*          1.1-22 A cidade escolhida de Sião, antes exaltada, agora estava humilhada.

 

*          1.1                   Como jaz solitária. Este primeiro versículo mostra qual o tema da lamentação: a perda da grandeza por parte de Jerusalém. A cidade, antes favorecida, agora estava desolada, devido ao saque efetuado pelos babilônios (Is 1.21-26).

 

como viúva. A viuvez e a solidão (Jr 15.17) são quadros típicos do abandono.

 

sujeita a trabalhos forçados. A servidão é contra o verdadeiro desígnio de Deus para Israel. Os israelitas tinham-se tornado uma nação quando Deus os libertou da escravidão no Egito, para que o pudessem servir (Dt 6.20-25; Jr 2.14; Dt 15.12-18). As bênçãos de quem vivia na Terra Prometida e trabalhava de conformidade com a Lei, foram substituídas pela punição no exílio e nos trabalhos forçados (Dt 28.47-50), porquanto o povo com freqüência tinha quebrado a aliança que eles haviam aceitado ao deixar o Egito (Êx 24.7,8).

 

*          1.2                   todos os que a amavam. Expressão com freqüência usada ironicamente para os vizinhos idólatras de Judá, com os quais essa nação voluntariamente se ligou (Jr 3.1).

 

não tem quem a console. Ver também os vs. 7,9,16. Isso deve ser comparado com o consolo prometido em Is 40.1. Aqui não há limitações para os efeitos das devastações provocadas pelos babilônios.

 

*          1.3 Quanto à queda de Judá, ver 2Rs 24.20—25.30; Jr 39 - 45, 52.

 

foi levado a exílio. Essa era a humilhação máxima do povo em aliança com Deus (Dt 28.63-68).

 

não acha descanso. A aliança divina havia prometido descanso em relação aos inimigos (Dt 12.9; 2Sm 7.1; cf. Dt 28.65).

 

*          1.4       A vida regular de adoração, no antigo povo de Israel, foi retratada aqui.

 

Os caminhos de Sião. Pessoas que viviam distantes percorriam esses caminhos na sua peregrinação para o templo (Sl 84.5).

 

à reunião solene. As principais reuniões anuais para a adoração eram as Festas da Páscoa, do Pentecoste e da colheita (Êx 23.14-17; Lv 23.4-44). Jerusalém ficava então apinhada de gente, e os sacerdotes presidiam sobre as vibrantes celebrações.

 

as suas virgens estão tristes. Esse é um sinal de derrota; contrastar com Jr 31.13.

 

*          1.5       os seus inimigos prosperam. Ver outros queixumes em Jr 12.1; Sl 73. Aqui o queixume aparece juntamente com uma confissão de pecados. Conforme os profetas tinham predito, a infidelidade de Judá levou a nação à ruína.

 

*          1.6       Da filha de Sião. Essa frase personifica Jerusalém (Jr 6.2); contudo, talvez também aluda às mulheres da cidade, que sentiam a angústia da mesma de forma mais aguda.

 

*          1.7       lembra-se Jerusalém. Uma vez mais, o amargo presente contrasta com um tempo anterior, mais feliz, possivelmente os tempos de Davi e Salomão.

 

*          1.8       Jerusalém pecou. Aqui é desenvolvida a idéia do pecado como a causa do exílio, primeiramente mediante o uso de figuras de linguagem de impureza ritual.

 

se tornou repugnante. Essa palavra provavelmente refere-se à menstruação (Lv 15.19-33). A conseqüência do pecado de Judá foi semelhante, se não mais severa: ser excluída da adoração a Deus, e, talvez, também a humilhação pública (cf. Jr 13.22,26).

 

*          1.9       A sua imundícia. Essas palavras intensificam a figura de linguagem de imundícia ritual.

 

Vê, SENHOR. Sião foi personificada pela primeira vez, introduzindo um elemento de apelo dirigido ao Senhor, uma parte normal da forma de lamentação (Introdução: Características e Temas).

 

*          1.10     no seu santuário. O templo deveria atrair as nações à adoração ao Deus de Israel (1Rs 8.41-43), mas agora invasores o deixaram contaminado.

 

*          1.11     Todo o seu povo... forças. O quadro de desolação torna-se vívido, ficando entendido que havia escassez de alimentos.

