*          1.1-2.10 O livro do profeta Jonas pode ser dividido em duas partes principais, sendo cada uma delas introduzida pela expressão, “Veio a palavra do SENHOR a Jonas.” A primeira divisão compreende duas seções: o chamado, fuga, e julgamento de Jonas (cap. 1), e o salmo de ação de graças (cap. 2).

 

*          1.1-17 Esta passagem descreve a resposta desobediente de Jonas à sua comissão como profeta que deveria ir a Nínive, mas não nos diz o motivo de Jonas ter fugido da presença de Deus (que não é revelado até 4.2). Aqui nós presenciamos a interação de Jonas com os marinheiros gentios, que envolve um tema proeminente na segunda divisão do livro — a misericórdia do Senhor aos gentios. Apesar da desobediência de Jonas e de sua hipocrisia, os marinheiros não desprezam o Deus de Jonas, mas vêem nitidamente a mão do Deus de Israel e respondem com adoração. Em contraste com Jonas, os marinheiros gentios são cuidadosos em evitar o pecado pessoal perante Deus (v. 14). O profeta de Deus é julgado, mas os gentios são poupados, um evento que prenuncia a reação dos ninivitas e o cancelamento do juízo sobre eles na segunda divisão do livro.

 

 *         1.1 Veio a palavra do SENHOR a Jonas. Com algumas variações, esse tipo de enunciação é usada outras 112 vezes no Antigo Testamento para descrever a revelação de uma mensagem divina ao profeta.

 

Jonas, filho de Amitai. O receptor da revelação do Senhor é Jonas (“pomba”), filho de Amitai (“leal” ou “fiel”). Esta designação identifica o profeta como o personagem histórico de 2Rs 14.25, que proclamava que Jeroboão II (793-753 a.C.) iria reaver o território dos sírios ao norte. Compare a mensagem de Jonas ao reino de Jeroboão com as palavras de Amós e Oséias, que profetizaram durante o período do declínio espiritual de Israel na última parte do mesmo século (Introdução. Data e Ocasião).

 

*          1.2 vai... Nínive. A soberania do Senhor sobre todas as nações está implícita na ordem a Jonas. Ele é o Juiz de toda a terra (Gn 18.25). Nínive, a última capital do Império Assírio, estava localizada no lado leste do Rio Tigre, diretamente oposta à moderna cidade de Mosul no norte do Iraque. O sítio arqueológico tem sido amplamente escavado e ostenta uma longa e rica história.

 

clama contra ela. Jonas entendia que seu pronunciamento acerca do julgamento pelo Senhor contra o temido e odiado Império Assírio era revogável (4.2, nota). Ele sabia que sua mensagem oferecia oportunidade para o arrependimento.

 

sua malícia subiu até mim. Na última profecia de Naum (século VII a.C.), a capital assíria, Nínive, é o foco da ira divina e é retratada como a personificação do mal e da crueldade (Na 3.1-7). A máquina de guerra assíria foi responsável por atrocidades cruéis; em 612 a.C., esse mesmo império iria cair vítima de um cruel destruidor.

 

*          1.3 Társis. A identificação precisa desta Társis é difícil, embora seja freqüentemente identificada como porto de mineração de Tártesso, no sul da Espanha. Algumas vezes, porém, o termo designa o distante litoral mediterrâneo em geral.

 

da presença do SENHOR. Porque Deus está presente até mesmo “nos confins dos mares” (Sl 139.9), escapar era impossível.

 

*          1.4 o SENHOR lançou sobre o mar um forte vento. O Deus de Jonas é o Criador e Senhor do mar (Gn 1.10, 21; Êx 14.21; Mc 4.41).

 

*          1.7 lancemos sortes. O lançar de sortes era uma forma comum de adivinhação no mundo antigo, um método usado para descobrir a vontade dos deuses. Este método de discernir a vontade do verdadeiro Deus não foi proibido no antigo Israel, pois o Senhor governava até mesmo sobre as sortes (Nm 26.55; Js 18.6-10; Ne 10.34; Pv 16.33; At 1.24-26).

 

*          1.9 Sou hebreu. Ver nota em Gn 14.13. Jonas se identifica em termos étnicos. O termo “hebreu” era usado pelos israelitas para identificar a si mesmos diante da estrangeiros (Gn 40.15; Êx 1.19; 3.18; 10.3).

