* 1.1 Princípio.
Diferente de Mateus e Lucas, Marcos não contém uma narrativa do nascimento de
Jesus. O "princípio" (cf. Gn 1.1; Jo 1.1) é identificado com o
ministério de João Batista (cf. At 1.22) e com as profecias do Antigo
Testamento, anunciando a vinda de João Batista.
evangelho. Um
termo de comunicado e correspondência política ou pessoal, que significa
"boas novas". Os gregos usavam esta palavra para referir eventos tais
como o nascimento de um imperador ou uma grande vitória militar.
de Jesus Cristo. Esta frase pode ser
entendida ou como "a respeito de Jesus Cristo", ou como "da
parte de Jesus Cristo". O Evangelho é “a respeito” de Jesus Cristo, mas é
também "da parte" dele (Rm 1.9; 1Co 9.12; 2Co 10.14). O Evangelho de
Marcos reivindica autoridade divina e se oferece como a palavra de Cristo
através de seus apóstolos, à Igreja (cf. Ap 1.1).
Filho de Deus. Marcos apresenta a
Jesus, no começo do seu Evangelho, como o divino e eterno Filho. Ver notas em
13.32; 14.36; 15.39, cf. Rm 1.3.
* 1.2 está escrito.
Colocando aqui esta citação do Antigo Testamento, Marcos procura mostrar o
progresso orgânico da revelação sob o controle do divino Senhor da História. Se
o Antigo Testamento é o início e a fonte do Evangelho, o Evangelho revelado
através de Jesus Cristo é a interpretação final e inspirada do Antigo
Testamento.
na profecia. Ver
referência lateral. A citação é uma cadeia de textos (Êx 23.20; Ml 3.1; Is
40.3), referentes a mensageiros que Deus tem enviado como meio de preparação.
* 1.4 João. As citações do
Antigo Testamento colocam João Batista na pré-planejada história do trato de
Deus com seu povo segundo a Aliança.
no deserto. A pregação de João,
no deserto, lembra a Israel, simbolicamente, as suas origens na Aliança
celebrada no Êxodo (cf. Jr 2.2). O deserto é o lugar tradicional de encontro
entre Deus e seu povo.
batismo de arrependimento.
A comunidade de Qunran, com a qual João pode ter tido contato em sua juventude,
praticava rituais de purificações e batismos. Também os convertidos ao judaísmo
eram batizados. A inovação de João foi exigir um único batismo de israelitas
que já estavam na comunidade da Aliança. Para ele, o exigir um tal gesto de
arrependimento radical é um sinal da chegada da Nova Aliança. Ver nota em Mt
3.6.
para remissão de pecados.
João, na verdade, não concede perdão de pecados. O perdão definitivo de pecados
pertence ao pacto (Jr 31.34) que o Messias inaugurará.
* 1.5 toda... todos.
Isto é uma hipérbole (recurso literário que exagera), indicando que o povo da
Aliança foi a João numa grande multidão, sem dúvida como famílias inteiras
(4.1; 6.44 e notas).
* 1.6 pêlos de camelo.
As vestimentas e o alimento de João o identificam como um tipo clássico de
profeta do Antigo Testamento (2Rs 1.8; Zc 13.4).
* 1.7 E pregava.
A identidade daquele a quem João anuncia e diante de quem ele se sente indigno
de ajoelhar-se, é evidente nas profecias do Antigo Testamento já citadas. É o
"Senhor" que, "de repente, virá a seu templo... o Anjo da
Aliança", tendo sido precedido pelo "meu mensageiro" (Ml 3.1).
* 1.8 Espírito Santo.
A nova Aliança traz renovação ao povo de Deus (Jr 31.33, 34; Ez 37.14) através
do Filho e do Espírito, que o Filho possui em medida plena (Is 42.1; 61.1).
* 1.9 Naqueles dias.
De acordo com Jo 2.20, um dos primeiros atos de Jesus, que se seguiu ao seu
batismo, teve lugar quando a reconstrução do templo estava no seu quadragésimo
sexto ano. Posto que Herodes começou a reconstrução, no ano 19 a.C., Jesus foi
batizado por volta de 27 d.C.
por João foi batizado. Jesus sabe que isto
é parte do plano divino, para “cumprir toda justiça" (Mt 3.15), pelo qual,
em sua humanidade, ele se identifica plenamente com a condição humana e começa
o processo de levar os pecados da humanidade. Ver nota teológica "O
Batismo de Jesus", índice.