 

*          1.12     a todos vós que passais... se há dor igual à minha. Os sofredores imaginavam que seus sofrimentos eram sem precedentes. No entanto, ninguém parecia ter compaixão deles.

 

no dia do furor da sua ira. Essa expressão é uma lúgubre confirmação da profecia de Amós de que no dia do Senhor a sua ira seria contra o seu próprio povo (Am 5.18).

 

*          1.13     enviou fogo. Sião reconhecia que o próprio Senhor havia afligido o seu povo (Sl 88.13-18).

 

*          1.15     O Senhor dispersou. O Senhor, anteriormente um guerreiro em defesa de Israel (Dt 9.1-3), agora fez voltar o seu poder contra o seu próprio povo.

 

*          1.16    afastou de mim o consolador. Não havia quem ajudasse Judá, ninguém para consolar a nação — um tema dominante nestes versículos (2, 7, 9 e 17).

 

*          1.17     Jacó. Um nome histórico para Israel, derivado do nome de seu antepassado (Gn 32.38).

 

os seus vizinhos se tornem seus inimigos. A presença de Judá como algo imundo entre as nações falsifica seu papel originalmente planejado de testemunha da santidade de Deus (Êx 19.5,6).

 

*          1.18     Justo é o SENHOR. Sião justifica a punição aplicada pelo Senhor ao reconhecer o seu pecado. No entanto, o pensamento muda de novo, rapidamente, para a sua escravidão.

 

*          1.19     os meus amigos. Falham na hora da necessidade.

 

*          1.21     os meus inimigos. Sião apelou para o Senhor por causa da satisfação demoníaca dos inimigos. Seus insultos eram profundamente ofensivos para a posição de Judá como povo em comunhão com Deus segundo a aliança — e, por conseguinte, para o próprio Deus.

 

o dia. O dia do Senhor tornava-se agora um dia de terror para os inimigos de Sião. O lamento de Sião segue o padrão profético, em que os inimigos que administram o castigo divino finalmente chegam a sofrer eles mesmos (Jr 25.15-38).

 

*          1.22     Venha... minhas prevaricações. Finalmente, Sião assevera que seus inimigos merecem condenação tanto quanto ela mesma.

 

os meus gemidos. A petição para Deus punir, entretanto, não diminui as profundas angústias de Sião.

 

*          2.1-22 O segundo lamento sobre a perda da glória, por parte de Sião, tem começo, e o profeta retrata a ira do Senhor contra ela.

 

*          2.1       Como. Cf. 1.1 e nota.

 

Precipitou... a glória de Israel. A queda de Israel no desfavor divino é comparada a uma estrela cadente (Is 14.12).

 

e não se lembrou. Judá estava perplexa porque a promessa feita a Davi agora estava aparentemente sem valor (cf. Sl 89, especialmente os vs. 38-51). Isaías havia assegurado ao povo que Deus protegeria a Sião (p.ex., Is 37.35), e o povo de Judá tinha transformado em promessas absolutas essas palavras. Eles se tinham esquecido de que estavam na obrigação de guardar as condições da aliança divina firmada com eles (Êx 24.1-3).

 

do estrado de seus pés. Essa expressão, usada normalmente para indicar a arca da aliança (1Cr 28.2: Sl 132.7), ou a terra (Is 66.1), é aqui aplicada a Sião (cf. Sl 99.5).

 

*          2.2       as fortalezas. A força das cidades fortificadas de Judá tinha simbolizado a bênção divina resultante da fidelidade de Judá à aliança (2Cr 10.4-12).

 

*          2.3       força de Israel. Em lugar de "força", o original hebraico fala em "chifre". Isso é uma metáfora que indica a força e a prosperidade (contrastar com o v. 17). A linguagem faz vívido contraste (a) entre Judá e seus inimigos, bem como (b) entre a vida de Judá, como deveria ser, e como era agora.

 

*          2.4       qual inimigo. 1.15, nota.

 

derramou o seu furor. A figura de linguagem de uma guerra santa foi tipicamente usada para o juízo divino contra a nação de Judá (Sl 69.24).

 

Entesou o seu arco. Ver Dt 32.42. As flechas terríveis que visavam os inimigos de Deus (Dt 32.42), agora visam o povo dele (Os 5.10; Jr 6.11; 7.20).

