*           6.1-8   Esta seção, pela menção de Noé (5.32; 6.8, 9), assinala a transição da linhagem piedosa de Sete para a história do Dilúvio (6.9—9.17) e relembra a fatídica situação ao fim da linhagem cainita (4.17-24).

 

*           6.2   filhos de Deus.   Estes têm sido identificados como sendo os setitas (na interpretação cristã tradicional), como anjos (nas interpretações judaicas antigas; cf. Jó 1.6), e como sucessores reais tirânicos de Lameque que ajuntavam para si haréns (proposta por rabinos do segundo século d.C.). Todas as três posições podem ser defendidas lingüisticamente. À primeira vista, a primeira interpretação se encaixa melhor no contexto antecedente imediato (um contraste entre a linhagem amaldiçoada de Caim e a linhagem piedosa de Sete), mas deixa de explicar adequadamente como a expressão “as filhas dos homens” se refere especificamente às mulheres cainitas. A segunda opinião tem apoio da tradição antiga, porém, é contraditória à afirmação de Jesus de que anjos não se casam (Mc 12.25) e não explica por que enfoque recai nos mortais (v. 3) e o castigo cai sobre eles (vs. 5-7). A terceira interpretação explica melhor a expressão “as que, entre todas, mais lhe agradaram” (12.10-20; 20.1; 1Sm 11) porém não tem apoio na tradição. A melhor solução é provavelmente uma combinação das duas últimas. Esta descendência humana é também a descendência espiritual de Satanás (3.15), fortalecida por demônios (cf. Dt 32.17).

 

vendo… formosas, tomaram.   O termo hebraico traduzido por “formosas” é geralmente traduzido por “bom”. Seus pecados repetem o mesmo padrão (“viram … bom …tomaram”) do pecado original em 3.6.

 

*          6.3       O meu Espírito.   Ver nota em 1.2.

 

agirá.   A palavra hebraica é difícil de ser traduzida. Alguns estudiosos a relacionam ao termo que significa “dominar” ou “julgar”, enquanto que tradutores antigos a entendiam como “permanecer” ou “habitar” (referência lateral). De qualquer forma, a sentença indica a retirada do Espírito doador da vida de Deus (1.2, nota).

 

cento e vinte anos.   Provavelmente o tempo entre esta proclamação e o Dilúvio (5.32; 7.6). Pode também se referir à duração de vida de um indivíduo, porém, esta interpretação parece se contradizer pela idade dos pósdiluvianos que inicialmente viveram muito mais do que isto (Gn 11) e posteriormente, muito menos (Sl 90.10).

 

*           6.4   gigantes.   Ver referência lateral. Estes “valentes” gigantescos, os descendentes de tiranos demoníacos (v. 2, nota), encheram a terra com violência (v. 11; Nm 13.32). A raiz hebraica significa “cair” e pode estar sugerindo o seu destino (Ez 32.20-28).

 

e também depois.   Esta nota parentética lembra aos leitores originais do livro que o mesmo tipo horrível de pessoas existiu depois do Dilúvio (Nm 13.32).

 

valentes.   O termo hebraico aqui é também usado para Ninrode e seu reino bestial (10.8-11).

 

*           6.5   todo desígnio do seu coração.   Um retrato vívido da profundidade e amplitude da depravação humana (cf. 8.21).

 

*           6.6   se arrependeu.   Temos aqui uma referência a uma mudança de atitudes e ações. Não há contradição entre este verso e as passagens que ensinam a imutabilidade de Deus (Ml 3.6; Tg 1.17) e que Deus não muda seu pensamento (Nm 23.19; 1Sm 15.29; Sl 33.11; Is 46.10). Lembrando que esta descrição é antropopática (Deus é descrito em termos da experiência humana de conhecimento e emoção), nós devemos também reconhecer que o Deus soberano e imutável sabe lidar apropriadamente com as mudanças no comportamento humano. Quando eles pecam ou se arrependem do pecado, ele “muda seu pensamento” quanto à bênção ou punição apropriadas para a situação (Êx 32.12, 14; 1Sm 15.11; 2Sm 24.16; Jr 18.11; Am 7.3, 6) — tudo de acordo com seus soberanos e eternos propósitos. Porque Deus é imutável no seu ser e eternamente leal às promessas da sua aliança, nós podemos ter firme confiança nele que “ontem e hoje, é o mesmo e o será para sempre” (Hb 13.8 e nota).

 

lhe pesou no coração.   O hebraico aqui significa “ira indignada” (cf. 34.7). O sacrifício de Cristo pacifica a indignação amarga de Deus contra o pecado (8.21).

 

*           6.7   Farei desaparecer.   Nesta história a primeira ordem criada é destruída por um dilúvio e a segunda ordem inaugurada, um cenário que representa um modelo profético da presente ordem a ser destruída por fogo e substituída por uma terceira ordem perfeita (2Pe 3.3-13). Jesus também usa este modelo como um tipo do Dia do Senhor (Mt 24.37-39).

 

animal … céus.   Assim como a terra sofreu as conseqüências do pecado dos seus dominadores, assim também os animais.

 

*           6.8   Porém Noé.   Ver Rm 11.3-6.

 

achou graça.   Ver referência lateral no v. 9. A “graça” de Deus é sempre o seu favor imerecido, e a integridade de Noé não poderia ser o motivo da aceitação de Deus (Rm 3.10-12).  Deus salvou a Noé, como ele nos salva, como um dom incondicional, o qual Cristo mais tarde compraria com seu próprio sangue. Ainda assim, Noé parece ser um tipo de Cristo: assim como Noé representou sua família, Cristo representa toda família de Deus.