* 1.10 logo. Esta importante
palavra (às vezes traduzida "imediatamente") é característica de Marcos (doze vezes no
restante do Novo Testamento e quarenta e duas vezes em Marcos). A palavra
sugere, talvez, não rapidez, mas a certeza e a inevitabilidade do soberano
plano de Deus, recordando os endireitados (a mesma raiz grega) caminhos
divinamente preparados para a vinda de Jesus e seu ministério.
Espírito descendo.
A descida do Espírito é um sinal da Messianidade de Jesus (v. 8, nota). No
batismo de Jesus, como mais tarde no batismo cristão (Mt 28.19) todas as três
pessoas da Trindade estão envolvidas. A iniciativa do Pai, a obra vicária do
Filho e glória e o poder capacitador do Espírito estão todos presentes.
* 1.11 Tu és o meu Filho amado.
O mistério da pessoa de Jesus encontra expressão na divina declaração. Ele, a
Segunda Pessoa da Trindade, é, ao mesmo tempo, o representante do crente, o verdadeiro
e fiel “filho” de Israel (Êx 4.23), em quem o Pai se compraz e a quem o Pai
reconhece como Filho, tanto no sentido pessoal como no sentido oficial (Sl 2.7;
Is 42.1). Ver nota no v. 1.
* 1.12 o Espírito o impeliu.
O verbo grego traduzido por “impelir” é forte e dá a idéia de necessidade
divina e escriturística. O Espírito está impelindo Jesus para o “deserto”,
exatamente como Israel — chamado “filho” (Êx 4.23) e batizado em Moisés no mar
(1Co 10.2, cf. Êx 14.13-31) — foi conduzido pelo Espírito nas colunas de nuvem
e fogo (Êx 14.19-20), ao longo do caminho da provação, no deserto.
* 1.13 quarenta dias.
Possivelmente uma referência simbólica aos quarenta anos da experiência de
Israel, no deserto (Dt 1.3, cf. v. 12, nota).
feras. Este detalhe dá ênfase ao
fato de que o deserto é um lugar de maldição, onde o diabo manda (Mt 12.43, cf.
Ef 2.2). Jesus entra neste domínio e amarra o valente (ver nota em 3.23-27).
Esta é uma espécie de reconstituição da prova a que Adão foi submetido. Ainda
que Adão tenha sido provado num jardim e não tenha sido ameaçado por feras, ele
sucumbiu à tentação de Satanás. No deserto, Jesus, o segundo Adão, começa a
derrotar Satanás e inicia sua obra de redenção, sendo aprovado no teste de
obediência filial.
mas os anjos o serviam. Anjos acompanharam
Israel no deserto (Êx 14.19; 23.20; 32.34; 33.2). A experiência de Jesus no
deserto é um tipo da que o cristão tem no mundo, que é experenciada por causa
do domínio de Satanás (Ef 6.12). Ver nota em 10.30.
* 1.14 Depois de João... para a Galiléia.
Alega-se freqüentemente que a cronologia dos três Evangelhos Sinóticos é
irreconciliável com a de João, por três principais razões:
a) a purificação do templo é colocada em diferentes
períodos do ministério de Jesus (11.15, nota);
b) nos Evangelhos Sinóticos Jesus vai a Jerusalém só uma
vez, na última semana do seu ministério, enquanto no de João ele esteve lá
cinco vezes;
c) em João, Jesus tem o seu primeiro ministério na Judéia
ao mesmo tempo que João Batista (Jo 3.22-24), enquanto nos Sinóticos Jesus
começa o seu ministério na Galiléia. Contudo, ao dizer que um ministério na
Galiléia começa só depois que João Batista é preso, Marcos não está negando que
houve um ministério anterior na Judéia; esse ministério simplesmente não faz
parte de sua narrativa.
* 1.15 O tempo está cumprido.
Os tempos passados, especialmente os atos de salvação de Deus em favor de seu
povo Israel, atingiram seu clímax no atual tempo de salvação, através de Jesus.
o reino de Deus está próximo. O reino de Deus é aquele estado final de
acontecimentos onde o supremo reinado de Deus é plenamente reconhecido sobre o
universo transformado, e nos corações do seu povo redimido e glorificado. Este
reino “está próximo” no sentido de que a vinda de Jesus põe em movimento tudo
aquilo que contribui para a sua realização. Deus exige arrependimento e crença
como respostas a estas novas. Ver nota no v. 4.
* 1.16 mar da Galiléia.
É um lago interior de aproximadamente 21 km de comprimento por treze de
largura. É conhecido no Novo Testamento como Lago de Genesaré (Lc 5.1) ou Mar
de Tiberíades (Jo 6.1).