 

*          2.5       filha de Judá. Ver a nota em 1.6.

 

*          2.6       o seu tabernáculo... o lugar da sua congregação. Essas são referências ao templo.

 

o SENHOR... pôs em esquecimento... o sábado. 1.4, nota. Esta frase poderia ser traduzida por: "O Senhor fez as festas e os sábados coisas esquecidas em Sião", uma justiça irônica, pois primeiramente foi o povo que esqueceu os sábados (Am 8.5; Jr 17.19-27).

 

*          2.7       o seu altar... o seu santuário. O julgamento por Deus destruiu não somente o lugar onde ele habitava, mas também o meio de Israel aproximar-se dele em adoração. Os clamores dos inimigos triunfantes substituíram o clamor das assembléias que adoravam a Deus.

 

*          2.8       estendeu o cordel. Isso foi feito como se quisesse fazer o levantamento topográfico da cidade, com vistas à sua destruição (Is 34.11; Am 7.7,8).

 

*          2.9       lei... visão... os seus profetas. Não somente foram destruídas as instituições religiosas, mas o Senhor reteve suas revelações. A visão profética que acompanhava a pregação da Lei tinha cessado (Jr 8.8-10; 18.18; 1Sm 3.1).

 

*          2.10     os anciãos... pó... cilício... abaixam as cabeças. Esses são gestos convencionais de quem se lamenta (Jó 2.12,13; Lm 1.4).

 

*          2.11     Com lágrimas se consumiram os meus olhos. Cf. o sofrimento natural do poeta, por causa da agonia de seu povo, com as experiências de Jeremias (Jr 4.19); e note também os quadros de desolação que acompanham as expressões angustiadas do profeta (Jr 4.31).

 

*          2.11,12            os meninos e as crianças de peito... suas mães. O profeta ficava especialmente comovido diante da visão de crianças que padeciam.

 

*          2.13     para te consolar a ti. O significado dessa frase parece ser: "Que posso dizer-te sobre o sofrimento, tu que tanto tens sofrido?" Nenhuma resposta fácil ocorre a quem é testemunha de tristezas como aquelas.

 

consolar. Ver a nota em 1.2.

 

*          2.14     visões falsas. O pensamento avança, tendo partido do v.9. Agora os profetas aparecem como quem profetizou falsamente. O problema complexo da profecia falsa é um tema repetido nos livros proféticos (Jr 5.12,13; 23.9-40; 28). Dt 18.21,22 fornece-nos um critério por meio do qual os profetas podem ser julgados verdadeiros ou falsos.

 

*          2.15     a perfeição da formosura... a alegria de toda a terra? A beleza do lugar escolhido é extravagantemente expressa (Sl 50.2; 48.2), mas por zombadores que motejam das ruínas e da agonia de Jerusalém.

 

*          2.16     Devoramo-la. Nos vs. 2 e 5, o próprio Deus aparece como quem tinha devorado o seu povo. Conforme este versículo deixa claro, ele fizera isso usando os inimigos de Judá como seus agentes. Este versículo também deixa claro como as nações, orgulhosamente, atribuíram sua vitória sobre Judá às suas próprias forças.

 

*          2.17     cumpriu a ameaça que pronunciou desde os dias da antiguidade. Os propósitos de Deus no juízo foram declarados nas maldições segundo a aliança (Lv 26.23-39; Dt 28.15-68); o atual estado de Judá tinha acontecido em consonância com os propósitos conhecidos de Deus.

 

o poder. Ver a nota no v.3.

 

*          2.18     Ó muralha. Há uma forte ironia neste fútil clamor dirigido às muralhas de Jerusalém, um símbolo da força imaginária da nação.

 

de dia e de noite. Cf. Dt 28.67.

 

*          2.19     teus filhinhos. Ver a nota no v.12.

 

*          2.20     Hão de as mulheres comer o fruto de si mesmas. O tema do sofrimento das crianças inocentes atingiu o ápice do sentimento (Jr 19.9). Seu poder como um apelo a Deus é fomentado por se saber que Deus conhece o afeto maternal (Is 66.13). Tão extremo, por si mesmo, é o ultraje do sacrilégio: os ungidos do Senhor são mortos no seu santuário.

