O Livro das LAMENTAÇÕES

 

Autor  

Tradicionalmente atribui-se o livro das Lamentações ao profeta Jeremias. Isso foi válido pelo menos a partir da data da Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento (c. 250 a.C.), onde uma nota sobre a autoria do livro pelo profeta aparecia como título antes do primeiro versículo. A idéia de Jeremias como seu autor pode ter sido encorajada por 2Cr 35.25, onde se lê que Jeremias compôs lamentações para o rei Josias. No livro propriamente dito não há indícios diretos de que Jeremias seja seu autor, embora algumas passagens do texto lembrem nitidamente as características e estilo desse profeta, especialmente o capítulo 3 (Lm 3.48-51; Jr 14.17). Contudo, como o livro se compõe de cinco poemas que diferem ligeiramente em estilo, às vezes parecendo ser expressos por um indivíduo (cap. 3) e às vezes por toda uma comunidade (cap. 5), os poemas podem ter sido produzidos por escritores diferentes.

 

Data e Ocasião          

Entretanto, a ligação entre as Lamentações e Jeremias continua muito plausível,  não apenas pela ocorrência de expressões similares, mas também pela sua localização [espacial e temporal] e pelo tema dos poemas. O lugar é sem sombra de dúvida Judá, em especial Jerusalém, e mais especificamente o período após a queda do reino de Judá em poder da Babilônia em 586 a.C. e antes da restauração dos exilados em 538 a.C. O lamento concernente à perda do rei de Judá (2.2,9), diferente de outras devastações de Jerusalém, fixa este período como a ocasião das lamentações.

            Sua localização durante o período do exílio na Babilônia torna o livro das Lamentações uma seqüência perfeita do livro de Jeremias. Da mesma forma que o profeta havia previsto a destruição de Jerusalém, o livro das Lamentações expressa  sofrimento em razão desse mesmo acontecimento.

 

Características e Temas   

Os cinco capítulos do livro são cinco poemas. Esses poemas assumem a forma de lamentações, o mesmo acontecendo em outros livros do Antigo Testamento, especialmente nos Salmos. As lamentações (tanto da comunidade quanto do indivíduo) possuem algumas características peculiares, dentre as quais as mais comuns são: (a) queixa contra as adversidades, que o Senhor ou tolerara ou mesmo causara; (b) testemunho de confiança; (c) apelo pelo livramento fundamentado na natureza do Senhor e em sua aliança; e (d) certeza de serem ouvidos, e de que os inimigos e perseguidores, por outro lado, experimentarão a ira de Deus (Sl 74). O livro das Lamentações possui essas marcas características, embora representem um conjunto único de variações sobre elas. É às vezes comparado com um tipo específico de lamento, o lamento fúnebre (Am 5.1-3), mas não se encaixa bem nessa categoria, porque Jerusalém não é retratada uniformemente como “morta”.

            O livro das Lamentações é a mais clara evidência de métrica na poesia hebraica , e parece utilizar um verso de cinco sílabas métricas divididas em três e dois. Essa métrica é chamada qinah, derivada do nome hebraico para Lamentações e é mais freqüentemente encontrado em poemas de caráter melancólico como esses.

            Uma segunda forma poética encontrada nas Lamentações é o acróstico, em que os versos ou conjuntos de versos são dispostos de acordo com as vinte e duas letras do alfabeto hebraico. Cada novo verso ou grupo de versos se inicia com a letra subseqüente. Esse método talvez indique que o poeta está tratando o assunto de forma completa. O acróstico empresta ainda uma forma para a expressão literária do pesar, permitindo ao seu autor tratar de temas que são quase profundos demais para serem expressos por palavras.

            O propósito das Lamentações não pode ser definido em uma única palavra. De certa forma sua produção foi em si mesma uma forma de chegar a um acordo sobre a destruição de Sião. O enfoque é da ira de Deus contra seu povo. A ira de Deus é considerada justa, Judá pecou, e os profetas transmitiram o aviso de Deus. Amós havia falado muito tempo antes sobre o dia do Senhor contra o seu povo (Am 5.18), dia este que agora havia chegado (Lm 1.12). O livro das Lamentações não expressa uma total perplexidade, como às vezes parece acontecer em Jó. Ao invés disso, justifica a punição de Judá e oferece uma vingança aos profetas que a prenunciaram.

            As Lamentações são tudo menos um texto de passiva resignação. A ira de Deus é aceita, mas não sem uma grande carga de resistência emocional. Poderia Deus agir como inimigo de seu próprio povo, e levá-lo a terrores que são penosos até de se descrever (2.4,5,20-22)? Embora o escritor compreenda a justiça de Deus, a agonia e perplexidade do acontecimento podem ser livremente expressas. O livro é uma mensagem poderosa em tempos de angústia e tristeza.

            Apesar de sua angústia, o poeta do Exílio é capaz de afirmar que Deus é misericordioso e fiel (3.22-36). Essa é a aliança do Deus de Abraão, de Isaque, de Jacó, cuja fidelidade aos patriarcas era o fundamento constante para novos apelos a Israel e Judá para que depositassem nele sua confiança (Mq 7.20). As Lamentações podem ser consideradas, no Antigo Testamento, juntamente com o próprio Abraão, talvez, como um dos exemplos supremos de fé em Deus. Jeremias profetizara que haveria um fim definitivo para o exílio na Babilônia (Jr 25.11). Lamentações anseia por esse dia, e espera também que os inimigos de Judá sejam julgados por seus crimes contra ela. Nessa esperança há um reconhecimento da soberania de Deus sobre todas as nações, soberania essa que abarca todos os mistérios (3.37-39). Nos dias que antecedem ao seu próprio grito de abandono (Mt 27.46) e o mistério de seu sofrimento redentor, o próprio Jesus faz um lamento sobre Jerusalém (Mt 23.37-39; Lc 13.34,35). A solenidade e a compaixão de suas palavras expressam a bondade e a severidade de Deus, que assegura a boa nova (Rm 11.22, 23).

            As Lamentações apontam para além da humilhação ou Jerusalém, ou seja, para a humilhação e exaltação de Cristo. Com base nisso, o mundo pode estar certo de que Deus é bom e que ele agirá com bondade no  devido tempo... “para a alma que o busca” (3.25).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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