 

*           6.9—9.29   Embora histórias acerca de um grande dilúvio sejam encontradas em muitas culturas em todo o mundo, nenhuma é tão marcadamente semelhante a este episódio quanto aquelas da antiga Mesopotâmia (p.ex., A Epopéia de Gilgamés e a Epopéia de Atrahasis). Existem, entretanto, diferenças cruciais. Nos contos Mesopotâmicos, os mesquinhos deuses pagãos trazem o dilúvio para controlar a super população ou para silenciar o barulho irritante do povo, e quando este vem, os deuses se assustam com ele. Em contraste, o verdadeiro Deus traz o dilúvio soberanamente por causa da maldade humana, e em resposta aos sacrifícios de Noé, ele promete nunca mais destruir a terra com água. Ver nota sobre 6.22.

 

*           6.9-22   Esta seção retrata o relacionamento pactual: Noé era justo (v. 9), obedecendo aos mandamentos de Deus, e Deus confirma com ele a aliança para preservar a criação (v. 18). Correspondendo ao relato da criação no capítulo 1, os mandamentos de Deus (vs. 13-21) são seguidos de obediência (v. 22).

 

*           6.9   Eis a história de.  Ver nota em 2.4.

 

justo.   A palavra pressupõe uma aliança na qual aqueles que estão unidos ao Senhor pela fé (15.6) seguem seus padrões morais. Estes padrões foram revelados a Noé na sua consciência (3.8 e nota) e mediante a revelação especial (5.22, nota).

 

íntegro.   Não que Noé nunca houvesse pecado (referência lateral; cf. 9.20-23), porém a sua devoção a Deus e aos seus mandamentos eram inquestionáveis (cf. 2Sm 22.24).

 

andava com Deus.   Ver nota em 5.22.

 

*           6.13   farei perecer.   A mesma palavra hebraica está por trás de “corrompida” e “corrompido” nos vs. 11, 12. A punição corresponde ao crime: como o homem havia arruinado a boa terra, Deus irá arruinar a terra contra o homem.

 

*           6.14   arca … betume.   Os mesmos termos do hebraico são usados em Êxodo 2.3 para a arca (de junco) que protegia a Moisés, a quem Deus também usou para criar uma nova humanidade em um mundo sob juízo.

 

*           6.15  Deste modo.   O Senhor, de modo singular, especificou a planta para a construção da arca, o Tabernáculo do Êxodo, e o templo de Salomão. A arca preservou a família pactual de Noé no meio das água caóticas; as outras estruturas iriam suster o povo da aliança no meio de nações caóticas.

 

trezentos côvados … trinta.   Ver a referência lateral. As dimensões (133 por 22 por 13 metros) indicam um vaso estável e com condições de navegação comparável em tamanho a um navio moderno de batalha. Em contraste, a arca da Epopéia babilônica de Gilgames, embora calafetada com betume por dentro e por fora, é um cubo instável de 55 metros, quase quatro vezes maior em volume do que a arca de Noé (7.4 e nota).

 

*           6.17   Porque estou … dilúvio.   Deus soberanamente domina sobre o Dilúvio (Sl 29.10).

 

terra … toda carne.   Um dilúvio de proporções mundiais parece ser a idéia aqui (7.19; 8.21; 9.11, 15; 2Pe 3.5-7). Porém uma linguagem compreensiva também pode ser usada para situações limitadas (Dn 2.38; 4.22; 5.19).

 

*           6.18-20   Deus preservou a sua criação em miniatura: seres humanos (v.18), animais (v. 19), vegetais (v. 20). Posto que um pouco de tudo foi preservado, a obra de Deus era uma figuração da obra definitiva redentora de Cristo (p. ex., Ap 5.9, onde diz que Cristo não comprou a todos, mas alguns de “toda tribo, língua, povo e nação”).

 

*           6.18   estabelecerei a minha aliança.   Vemos aqui a primeira ocorrência em Gênesis do termo hebraico para “aliança” (berit), embora o conceito em si mesmo e termos correlatos já estivessem presentes anteriormente. Ver notas em 2.4; 2.8-17; 2.24; 3.1-24. O hebraico aqui denota não o começo de uma aliança completamente nova, mas a confirmação a Noé de uma aliança que já existia. A salvação de Noé das águas do Dilúvio é um exemplo da graça e misericórdia da aliança de Deus. Ver “A Aliança da Graça de Deus”, índice.

 

teus filhos… filhos.   Este refrão (7.7, 13; 8.16, 18; cf. 7.1) enfatiza que Deus preserva a humanidade na sua estrutura familiar básica, e que Deus geralmente lida salvificamente com toda a unidade familiar, incluindo os filhos. Aqui a salvação física é assegurada no meio das águas do dilúvio, uma prefiguração do batismo cristão (1Pe 3.20, 21).

 

*           6.20   virão a ti.   O poder de Deus pode ser visto nos animais que vinham a Noé.

 

*           6.22   As antigas fábulas mesopotâmicas enfocavam heróis humanos ou homens valentes como Utnapishtim, o único sobrevivente do dilúvio na Epopéia de Gilgamés (6.9—9.29, nota). Em contraste, o relato de Gênesis enfoca a Deus e menciona apenas a obediência de Noé (7.5, 9, 16).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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