 

o sacerdote e o profeta? Quanto aos pecados dos sacerdotes e dos profetas, ver 4.13.

 

*          2.21     o moço e o velho. O horror da morte na juventude é contrastado com a bênção de atingir uma idade avançada (Jó 42.17).

 

*          2.22     terrores como num dia de solenidade. Esse contraste entre convocar para a alegria de uma festa e convocar para a desgraça é tremendamente poderoso.

 

terrores. ver Jr 6.25; 20.10.

 

no dia da ira do SENHOR. O poema termina por onde começou, sem qualquer alívio no retrato sombrio.

 

*          3.1-66 Quando um indivíduo expressava a tristeza da comunidade, a esperança e o consolo eram sustentados pelo conhecimento do amor compassivo de Deus.

 

*          3.1       Eu sou o homem. Este capítulo é um acróstico com três versículos para cada letra do alfabeto hebraico. Quanto à possível identidade do autor com Jeremias, e à forma de poesia acróstica como um aspecto da poesia dos hebreus, ver a Introdução e mais abaixo. Quanto a retratos do próprio Senhor como aquele que tinha afligido o escritor, ver Jó 19.21; Sl 88.7,15; Jr 15.17,18. Neste poema, um indivíduo exprime a tristeza de sua comunidade (vs. 22,40-47).

 

*          3.2       em trevas e não na luz. Contrastar com Is 9.2. As trevas são uma metáfora para a aflição experimentada como a ausência de Deus; a luz representa o contrário: salvação e bênção. O dia do Senhor é descrito nesses termos em Am 5.18.

 

*          3.4       a minha pele... os meus ossos. Essas são características de aflição física, talvez devidas à idade avançada ou à enfermidade (Jó 13.28; Is 38.13).

 

*          3.5       de veneno e de dor. Os efeitos emocionais e físicos da aflição andam de mãos dadas.

 

*          3.6       como os que estão mortos para sempre. As aflições e as enfermidades da vida diminuem a sua plenitude, culminando na morte. Em sua condição debilitada, o profeta considerava-se ter pouco mais de participação na vida do que se estivesse, realmente, morto. Na perspectiva dos vivos, os mortos nem ao menos existem, ou existiriam como sombras (Pv 2.18; 9.18 e notas). Quanto a outros quadros sobre a morte, no Antigo Testamento, ver Jó 3.11-19; Sl 6.5; 115.17; Is 14.18,19. Contra esse pano-de-fundo, o Antigo Testamento mostra-se eloqüente em seu testemunho em prol da ressurreição além do sepulcro (Jó 19.25-27; Sl 16.9-11; 49.15; 73.24).

 

*          3.8       ele não admite a minha oração. Quanto a orações que não são ouvidas, ver Sl 10.1; 13.1 e 22.1,2.

 

*          3.10-12 urso... flecha. Alguns dos perigos que poderiam atingir realmente o viajante, são maneiras vívidas de exprimir terror e aflição.

 

*          3.14     objeto de escárnio. Ver Jr 20.7.

 

*          3.17     paz... bem. Essas condições, a súmula da bênção, estavam totalmente ausentes.

 

*          3.18     minha glória... no SENHOR. A expressão de desesperança atinge aqui o seu ponto culminante.

 

*          3.20     os recorda. A experiência do poeta é um símbolo das experiências do povo; ver a linguagem em 1.7.

 

*          3.21     Quero trazer à memória. As lembranças que antes desencorajavam, agora encorajam (Sl 77.3-9,10-15). A memória da dedicação de Deus a seu povo faz manar a esperança do desespero.

 

*          3.22-24 O ponto culminante do poema e do Livro é atingido aqui. A forma de lamentação tem pontos cruciais onde a experiência de rejeição por parte de Deus transforma-se, inesperadamente, em confiança, com base no conhecimento do caráter de Deus e em suas misericórdias passadas. Ver as confissões de confiança e esperança, em Sl 22.

 

*          3.22,23 Ver "Deus É Amor: A bondade e a Fidelidade Divinas", em Sl 136.1.

 

*          3.22     As misericórdias. Quanto à palavra hebraica (hesed), ver Sl 36.5, nota. A forma plural, usada aqui, relembra muitos atos, ou, talvez, as riquezas da misericórdia divina.