 

temo ao SENHOR. Jonas também se identifica em termos religiosos. O Senhor seu Deus não é apenas uma divindade pessoal, familiar, ou nacional. Ele é o Deus supremo e soberano, o Criador da terra e mar.

 

o Deus do céu. Um título antigo (Gn 24.3, 7) também comumente usado no período persa depois do Exílio (2Cr 36.23; Ed 1.2; Ne 1.4, 5; 2.4).

 

*          1.17 Deparou o SENHOR. Lit. “O Senhor designou.” A mesma palavra hebraica também ocorre em 4.6-8; em cada ocorrência indica um exemplo surpreendente da soberania de Deus sobre o mundo natural.

 

um grande peixe. A espécie de baleia ou peixe que engoliu a Jonas não pode ser identificada com segurança. Sugestões incluem a baleia cachalote ou um grande tubarão. O peixe era o instrumento de Deus para resgatar Jonas das profundezas do mar (“o ventre do abismo,” 2.2).

 

três dias e três noites. Jesus se referiu ao livro de Jonas a fim de comunicar verdades relacionadas com sua própria mensagem e missão (Mt 12.38-41; 16.4; Lc 11.29-32). Ele fala do “sinal do profeta Jonas” não só com referência aos três dias e três noites em que Jonas esteve no peixe (Mt 12.39, 40), mas também com relação à eficácia da pregação de Jonas. Sem contemplar nenhum milagre, os ninivitas reconheceram que a mensagem de Jonas tinha autoridade divina, e assim responderam com arrependimento.

 

*          2.1-10 A resposta de Jonas ao julgamento divino é expressa na forma de um salmo de ação de graças (v. 9). O lamento do profeta concentra-se no caráter desesperador de sua situação usando termos típicos nas descrições poéticas da morte ou da proximidade à morte. Em sua difícil situação, ele volta os seus olhos para o santo templo do Senhor, o sinal físico da presença salvífica do Senhor no meio do seu povo. Esse salmo é um testemunho comovente para o coração de Israel e para o coração do profeta, mas ele ainda tinha muito que aprender. Sua visão da misericórdia de Deus ainda era pequena.

 

*          2.1 Jonas... orou. Assim como o estilo das narrativas do Antigo Testamento, a história de Jonas é interrompida com um poema (vs. 2-9), um salmo de ações de graça e celebração pela libertação e misericórdia do Senhor. A estrutura literária é típica de um salmo de ação de graças: (a) petição por livramento (2.2); (b) exposição do problema (2.3-6); (c) descrição da libertação (2.6, 7); e (d) louvor pela libertação (2.8, 9).

 

 *         2.2 clamei... e ele me respondeu. Usando o modelo poético de paralelismo, o salmo de Jonas é apresentado em dois versos que falam da oração do profeta e da resposta do Senhor. Jonas reconhece que ele foi resgatado “do ventre do abismo” (uma sepultura nas profundezas do mar).

 

*          2.3-6 Esses versículos contém uma vívida lembrança da angústia da proximidade da morte, suas causas, e seus resultados. O sofrimento de Jonas era resultado do julgamento pelo Senhor de sua desobediência. O quadro do sepulcro é apresentado vividamente:  o envolvimento nas algas marinhas, o silêncio das águas profundas, e as ondas passando por cima da vítima.

 

*          2.4 lançado estou de diante dos teus olhos. Para o profeta, o supremo terror da morte era a separação da presença do Senhor (Sl 88.4, 5, 10-12).

 

tornarei, porventura, a ver o teu santo templo? O templo de Jerusalém era a localização terrena da presença divina. Jonas desejava ardentemente a comunhão com Deus que o templo proporcionava. O profeta lamenta agora ter perdido a mesma presença divina de que ele antes havia procurado evadir-se (1.3, 10).

 

*          2.6 Desci. Jonas estava à porta da morte. Sua lenta e silenciosa descida através das profundezas, como uma viagem ao submundo, o tinha conduzido às “portas da morte” (Sl 9.13).

 

fizeste subir da sepultura a minha vida. Aqui “sepultura” é usada para descrever o domínio da morte (Jó 33.22, 24; Sl 49.9; Is 51.14). Apesar da situação sem esperança, o arrependido profeta é resgatado do domínio da morte e restaurado à comunhão com Deus.

 

*          2.7 eu me lembrei do SENHOR. O contexto indica que essa oração foi respondida; a importância e eficácia da oração é novamente enfatizada, como no v. 2 (cf. Hb 4.16).

