     túnica.  Uma roupa externa, que deveria ser usada por cima da estola sacerdotal de linho.

 

*          2.20  filho que devolveu.  As palavras de Eli relembram as de Ana em 1.27, 28.  As palavras "dádiva" e "pedir" em hebraico são derivadas da mesma palavra que o nome "Saul" (1.20, nota). 

 

*          2.21     diante do SENHOR.  Ou:  "com o SENHOR";  a mesma expressão em hebraico é usada no v. 26. 

 

*          2.22     Eli.  Novamente, assim como no v. 12, o enfoque muda do menino Samuel para a casa de Eli.

 

ouvia.  Eli tinha que ser informado a respeito daquilo que ele já deveria ter observado e controlado por sua própria iniciativa.  Mas seus delitos são muito mais profundos do que a simples falta de atenção (v. 29).

 

se deitavam com as mulheres.    Quanto à "tenda," ver nota em 1.9;  quanto às "mulheres que serviam," ver Êx 38.8.  A prostituição cultual, embora fosse explicitamente condenada pela Lei (Dt 23.17, 18), era praticada pelos cananeus e se constituía em perigo constante para os israelitas (1Rs 15.12; 2Rs 23.7; Os 4.14).

 

*          2.25  Deus lhe será o árbitro. O argumento de Eli é que, embora possa haver alguma mediação nas disputas entre as pessoas, ninguém que poderá intervir quando o delito for contra o próprio Deus.  Os filhos de Eli pecaram, antes de mais nada, contra o Senhor (v. 17), e selaram o seu destino ao se recusar a prestar atenção à advertência de Eli. 

 

o SENHOR os queria matar.  Essa declaração clara da soberania de Deus sobre o destino dos ímpios não diminui a responsabilidade das pessoas pelas suas próprias ações.  Um exemplo do relacionamento entre a soberania divina e a responsabilidade humana acha-se no endurecimento do coração de Faraó nos primeiros capítulos do Êxodo.  Em cerca de metade das ocasiões, é declarado que  Faraó endureceu seu próprio coração (Êx 8.15);  nas demais ocasiões, é declarado que Deus o endureceu (Êx 4.21; Rm 9.17, 18).  Deus pode castigar o pecado persistente e deliberado removendo a capacidade de a pessoa se arrepender (Js 11.20; Rm 1.24, 26, 28).

 

2.26     no favor do SENHOR.  A gravidade da recusa dos filhos de Eli de prestarem atenção aos homens ou a Deus é enfatizada pelo contraste marcante com Samuel, que cresce no favor de Deus e dos homens.  A ênfase dada ao crescimento de Samuel como sendo mais do que meramente físico prenuncia um tema que é posteriormente desenvolvido nas figuras contrastantes de Saul e de Davi.  A expressão no v. 6 é usada por Lucas para descrever a infância de Jesus (Lc 2.52; ver Pv 3.4). 

 

*          2.27-36  As palavras do homem de Deus a Eli exibem características típicas dos discursos proféticos de juízo.  Há uma acusação (expressa aqui através das perguntas acusadoras que enfatizam o contraste entre a graça do Senhor e a desobediência de Eli) e uma proclamação de juízo, confirmada por um sinal. Outros exemplos de discursos proféticos desse tipo acham-se nos caps. 13; 15; em 2Sm 12.7-12.

 

*          2.27     homem de Deus.  No Antigo Testamento, esse título é freqüentemente empregado de modo intercambiável com "profeta" (9.8-11; 1Rs 13.15-18; 2Rs 5.8; 6.10-12).

 

casa de teu pai... no Egito.  Embora a genealogia de Eli não esteja registrada em nenhuma parte do Antigo Testamento, o v. 28 subentende que ele era um descendente de Arão.  A asseveração de que o Senhor se revelou e selecionou a casa de Eli já nos tempos da servidão de Israel no Egito ressalta a ingratidão grosseira da casa de Eli.

 

*          2.28  trazer a estola sacerdotal.  A estola sacerdotal mencionada aqui não é a roupa mencionada no v. 18, mas a estola do sumo sacerdote, que continha o "peitoral do juízo" e o "Urim e o Tumim," através dos quais se podia descobrir a vontade do Senhor (Êx 28.4-30).

 

e dei... as ofertas.  Tanto no Antigo Testamento (Nm 18.8;  Dt 18.1) quanto no Novo (1Co 9.13, 14;  1Tm 5.17, 18)  Deus providencia o sustento daqueles que estão no seu serviço. 

 

*          2.29     honras.  Embora os delitos dos filhos de Eli fossem mais atrevidos, ele próprio não fica sem culpa.  Como pai e sumo sacerdote, não deveria ter se limitado a confrontar seus filhos somente com palavras (vs. 23-25).  Ter deixado de agir firmemente equivaleu a honrar seus filhos acima do Senhor (v. 30).  A palavra hebraica traduzida por "honrar" é uma palavra-chave nos relatos subseqüentes da queda da família de Eli e da captura e devolução da arca (caps. 4–7);  ver notas em 4.21; 6.5, 6.

 

*          2.30     perpetuamente.  Contínua ou indefinidamente.

 

*          2.31     não haja mais velho nenhum em tua casa.  A dizimação da casa de Eli começa com a morte dos seus filhos (4.11) e a sua própria (4.18).  Ela continua com o massacre dos sacerdotes de Nobe por Saul (22.17-19) e culmina quando Salomão remove Abiatar do sacerdócio (1Rs 2.26, 27). 

 

*          2.32     o aperto da morada de Deus.  Ou: “um inimigo em minha morada”. O termo em hebraico é difícil, e partes dos vs. 31, 32 faltam na Septuaginta e nos Rolos do Mar Morto.  Se for correta a tradução "o inimigo na morada de Deus", o versículo aludiria à captura da arca (4.1-11), à destruição da morada do Senhor em Siló (Jr 7.12-14), e à sua recolocação em Nobe (21.1).

 

*          2.34  sinal.  Pronunciamentos proféticos eram freqüentemente confirmados por sinais (2.27-36, nota;  cf. 10.7, 9; 1Rs 13.3, 5; 2Rs 19.29; 20.8, 9). 

 

*          2.35     sacerdote fiel.  Embora a declaração em 3.20 de que Samuel foi "confirmado" como um profeta do Senhor sugira que Samuel possa ter sido o cumprimento dessa predição, o cumprimento mais claro vem na pessoa de Zadoque, que serviu como sumo sacerdote lado a lado com Abiatar no reinado de Davi (2Sm 8.17, nota) e que chegou à preeminência no reinado de Salomão (1Rs 2.35).  Os descendentes de Zadoque mantiveram-se no sumo sacerdócio desde o reinado de Salomão até aos tempos de Antíoco Epifânio e dos macabeus (para os detalhes, ver Introdução ao Período Interbíblico).

 

meu ungido.  Essa é a segunda alusão neste capítulo ao rei vindouro (v. 10 nota). 

 

*          2.36  um pedaço de pão.  Os juízos proféticos eram caracterizados pela correspondência entre o crime e o castigo.  A fome ameaçada nesse versículo corresponde com a satisfação da gula descrita nos vs. 12-27 e 29.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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