            A dedicação de Deus à aliança está sempre ligada à sua compaixão, um termo que envolve uma profunda emoção. Não somos consumidos porque a compaixão de Deus não se esgota. A ira de Deus contra o seu povo termina porque a sua compaixão não pode terminar (4.22; Os 11.8).

 

*          3.23     cada manhã. O amor de Deus fará raiar a manhã da salvação (Sl 90.14; Ml 4.2; Lc 1.78).

 

fidelidade. A confiabilidade ilimitada de Deus, torna-o digno de fé (Hc 2.4).

 

*          3.24     A minha porção. Esta frase nos relembra as alocações territoriais às tribos de Israel. Os sacerdotes e os levitas, que não receberam porções sob a forma de terras, tinham o Senhor como sua porção (Nm 18.20; cf. Sl 73.26).

 

*          3.25     Bom é o Senhor... para a alma que o busca. Deus é sempre bom para com aqueles que o buscam, põem nele a sua esperança, e nele aguardam (cf. 1Cr 28.9). O tríplice "bom" que aparece neste contexto (cf. vs. 26 e 27) enfoca a bondade de Deus.

 

*          3.27     na sua mocidade. Ao que tudo indica a referência é aos sofrimentos de Jeremias no começo e no meio de sua vida, talvez significando que ele seria aliviado em sua idade avançada. Talvez a comunidade, como se fosse um único indivíduo, deveria ter a esperança que o jugo seria retirado com o decorrer do tempo.

 

*          3.28-30           porquanto... farte-se da afronta. O profeta exortou os aflitos a suportarem o presente sofrimento, à luz das afirmações existentes nos próximos versículos.

 

Assente-se solitário. Cf. 1.1.

 

*          3.30     Dê a face ao que o fere. A humilhação sofrida por Israel serviu de prefiguração da humilhação de Cristo (Is 50.6; Mt 26.67).

 

*          3.31-33 Visto que Deus é cheio de compaixão, a presente experiência de sua ira tem que ser de breve duração (Sl 30.5; Is 54.7; Os 6.1). Uma vez mais, a compaixão é vinculada ao amor (no hebraico, hesed, 3.22) infalível de Deus. Deus não aflige os homens "de bom grado", isto é, "com alegria" e "de todo o seu coração", nem mesmo por ocasião do Juízo Final.

 

*          3.34-36 O que fica implícito nestes versículos é que Deus não pode aprovar tais coisas (Jó 8.3). Naturalmente, Deus tem aprovado essas mesmas coisas, visto que ele as tem feito acontecer. Esse era o problema de castigo e de aflição que o poeta enfrentava.

 

*          3.37,38 Tudo quanto acontece é pela palavra de Deus (Gn 1.3), tanto a calamidade quanto o bem (Am 3.6).

 

*          3.39 Visto que tudo acontece pela palavra do Senhor, nenhum homem vivo pode queixar-se quando Deus manda a calamidade como castigo contra o pecado.

 

Queixe-se cada um dos seus próprios pecados. O pecado dos indivíduos é uma parte importante da resposta do profeta ao problema da condenação e da aflição (por mais temível que seja o juízo divino, 2.20-22). A frase, no seu original hebraico, implica que o pecado e o conseqüente castigo pertencem, inescapavelmente, um ao outro.

 

*          3.40-47 Note o leitor que os que falam estão no plural, por toda esta seção.

 

*          3.40-42           Esquadrinhemos... Nós prevaricamos. Temos aqui uma chamada ao arrependimento, ao reconhecimento do pecado. O impulso para confessar os pecados parece ceder caminho imediato a uma lamentação renovada, após a declaração que diz: "Tu não nos perdoaste" (v.42). A confissão pode ter sido superficial ou hipócrita. Em ambos os casos as penalidades não foram suspensas.

 

*          3.43-45           Cobriste-nos de ira... no meio dos povos. Aqui o profeta faz uma paródia com as ações de Deus no êxodo. Naquela ocasião a ira de Deus ajudou a Israel; foram os inimigos dos israelitas que foram mortos sem piedade; e a nuvem era um sinal de favor divino. Israel era preciosa entre as nações, e não "cisco e refugo".

 

*          3.48-66 Aqui o discurso reverte novamente para o singular.