* 1.17 Vinde após mim... pescadores de homens. Marcos, imediatamente, mostra Jesus chamando
discípulos para segui-lo e chamarem outros para ele. Este primeiro ministério
referido, na igreja nascente, tem como seu objetivo principal buscar os
perdidos. Esta ênfase sobre a evangelização foi bem percebida por Paulo, que
disse: “Ai de mim se não pregar o
Evangelho” (1Co 9.16).
* 1.19 Tiago... João.
Note-se que Jesus não recruta seus apóstolos e “pescadores de homens” dentre os
da “intelligentsia” religiosa, mas dentre as pessoas simples, de atividades comuns.
* 1.20 empregados.
Este pormenor sugere um pequeno e próspero negócio.
* 1.22 como quem tem autoridade.
O ensino de Jesus é diferente do ensino dos escribas, porque está ligado à sua
pessoa (2.10) e à sua interpretação das Escrituras (12.35-40). Seu conteúdo é
novo, anunciando a vinda do reino (v. 15) e a derrota de Satanás (v. 27).
* 1.24 Que temos nós contigo.
Esta expressão distancia a pessoa que fala daquela a quem se dirige. Ocorre em
outro lugar no Novo Testamento (Jo 2.4).
Nazareno. Nazaré ficava ao ocidente do Mar da Galiléia
e era a cidade natal de Jesus.
Santo de Deus. Jesus é descrito
deste modo só neste incidente (Lc 4.34). Os demônios tremem na presença da
santidade divina.
* 1.25 Cala-te.
Esta forte expressão dá ênfase ao poder de Jesus para estabelecer o seu reino
em face da presença do mal.
* 1.29 Tiago e João.
Ver v. 19.
* 1.30 A sogra de Simão.
Pedro era casado (ver também 1Co 9.5), mostrando que o casamento é normal entre
os líderes cristãos. Ao mesmo tempo, o celibato permanece como uma
possibilidade legítima (Mt 19.12; 1Co 7.7-8, 32).
* 1.32 ao cair do sol.
Jesus já tinha curado no dia de Sábado (v. 25). Nesta ocasião, o povo esperava
ainda o pôr do sol, quando o Sábado terminava, para levar seus doentes a Jesus.
* 1.34 muitos demônios.
A quantidade de possessão demoníaca, na população judaica da Galiléia (v. 32,
nota) é surpreendente, ainda que a influência pagã ou gentílica, na Galiléia,
não deva ser esquecida.
não lhes permitindo que falassem.
Este é o primeiro exemplo daquilo que tem sido chamado o
“segredo Messiânico” (v. 43; 3.12; 4.10,11; 5.19; 8.30; 9.9). A revelação de
Jesus como o Messias tinha de começar discretamente e avançar por estágios, de
modo que o plano de Deus, para a morte de seu servo, não fosse comprometido por
qualquer excesso de entusiasmo popular.
* 1.35 lugar deserto.
Lit., “lugar desabitado”, onde Jesus trava sua luta espiritual (v. 12, cf. v.
3) e que é também, como o antigo Israel, um tipo da presente caminhada cristã
(1Co 10.1-11; Hb 13.12-13).
* 1.38 para isso é que eu vim.
Jesus afirma seu programa de pregação evangelística com firme clareza. Em Lucas
(19.10) ele diz: “porque o Filho do homem veio buscar e salvar o perdido”. E
assim ele se move, percorrenco a Galiléia várias vezes (v. 39; 6.6; Lc 8.1).
* 1.40 um leproso.
Sob a lei mosaica, certas doenças de pele tornavam a pessoa cerimonialmente
impura, excluindo-a do convívio da sociedade (Lv 13.46).
* 1.43 veemente advertência.
Ver nota no v. 34. O verbo grego expressa profunda emoção, como no caso de
Jesus diante do túmulo de Lázaro (Jo 11.33, 38).
* 1.44 servir de testemunho.
Jesus respeita a lei mosaica como o grande sumo sacerdote de outra linhagem (Hb
7.11—8.13), mas não está preso e nem limitado por ela. Ainda que tocar um
leproso fosse uma violação às leis da pureza ritual (Lv 5.3), Jesus o tocou
quando o curou.
* 1.45 entrou a propalar muitas coisas.
Este não é o tempo para a proclamação desenfreada (v. 34, nota), ainda que
devesse chegar o tempo, na história da redenção (depois da ressurreição),
quando a pregação aberta seria adequada (Mt 10.27; Lc 12.2-3).
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sergiovalentin