O Livro de HABACUQUE

 

Autor             

As únicas informações confiáveis sobre Habacuque e sua atividade profética nos vêm deste livro. O significado de seu nome é incerto. Pode estar ligado a uma palavra hebraica que possui o sentido de “abraçar”, ou ao nome de uma planta assíria, o hambacucu. O primeiro parece referir a sua proximidade com Deus; o último pode sugerir a influência da cultura assíria na sociedade judaica. A referência a Habacuque como “o profeta” em 1.1, pode implicar em que ele era uma figura muito conhecida. Sua utilização do culto e da tradição de sabedoria de Israel em suas pregações deu margem à noção duvidosa de que ele tenha sido um profeta ligado ao templo de Jerusalém, embora a idéia de que ele tenha trabalhado em Jerusalém seja bastante atraente. Entretanto, podemos estar certos de encontrar em seu livro um verdadeiro profeta, com um zelo apaixonado pela glória do Senhor. Sua “mensagem” ou “oráculo” (1.1 e referência lateral) é notável pelo fato de não ser voltada para o povo, mas uma resposta a seus próprios questionamentos angustiosos.

           

Data e Ocasião        

Uma prova objetiva para a datação da atividade profética de Habacuque é encontrada em 1.6. A referência aos caldeus ou neobabilônios como o novo poder ameaçador, indica o período que sucede ao colapso do Império Assírio (612-605 a.C.), mas antes que os exércitos caldeus, de Nabucodonosor II, tornassem Jerusalém e deportassem o jovem rei Joaquim para a Babilônia em 597 a.C. (2Rs 24.8-17). Aparentemente, Habacuque ministrou durante o reinado de Jeoaquim (609-598 a.C.) e era um contemporâneo mais jovem de Jeremias.

            Um importante acontecimento durante esse período foi a batalha de Carquemis em 605 a.C., quando o Faraó-Neco II e seu exército egípcio, que tinham vindo auxiliar os assírios contra os babilônios, foram totalmente derrotados por Nabucodonosor II. Pouco mais tarde, também Judá, como outros reinos outrora independentes da Siro-Palestina, foram subjugados pelos neobabilônios. A visão inspirada de Habacuque, portanto, pode ser datada como pertencendo ao período entre 605 e 600 a.C., quando os babilônios se tornaram a força dominante no cenário internacional, rechaçando impiedosamente qualquer oposição (1.5-17).

            Esse período de ameaça internacional coincide com uma crescente deterioração moral e espiritual em Judá. O reino nefasto de Jeoaquim criou um triste contraste com o de seu pai, o bom rei Josias (Jr 22.13-19; 26.20-23). Desdenhando insolentemente as leis da aliança, o povo de Judá aos poucos foi perdendo seu caráter singular (1.2-4).

 

Características e Temas    

Os profetas não eram apenas inspirados pregadores das mensagens de Deus ao seu povo; eles também partilhavam o desagrado do Senhor por seu mundo corrompido e de sua profunda inquietação pela inconstância do seu povo. Nesse sentido, Habacuque se assemelha muito a Jeremias. Porém ainda mais evidente do que em Jeremias, o diálogo de Habacuque com Deus e suas constantes orações (2.1; 3.2,16) assumem o lugar da pregação profética no cerne de sua mensagem.

            Habacuque, um homem com um zelo apaixonado pela honra de Deus  (1.12; 3.3), viveu uma profunda crise espiritual devido à aparente indiferença de Deus às terríveis condições espirituais de seu povo (1.2-4). A ausência da vida e da obediência segundo a aliança ofereciam grande perigo para o povo de Deus; porém, mais do que isso, era uma rejeição da aliança e um insulto contra o próprio Deus. Ciente de que apenas a intervenção divina poderia mudar essa situação de morte, Habacuque era insistente em seu apelo ao Juiz celeste, mesmo quando parecia ser em vão (1.2). Em resposta a Habacuque, Deus revelou que os caldeus que surgiam no cenário da história (1.6) seriam o seu instrumento de castigo. Essa cura parecia ainda pior do que a doença, o que só fez aumentar a angústia do profeta (1.12-17). Como poderia o Deus Santo, que não pode tolerar o pecado (1.13), valer-se de pessoas tão ímpias para realizar os seus propósitos? Será que Deus realmente distingue o bem e o mal em sua soberania sobre a história?

            Convicto de que os acontecimentos da história não eram determinados por um destino cego mas pelo Deus justo e santo de Israel, Habacuque esperou no Senhor até receber as respostas às suas indagações (2.1). A resposta de Deus veio através de uma visão, apresentada em 2.2,3, que oferece uma perspectiva verdadeira da história e a promessa divina quanto aos seus resultados. Essa resposta não soluciona todos os seus dolorosos questionamentos, mas ensina o povo de Deus o caminho da vida em aliança imediatamente (2.3,4). Isso significa o caminho da perseverança na esperança, aguardando com confiança o cumprimento das promessas infalíveis de Deus. Embora os caminhos do Senhor sejam inescrutáveis, seus propósitos são coerentes. Eles culminam na vida verdadeira para os que são fiéis, mas em lamento e morte para os arrogantes e auto-suficientes (2.4). A presença de Deus em seu templo o confirma como Senhor da história e nos assegura de que no final, sua legítima reivindicação ao domínio do mundo inteiro será universalmente conhecida (2.14,20; Is 45.21-15; 1Co 15.24-28).

            A revelação da soberania de Deus sobre a história transforma o lamento de Habacuque em um hino de alegria (3.2-20). Ao invés de esperar passivamente pela intervenção de Deus, ele agora ora de maneira positiva para que Deus aja de acordo com as obras e qualidades que ele demonstrou no Êxodo e no Sinai.

 

 

 

Antecipando o futuro, em sua oração Habacuque celebra a vinda do Senhor (3.3-7); seu juízo contra a natureza e as nações (3.8-12), e seu triunfo sobre toda a oposição (3.13-15). A partir da sua perspectiva de fé, mesmo a ameaça de uma grande calamidade não pode arrefecer a arrebatadora expectativa de Habacuque pela salvação que há de vir, uma salvação garantida pela fidelidade de Deus a si mesmo e à sua revelação (3.17-19).

            Paulo utiliza Habacuque 2.4 como texto fundamental para a proclamação da boa nova (Rm 1.17; Gl 3.11; cf. Hb 10.35-39). Como Habacuque (cap. 1), Paulo sabia que o pecado é incompatível com a santidade de Deus e que a tensão fatal entre esses opostos só pode ser resolvida através da intervenção divina. A palavra profética dada a Habacuque (cap. 2) revela, em princípio, a forma como Deus lidaria com a incompatibilidade entre o pecado e  santidade. A cruz de Cristo e o juízo final são o cumprimento da sua revelação. Como Habacuque, Paulo afirma que a verdadeira vida só é possível num relacionamento de total dependência do Senhor. Essa dependência, baseada na fidelidade a nosso Deus, transforma nossa existência neste mundo, preenchendo nossas vidas com alegria e a certeza da fidelidade de Deus a suas promessas (2.3; 3.17-19).

            Por essa razão Habacuque pode ser chamado o “pai” da Reforma. Os conceitos-chave de sua pregação, conforme são assumidos por Paulo, influenciaram profundamente a Calvino e a Lutero, terminado por tornar-se ao slogan da Reforma. Somente a perspectiva da fé, da confiança perseverante e obediência em Deus, dá sentido à existência do homem neste mundo, entre o “já” do cumprimento das promessas de Deus e o “ainda não” de sua realização final.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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