* 3.1 Ambas as perguntas deste versículo esperam a
resposta "não". Paulo não rejeita de modo geral as cartas de
recomendação (ver At 15.25,26; 18.27; 1Co 16.10,11), mas ao que parece, os
oponentes de Paulo tinham trazido algumas cartas de recomendação à igreja em
Corinto, cartas das quais os portadores não eram dignos. Paulo mostrou que sua
carta era muito melhor, porquanto consistia na vida dos crentes de Corinto (v.
2).
* 3.2 escrita
em nossos corações. Os crentes de Corinto
tinham um lugar cativo nos afetos do apóstolo. Alguns manuscritos dizem aqui
"em vossos corações". Nesse caso, Paulo está dizendo aos coríntios
que, como igreja, eles são uma eficaz carta de recomendação para ele (2.17; 1Co
9.2).
* 3.3 carta
de Cristo... nosso ministério. A igreja em Corinto era uma
operação da graça divina mas nessa obra Paulo e seus cooperadores tinham sido
instrumentos de Deus.
não em tábuas de pedra.
Os Dez Mandamentos.
mas em tábuas de carne...
nos corações. O ponto frisado aqui por Paulo é duplo.
Em primeiro lugar, a "carta" que eram os crentes coríntios era
superior às cartas de papel e tinta de seus oponentes, bem como aos tabletes de
pedra da lei mosaica. Em segundo lugar, Paulo apresenta os frutos de seu
apostolado como o cumprimento de profecias do Antigo Testamento. Conforme fora
predito em Jr 31.33 e Ez 11.19; 36.26, no novo pacto, Deus escreveu suas leis
nos corações de seu povo, dando-lhes um novo desejo e a capacidade de lhe serem
obedientes. A lei escrita nos corações é a imutável e pura lei de Deus, ou
seja, o seu padrão moral absoluto.
* 3.4—6.13 Depois de haver explicado
sua mudança de planos sobre a visita aos crentes coríntios, Paulo descreve o
que é um verdadeiro ministério cristão. Significa ser alguém ministro de um
glorioso novo pacto (3.4—4.6), confiando em Deus em meio a tribulações
(4.7—5.10), e falando a mensagem da reconciliação (5.11—6.13). Paulo insiste,
pelo resto da carta, que a fidelidade a essas tarefas — e não a eloqüência,
profundos pensamentos filosóficos, ou padrões mundanos de excelência pessoal —
é a base de um ministério válido.
* 3.4 tal
confiança. Paulo confia diante de Deus, que o seu
ministério é autêntico, e que os crentes coríntios são "carta de
recomendação", que testificam dessa autenticidade. Paulo não confiava em
si mesmo, mas "por intermédio de Cristo".
* 3.5 a
nossa suficiência. Paulo responde aqui à
pergunta de 2.16: ("Quem, porém, é suficiente para estas coisas?").
Antes, Paulo já havia desistido de qualquer dependência de meras habilidades
humanas (1Co 2.1-5). Infelizmente, seus oponentes avaliavam as habilidades
mundanas como mais valiosas do que aquelas que vêm exclusivamente de Deus.
a nossa suficiência vem de
Deus. Temos aqui um dos grandes temas desta
segunda carta aos Coríntios. Toda habilidade e poder procedem de Deus, e não de
nós mesmos.
* 3.6 uma
nova aliança. O novo relacionamento legal que Deus
estabeleceu com seu povo, através de Jesus Cristo, em sua vida, morte,
ressurreição e ascensão aos céus.
não da letra.
A lei escrita, por si mesma, que requer obediência perfeita mas não dá poder
para isso.
o espírito vivifica. Essa
é a nova vida em Cristo. Nessa nova vida o Espírito Santo escreve a lei de Deus
em nossos corações (Jr 31.31-34; Hb 8.8-12; 9.13,14), conferindo-nos amor pelos
padrões morais divinos e poder para obedecê-los (Rm 8.4; 1Co 7.19). Ao dizer
que essa vida não é "da letra", Paulo não quer dar a entender que no
antigo pacto não havia qualquer vida espiritual. O que ele quis dizer que a lei
escrita, que foi uma das características do antigo pacto, não produzia a vida
na comunidade crente. O Espírito Santo, cujo ministério poderoso e doador de
vida é uma das características da nova aliança, traz-nos a nova vida em medida
muito maior do que o fazia sob a antiga aliança.
* 3.7 o
ministério da morte. As palavras escritas da
lei do Antigo Testamento, por si mesmas condenavam aqueles que não obedeciam,
não lhes dando vida.
não poderem fitar a face de
Moisés. O antigo pacto não deixava de ter glória,
embora tivesse sido escrito em tábuas de pedra (Êx 34.29-35).