 

torrentes de águas. Há fortes ecos do livro de Jeremias, nesta íntima associação entre a tristeza do povo e a tristeza do poeta. É sugerida uma ligação entre os sofrimentos do povo e os sofrimentos do poeta.

 

*          3.49     Os meus olhos choram. Essas palavras refletem uma linguagem familiar de lamentação (Sl 6.6; 42.3; Jr 9.1; 18).

 

*          3.52     sem motivo são meus inimigos. Sl 35.19; Jo 15.25.

 

*          3.53     lançaram-me na cova. Sl 28.1; 88.6. A vida de Jeremias pode estar novamente em vista, nestes versículos (Jr 38.6).

 

*          3.55     cova... invoquei o teu nome. Ver Sl 16.10,11; 30.1; e a experiência de Jonas (Jn 2.2-7). O sofrimento de Cristo como o justo Servo do Senhor leva ao mais alto cumprimento esse tema recorrente dos profetas sofredores e seu livramento pelo Senhor.

 

*          3.56     Ouviste a minha voz. O ponto crucial da lamentação é atingido quando ao poeta se garante que o Senhor tinha ouvido a sua oração (Sl 6.8-10).

 

*          3.57     Não temas. Essa é uma exortação comum no Livro de Isaías (p.ex., Is 41.10; cf. Mc 6.50).

 

*          3.58-66           Esta seção adota o tema bíblico dos sofrimentos inocentes e vicários que atingiram o seu ponto culminante na morte de Cristo em favor daqueles que ele veio salvar.

 

*          3.58-60           a causa... remiste a minha vida... a minha causa. Em Jeremias 50.34, o Senhor é o Redentor de Judá e pleiteia pela causa dos seus habitantes. Aqui o Senhor pleiteia contra eles, porquanto se tinham voltado contra o seu profeta.

 

*          3.64-66           Tu lhes darás a paga. A nota de vingança se faz presente em Jr 12.1, tal como em Sl 77.6,7.

 

*          4.1-22 Este capítulo, que contém o mais vívido retrato das agonias de Judá, lamenta o castigo de Sião, mas dá a certeza de que como estava cessaria.

 

*          4.1       o ouro!... as pedras do santuário. O ouro e os ricos utensílios do templo de Salomão foram levados embora por Nabucodonosor (2Rs 25.9).

 

*          4.2       Os nobres filhos... puro ouro. A idéia do ouro é imediatamente transferida para as próprias pessoas, mais valiosas do que as riquezas do templo. Na qualidade de "propriedade peculiar" (Êx 19.5), elas tinham sido muitissimamente preciosas; mas agora eram o barro mais comum.

 

*          4.3       Até os chacais. Is 1.2,3.

 

Os avestruzes. Essas aves serviam de figura proverbial da dureza de coração dos pais para com seus filhos (Jó 39.16). Essa indiferença é um tema deste capítulo (v.10), desenvolvido a partir de 2.20.

 

*          4.5       comidas finas. A figura de alguém rico, que se alimentava delicadamente, e que cai subitamente em grande necessidade e perigo é reverberada com freqüência nos escritos dos profetas (Am 4.1-3; 6.1; Jr 6.2).

 

*          4.6       maldade. Essa palavra hebraica também pode ser traduzida por "castigo" ou por "iniqüidade", de acordo com o contexto, visto que as duas idéias estão tão intimamente ligadas uma à outra. Neste capítulo, essa conexão é forte, onde o intenso sofrimento de Judá é vinculado repetidamente a seu pecado desnatural.

 

Sodoma. Os profetas com freqüência usam Sodoma como um arquétipo do julgamento divino contra o pecado (Dt 29.23; Is 1.10; Jr 23.14; Ez 16.46; Os 11.8; Am 4.11; Lc 17.28-30). A comparação com Sodoma é aplicável aos pecados da cidade bem como ao temível julgamento divino que lhe sobreveio.

 

*          4.7       seus príncipes. Algumas versões dizem aqui "nazireus". Nm 6.1-21, nota.

 

mais brancos... mas ruivos. Essas são cores com freqüência associadas ao corpo humano.

 

*          4.8       Mas agora. Ironicamente, nas dificuldades que então predominavam, ninguém se distinguia como pessoa especial; todas as distinções tinham sido obliteradas.