 

*          2.8 Os que se entregam à idolatria vã. Lembrando-se da ineficácia das orações dos marinheiros e da dos seus deuses (1.5), Jonas condena aqueles que colocam a sua fé em ídolos.

 

*          2.9 Ao SENHOR pertence a salvação! Como Josué antes dele (Js 24.14, 15), Jonas declara sua lealdade ao Senhor e o exalta como a única fonte de salvação e livramento. Em conceder a salvação a Jonas, o Senhor levou o profeta da desobediência ao arrependimento; em conceder a salvação aos ninivitas, ele os levará da idolatria à fé (3.5-10); em conceder salvação aos gentios, ele soberanamente os leva à fé e ao arrependimento (At 11.17, 18).

 

*          2.10 Falou, pois, o SENHOR...este vomitou a Jonas. Novamente a criação responde com obediência às ordens soberanas do Criador (1.4, 15, 17). O peixe, que poderia ter sido a arma mortífera de Deus, pela graça se tornou em instrumento de libertação.

 

*          3.1-4.11 Nesta segunda divisão do livro, Jonas prega a mensagem que Deus lhe ordenou, e o povo de Nínive responde com verdadeiro arrependimento (cap. 3). Quando o Senhor deixa de executar o juízo que os ameaçava, nós passamos a perceber o verdadeiro motivo da primeira fuga de Jonas: ele temia que Deus mostrasse sua misericórdia para com os odiados assírios (4.2). Nas lições práticas que se seguem, a extensão da misericórdia de Deus e sua compaixão são reveladas (4.5-11).

 

*          3.3 Levantou-se, pois, Jonas, e foi. Tendo compreendido que o chamado de Deus é irrevogável (cf. Rm 11.29), Jonas obedeceu à renovação do mesmo. Embora ele tenha obedecido a Deus desta vez, Jonas está “desgostoso” com a perspectiva do arrependimento dos ninivitas (4.1, 2).

 

Nínive era. Alguns tem sugerido que o uso do passado (“era”) indica que a cidade não existia mais no momento da escrita deste livro. Tomando-se em conta a destruição da cidade em 612 a.C. pelos medos e babilônios, essa interpretação dataria a narrativa em algum momento após o final do século VII a.C. Contudo, o uso do passado aqui não exclui uma data no século VIII, pois ele pode indicar simplesmente a situação da cidade quando o profeta chegou.

 

cidade mui importante... de três dias para percorrê-la. O hebraico aqui é de difícil tradução. Muitos estudiosos interpretam essas expressões como uma referência ao tamanho físico de Nínive. A exploração arqueológica tem mostrado que a cidade tinha entre cerca de 12 km de circunferência com uma população estimada em 120.000 pessoas. Outros sugerem que a primeira fórmula deveria ser traduzida por “uma cidade muito importante” ou mais lit. como “uma cidade importante para Deus” (enfatizando sua significância ao invés de seu tamanho). Esta última interpretação se encaixa melhor no contexto. A segunda expressão (lit. “jornada de três dias”) pode indicar a duração da visita reservada (em termos de protocolo diplomático no antigo Oriente Médio) para um emissário com destino a uma cidade tão importante.

 

*          3.5 Os ninivitas creram em Deus. Os piores temores de Jonas se tornaram realidade quando o povo creu, se arrependeu, proclamou um jejum, e se vestiu de pano de saco (a vestimenta tradicional de lamentação no antigo Oriente Médio). O arrependimento foi rápido e abrangeu a toda a cidade.

 

*          3.6 rei de Nínive. Aparentemente uma referência ao poderoso rei da Assíria. Embora fosse altamente improvável que os registros assírios contivessem essa ocorrência incomum, alguns estudiosos têm associado esse evento com as reformas religiosas de Adade-nirari III (810-783 a.C.). Também tem sido sugerido o reino de Assur-dan III (772-755 a.C.).

 

levantou-se... assentou-se sobre cinza. A reação do rei foi tão imediata e espontânea como a de seus súditos. A autoridade real deu lugar à humildade penitente. Ele trocou suas vestes por pano de saco, seu trono por uma cama de cinzas (cf. Jó 42.6; Is 58.5).

 

*          3.7 mandado do rei. Com o edito real ordenando a oração, rituais de lamentação, e jejum para homens e animais, o arrependimento de Nínive estava completo. A inclusão de animais demonstra a sinceridade e a totalidade de seu arrependimento. Além do mais, era costume entre os persas incluir animais domésticos nos rituais de lamentação.