* 3.8 como
não será de maior glória. O novo pacto é mais
poderoso, mais belo e mais íntimo.
* 3.9 o
ministério da justiça. A retidão nos é conferida
por ocasião de nossa justificação, aquela graciosa declaração legal com que
começa a vida cristã. Ela continua na santificação, o crescimento progressivo
do crente em pensamentos, palavras e ações justos. A santificação tem lugar
mediante a graça, através da fé, mas também requer estudo, oração e esforço
consciente.
* 3.11 se o que se
desvanecia. Isto é, a antiga aliança (Hb 8.13).
* 3.12 tal
esperança. O esplendor da nova aliança, que não se
desvanecerá e nem diminuirá, fornece esperança ao apóstolo e serve de
combustível para a sua ousadia.
muita ousadia no falar.
Paulo de maneira alguma se envergonhava de pôr-se de pé diante do mundo, a fim
de proclamar o evangelho excelente. A referência à "ousadia" vincula
a discussão dos vs. 7-11 com a defesa de Paulo de seu apostolado (10.1,2). Ele
era ousado, e não vacilante, conforme seus oponentes o acusaram de ser
(1.17—2.4); e a sua ousadia, assumindo a forma de uma fala destemida, tão
evidente nesta carta, fazia grande contraste com o egoísmo enganador de seus
oponentes (2.17).
* 3.13 Alguns têm pensado que o véu que Moisés usava sobre o rosto
visava proteger os israelitas de serem prejudicados ou de ficarem assustados
com seu resplendor. Mais provavelmente, porém, esse véu era para impedi-los de
ver que a glória estava desaparecendo, por causa do caráter temporário e
inadequado da antiga Aliança (Êx 34.29-35). Em contraste, Paulo não precisava
de qualquer véu, pois a glória do ministério do novo pacto não se desvanece.
* 3.14 o mesmo véu
permanece. Até o dia de hoje, declarou Paulo, muitos
judeus não podem perceber que o pacto mosaico é temporário, e que seu
resplendor se desvanece.
* 3.15 o véu está
posto sobre o coração deles. A metáfora altera-se
levemente, conforme ocorre freqüentes vezes nos escritos de Paulo. Agora o véu
não estava mais no rosto de Moisés, mas nos corações dos israelitas incrédulos.
Porém o efeito é o mesmo — eles não podiam perceber que o antigo pacto tinha-se
desvanecido.
* 3.16 o véu lhe é
retirado. Ver "Entendendo a Palavra de Deus",
em Sl 119.34.
* 3.17 o Senhor é o
Espírito. Neste versículo, Paulo revela a intima
relação que há entre Cristo e o Espírito Santo. Em virtude de sua ressurreição
e ascensão, Cristo e o Espírito doador de vida estão intimamente identificados
em função (1Co 15.45). Também é possível traduzir por "Ora, o Espírito é o
Senhor". O Espírito Santo é vero Deus, como o Pai e o Filho. Ele é
conhecido simplesmente como "o Senhor", no Antigo Testamento. Tal tradução
dá um sentido natural à palavra "é".
aí há liberdade.
A escravidão era para morte, pecado e esforço inútil de obedecer a lei pela
nossa própria capacidade.
* 3.18 E todos nós.
Nós, os crentes. Temos aqui a descrição de uma experiência característica dos
crentes da nova aliança.
contemplando, como por
espelho. Diferente de Moisés (v. 13), que se
apresentava diante do povo de Israel com um véu no rosto, para ocultar a glória
que se desvanecia em sua fisionomia, Paulo se põe de pé diante do povo, com
"o rosto desvendado", sabedor de que a glória da nova aliança jamais
se desvanecerá. Por semelhante modo, "todos nós" nos pomos de pé
diante do mundo, refletindo em nossas próprias vidas a glória de Cristo. Longe
de termos uma glória que se vai desvanecendo, nossa glória vai aumentando cada
vez mais, conforme somos mais e mais transformados na semelhança de Cristo. Ver
"A Transfiguração de Jesus", em Mc 9.2.
na sua própria imagem.
Uma referência ao crescimento contínuo, ao longo da vida, que nos torna cada
vez mais parecidos com Cristo. Esse crescimento consiste em uma transformação
moral e espiritual "de glória em glória". Estamos sendo
progressivamente restaurados a uma possessão cada vez maior da imagem de Deus,
que foi corrompida em nós por ocasião da queda de Adão.
-----------------------------------------------------------------------------
sergiovalentin