 

*          4.9       Mais felizes foram as vítimas da espada. A desgraça do povo judeu era desesperada e miserável. A morte por meio da fome não é um julgamento sumário e instantâneo; em sua lentidão revela ao máximo os horrores do juízo divino a um grau temível (Dt 28.54-57).

 

*          4.10     mulheres... seus próprios filhos. Ver o v.3.

 

*          4.11     indignação. O enfoque volta à ira de Deus; no pecado cometido por Judá há uma explicação até para esses males.

 

*          4.12     os reis da terra. É possível que essa frase refira-se à suposta inexpugnabilidade de Sião, reforçada pelo dramático fracasso dos assírios que não conseguiram tomar a cidade, depois que Senaqueribe conquistou o resto de Judá, em 701 a.C. (2Rs 18.13—19.37).

 

*          4.13     seus profetas... seus sacerdotes. Ver a nota em 2.20 e Jr 5.30,31; Mq 3.9-12.

 

*          4.14     Erram como cegos nas ruas. Dt 28.28,29.

 

andam contaminados de sangue. Deus, em sua ira, fez os sacerdotes e profetas de Sião se tornarem ritualmente imundos. Em outro lugar (Is 59.3) a frase refere-se a sangue derramado pela culpa. Ironicamente, o sangue que contaminava esses errantes cegos era o próprio sangue deles.

 

*          4.15     imundos! Lv 13.45.

 

Quando fugiram errantes. Cumpriu-se assim a maldição de Dt 28.65,66.

 

*          4.17     povo. Caracteristicamente, Israel e Judá buscaram ajuda nos pactos políticos, e não no Senhor (Is 7; 30.1-5; Jr 24).

 

*          4.19     as aves dos céus. Jr 4.13.

 

*          4.20     o ungido do SENHOR. Essa é uma referência à esperança no rei davídico, especialmente após as reformas instituídas por Josias (2Rs 22 e 23). Essa reforma, embora religiosa, tinha também asseverado a independência de Judá e parecia confirmar a antiga promessa feita a Davi (2Sm 7). O último rei de Judá, deportado por Nabucodonosor, foi Zedequias (2Rs 25.7). Não obstante, Jeremias prometera a salvação final através do Renovo justo de Davi, o Messias (Jr 23.5-8).

 

*          4.21,22            ó filha de Edom. Esse era um dos inimigos históricos de Israel. A inimizade dos edomitas era mais escandalosa por causa de uma antiga afinidade de sangue; Edom era outro nome para o irmão gêmeo de Jacó, Esaú (Gn 25.30). Mas a nação de Edom também cairia por sua vez (Obadias e Jr 49.7-22).

 

O castigo da tua maldade está consumado. Em outras palavras, "Tua culpa terá fim". Por causa da misericórdia e da compaixão de Deus, a culpa de seu povo chegaria ao fim e, em contraste com Edom, os judeus seriam libertados. Ver Is 40.2 e Jr 49.7-22.

 

*          5.1-22 Repassando os efeitos contínuos da degradação de Sião, o poeta fez um apelo final em prol da restauração.

 

*          5.1       Lembra-te... do que nos tem sucedido. Essa é uma típica abertura de uma lamentação comunal. Sião não mais aparece nas agonias imediatas do cerco e do saque (tal como se vê no capítulo 4), mas em um estágio posterior da aflição, quando a súbita violação da terra já tinha cedido lugar a uma opressão dura e humilhante.

 

*          5.2       A nossa herança. A Terra Prometida, como um todo, era a herança de Israel da parte de Deus (Dt 4.21; 12.9), enquanto que o território de Judá foi dado especificamente à tribo desse nome (Js 15.20-63).

 

a estranhos... a estrangeiros. Deus havia dado a Terra Prometida a Israel, e até lhes tinha conferido instruções para que expelissem os estrangeiros. Agora tudo isso virara de ponta cabeça.

 

*          5.3       somos órfãos... são como viúvas. A posição dessas classes era precária e dependente. Israel recebera ordens para cuidar deles, visto que sua condição negava-lhes acesso normal aos produtos da terra (Dt 14.28,29).

 

*          5.4       A nossa água por dinheiro a bebemos. Essa necessidade era uma inversão irônica de Dt 6.10,11, e, especificamente, de Js 9.21-23.