 

*          3.8 e se converterão... violência. Essa repreensão real se dirigia aos pecados mais proeminentes de Nínive. A violência física e a injustiça social eram marcas registradas do Império Assírio (Na 3.1).

 

*          3.9 O rei dá expressão pessoal e coletiva à esperança de que o arrependimento verdadeiro irá impedir o juízo divino. A estrutura de 3.5-9 se conforma ao típico modelo vetero-testamentário de narrar o arrependimento coletivo (Jr 36.3; Jl 2): (a) ameaça de julgamento, (b) reação penitente, e (c) decisão divina de reter o juízo.

 

*          3.10 Viu Deus o que fizeram. A advertência profética (v. 4) tinha uma condição implícita, a saber, que o julgamento era iminente — se a cidade não se arrependesse. Ao converter-se do “seu mau caminho”, os ninivitas cumpriram essa condição. A mudança dos planos do Senhor (i.e., sua escolha soberana de fazer com que sua própria ação dependesse de resposta humana) é totalmente compatível com a soberania de Deus e sua imutabilidade, visto que ele decreta os meios bem como os fins da sua soberana vontade (Jr 18.7-10). Ver nota em Gn 6.6.

 

*          4.1-11 O livro termina com a lição recebida pelo furioso Jonas acerca da misericórdia divina e compaixão do próprio Deus. É notável que não somos informados de como Jonas reagiu diante dessa instrução. Ao invés disso, nós ficamos com o contraste entre a atitude ressentida de Jonas e a grande misericórdia de Deus para com os ninivitas.

 

*          4.1 desgostou-se Jonas extremamente. O hebraico é particularmente vívido (lit. “Era mau a Jonas como um grande erro”). A emoção de Jonas é expressa na linguagem mais forte possível. Seu maior temor era que o Senhor iria conceder perdão ao mais odiado inimigo de Israel.

 

*          4.2 és Deus clemente... te arrependes do mal. A razão inicial para a fuga de Jonas para Társis é revelada. Apesar de sua desobediência patente e sua intolerância, Jonas entendeu o caráter de Deus. Aqui ele reproduz uma fórmula litúrgica descrevendo a misericórdia de Deus a um Israel não merecedor (ex., Êx 34.6; Nm 14.18; Ne 9.17; Sl 103.8; Jl 2.13). Somente aqui e em Joel 2.13 a referência ao arrependimento divino (“que se arrepende do mal”) finaliza a fórmula (3.10, nota), uma inclusão apropriada para o contexto do arrependimento e absolvição de Nínive.

 

*          4.5 Jonas saiu da cidade... fez uma enramada. Grato por seu próprio livramento, Jonas ainda se recusa a aceitar o dos ninivitas. Esperando que o Senhor executasse o julgamento, Jonas sai da cidade para um lugar estratégico a fim de poder ver a destruição da cidade.

 

*          4.6 fez o SENHOR Deus nascer uma planta. Ver nota em 1.17. Provavelmente devido à escassez de madeira nessa região árida, o abrigo de Jonas não era adequado para proporcionar proteção do ardente sol do Oriente Médio. O tipo de vegetação gerada aqui é incerta; alguns sugerem a mamoneira, que cresce rapidamente a até uma altura de 4 metros e meio.

 

*          4.7, 8 A mesma mão divina que, em sua misericórdia, havia providenciado o grande peixe e a sombra, agora traz um verme para secar a planta, e um vento quente do leste (provavelmente o temido siroco do mundo mediterrâneo) para atormentar o já amargurado profeta.

 

*          4.9-11 A intenção divina das lições práticas é agora revelada. A grandiosa compaixão de Deus pelo povo e os animais que ele criou e sustentou (v. 11) é contrastada com a intolerante preocupação de Jonas com a planta (v. 10). O leitor lembra da compaixão de Jesus quando ele contemplava as multidões (Mt 9.36; Mc 6.34; 8.2), e sua afirmação em Mt 10.29 de que nem um pardal cairá se não for essa a vontade do Pai. Em sua infância, a igreja do Novo Testamento, que em grande parte era judaica, iria ainda lutar novamente com a questão da dimensão da misericórdia de Deus, quando o Senhor abria os corações dos gentios para obedecer ao evangelho (At 11.18; 15.14; 28.28).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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