 

*          5.5       não temos descanso. Essa condição era outra inversão de uma bênção prometida em Deuteronômio (Dt 12.9; Lm 1.3).

 

*          5.6       aos egípcios e aos assírios. Esse tipo de submissão não somente era humilhante, mas também perigosa (2Rs 18.14).

 

*          5.7       Nossos pais pecaram... nós é que levamos o castigo. Uma descrição semelhante de solidariedade entre as gerações se acha em Êx 20.5, bem como nos Livros de 1 e 2 Reis, com seus registros de culpa acumulada através das gerações. Passagens tais como Ez 18 (notas; Jr 31.29,30) esclarecem aqueles que questionam a justiça de alguém ser julgado por pecados que ele não cometeu. Ezequiel respondeu que aqueles que compartilham do julgamento de seu pai compartilharam nos pecados de seu pai: cada geração fica com a culpa de seus próprios pecados, e não com os pecados das gerações anteriores tão-somente.

 

*          5.8       Escravos dominam. Quando escravos babilônicos davam ordens a Israel, havia uma irônica distorção nos relacionamentos verdadeiros entre Deus, Israel e as nações. Israel, na realidade, era uma nação libertada da escravidão (Dt 15.12-18); e aqueles que não serviam ao verdadeiro Deus deveriam estar em escravidão. Ver 1.1, nota.

 

*          5.9       espada do deserto. Talvez isso se refira aos assaltantes do deserto, que tiravam proveito da comunidade debilitada de Israel.

 

*          5.11-13           Temos aqui quadros vergonhosos.

 

as virgens. A perda da virgindade fora do casamento impunha vergonha a uma mulher e à sua família, e talvez conseqüências adicionais sérias (Dt 22.13-21).

 

enforcados. Temos aí uma forma de tortura ou uma forma de execução por meio de exposição aos elementos.

 

Os jovens levaram a mó. Esse era um trabalho degradante para um homem jovem (Jz 16.21).

 

*          5.14 Este versículo transmite algo do estado da vida normal em Judá, mediante a descrição do que havia cessado. A "porta", que tinha funções legais e sociais, estava agora deserta. Os prazeres descuidados dos "jovens" tinham sido substituídos pela vida dura, retratada nos versículos anteriores.

 

*          5.16     a coroa. Alguns tomam isso como referência a Jerusalém em particular (Lm 1.1; 2.15; 5.18). Provavelmente representa a glória de Israel e de Judá entre as nações (Êx 19.6).

 

ai de nós, porque pecamos. Ver a nota no v.7.

 

*          5.18     monte Sião, que está assolado. O poeta fecha aqui o círculo, tendo partido de 1.1, reiniciando o tema do escândalo de a cidade escolhida por Deus jazer destruída e abandonada.

 

*          5.19     Tu, SENHOR, reinas eternamente. Embora a "realeza" do povo judeu (v.16) não fosse mais uma realidade, a realeza do Senhor permanece para sempre.

 

*          5.20     Por que...? Soa de novo a nota de lamentação. Não havia como sair facilmente da dor que fora expressa; mas a afirmação da soberania de Deus é feita no meio daquela dor (v.19). A lógica dos vs. 19 e 20 tem paralelo em Sl 89, pois ali os vs. 1-37 louvam a soberania de Deus, e nos vs. 38-51 se pergunta "Até quando, Senhor?" (Sl 89.46).

 

*          5.21     Converte-nos a ti... renova. Esses dois verbos derivam-se de um mesmo verbo, no hebraico. Seu uso é ambíguo, visto que a restauração poderia ser um retorno físico de exilados à Terra Prometida, ou um retorno moral e religioso (arrependimento). Essa ambigüidade, porém, é necessária, porquanto os profetas nunca divisaram uma restauração à terra que fosse separada do arrependimento para com Deus. Quanto a um paralelo exato desse pensamento, ver Jr 31.18.

 

*          5.22     Por que nos rejeitaste. O poeta não quis encerrar o lamento com uma nota elevada. Não obstante, a nota final não é de desespero, e, sim, uma petição. Os cinco poemas do livro de Lamentações chegam até nós derivados da tristeza do julgamento experimentado, mas também salientam a compaixão de Deus como base de um futuro livramento.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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