OSÉIAS
Autor:
Pouco se
sabe sobre as origens e a formação do
autor deste livro, o profeta Oséias, filho de Beeri (1.1). Embora o texto não o
afirme diretamente, a familiaridade de Oséias com a geografia (4.15; 5.1,8;
6.8,9; 9.15; 10.5; 12.11) e a história do reino do Norte de Israel (5.13;
7.7,11; 8.4, 9-14) sugere que ele era nativo do reino do Norte.
Data e Ocasião:
O livro de
Oséias é um reflexo de seu ministério profético, que abrangeu os anos críticos
do declínio e da decadência religiosa do norte de Israel, cerca de 750 a.C. até
alguns anos antes da queda da Samaria, em 722 a.C. A pregação de Oséias estava
centrada na quebra da aliança de Israel com Deus, pela fusão da adoração ao
Senhor com a idolatria dos povos vizinhos (sincretismo religioso), e no castigo
iminente. Contudo, a proclamação de Oséias quanto à natureza do amor de Deus
ganha um tom mais positivo em seu livro.
Durante
seus anos derradeiros, o reino do Norte de Israel vivia um estado de declínio
político e social. A prosperidade econômica e a segurança política que a nação
experimentara durante o reinado de Jeroboão II (c. 793-753 a.C.) foi seguido de
um período de caos político e social e de declínio religioso sob os seis reis
seguintes, que reinaram por um período total de vinte e cinco anos (2Rs
15.8—17.41). Quatro dentre esses reis foram assassinados por aqueles que
usurparam seus tronos (Zacarias, Salum, Pecaías e Peca); um tornou-se
prisioneiro político (Oséias, 2Rs 17.3,4); e apenas um foi sucedido por seu
filho (Menaém, 2Rs 15.23).
A pregação
de Oséias reflete a calma relativa vivida sob o reinado de Jeroboão II
(2.5,8,13) e mais tarde o turbilhão nos assuntos domésticos (7.3-7; 13.10,11) e
estrangeiros (7.8-12; 12.1). A guerra siro-efraimita em particular (735-732
a.C.; 2Rs 15.27-30; 16.5-9; Is 7.1-9) parece permear a mensagem de Oséias em
5.8-10. O rei Peca de Israel tinha feito uma aliança com Rezim da Síria para
resistir à ação expansionista do reino da Assíria, governada por
Tiglate-Pileser III. Então Peca atacou Judá, que se recusou a participar da
aliança com a Síria. A Assíria respondeu ao pedido de auxílio de Judá atacando
a capital da Síria, Damasco, e subjugando sistematicamente o extenso território
do reino do norte de Israel.
A
indefinição política do reino do Norte entre o Egito e a Assíria também se
reflete no texto (5.13; 7.11; 8.9,10; 9.3; 11.5; 12.1). Essa indefinição
ocasionou mais um ataque por parte dos assírios, a prisão do Rei Oséias, o
cerco à Samaria e finalmente a destruição do reino do Norte. Embora esse fim
tenha sido esperado por Oséias, a queda da Samaria em 722 a.C. ainda não
ocorrera no momento de sua profecia (13.16).
O reino do Norte viveu um grande
declínio espiritual durante a fase final de sua história. A antiga fé de
Israel, que Oséias descreve magnificamente através de analogias com o amor
conjugal e paternal (2.14-23; 11.1-4) foi maculada pelos elementos da crença da
fertilidade dos cananeus. Esses cultos de fertilidade centravam-se na adoração
a Baal, um deus que acreditavam ser o doador da chuva e da fertilidade. Os
israelitas incorporaram à fé ortodoxa esses elementos, especialmente os ritos
sexuais, que incluíam a prostituição, orgias e bebedeiras (4.10-13). A adoração
ao Senhor e a adoração a Baal (cuja tradução literal é “senhor” ou “mestre”) se
misturam e chegam a se fundir (2.5-13). A corrupção religiosa se evidencia não
apenas nessa forma popular e sincrética de religião, às vezes dita adoração
“baalizada” a Javé, mas também na vida dos líderes religiosos. Através da
corrupção, da avareza e da dureza de coração, eles não apenas negligenciaram a
instrução do povo na verdadeira fé, mas também toleraram e em alguns casos
chegaram a apoiar o sincretismo religioso (4.4-13; 5.1; 6.9).
Dificuldades de Interpretação:
A questão
de como interpretar os acontecimentos pessoais da vida de Oséias, que
simbolicamente paralelo à sua mensagem profética, por muito tempo deixou os
leitores do livro de Oséias perplexos. Os detalhes sobre a vida familiar de
Oséias fornecidos nos capítulos 1 e 3 devem ser interpretados literal ou
alegoricamente? Devido à perplexidade moral despertada pela divina ordem de
Deus de que Oséias se casasse com uma prostituta, durante décadas sempre houve
estudiosos que interpretaram os detalhes da vida conjugal de Oséias de maneira
alegórica. Outros argumentam que 1.2 se refere ao futuro, razão pela qual Gomer
só se tornou uma prostituta após o nascimento do primeiro filho deles. Outros
ainda, advogando uma modificação da interpretação literal, argumentam que Gomer
não era uma prostituta comum, mas uma mulher envolvida com a prostituição
cultual relacionada com a religião de fertilidade de Baal. Contudo, o casamento
real do profeta com uma esposa infiel traria uma analogia muito mais vívida do
relacionamento de Deus com Israel, e essa parece ser a intenção do texto.
De forma semelhante, tem-se
questionado os filhos de Oséias. Supõe-se que seus nomes, como os dos filhos
nascidos de Isaías e da profetisa em Is 8.1-4, tenham uma significação
simbólica (cf. Is 7.3; Ez 23). Os nomes dados aos filhos de Oséias (Jezreel,
Desfavorecida e Não-Meu-Povo; 1.4,6,9 e notas), ilustram deliberadamente a
mensagem de Oséias sobre o crescente descontentamento de Deus com a
inconstância de Israel, mas também transmitem uma mensagem de esperança,
renovação, amor e restauração (2.21-23, notas).
Um problema semelhante surge na
relação entre o cap. 1, que apresenta um relato em terceira pessoa sobre o
casamento de Oséias com Gômer e o nascimento de seus filhos, e o cap.3, que
apresenta um relato em primeira pessoa das instruções de Deus a Oséias quanto a
amar uma mulher infiel. Embora esses capítulos tenham sido freqüentemente
considerados como um relato cronologicamente seqüencial de um único casamento,
alguns argumentam que duas mulheres e dois casamentos diferentes são descritos
nesses capítulos. Outros ainda sugerem que os capítulos não estão em seqüência,
mas descrevem o mesmo episódio. Por trás desses diferentes pontos de vista
estão as dificuldades textuais e da tradução do texto hebraico. Por exemplo, a
expressão “outra vez” em 3.1 se encontra entre “disse” e “vai”, em hebraico, o
que poderia significar “O Senhor disse outra vez” ou “O Senhor disse ‘Vai outra
vez’”. Embora as discussões continuem, o significado profundo do casamento do
profeta como um retrato do relacionamento de Deus com Israel é bastante claro.
Características e Temas:
O livro de
Oséias não é sobre Oséias, mas sim sobre Deus e seu relacionamento com o povo
da aliança, Israel. Deus enfatiza sua unicidade e soberania (12.9; 13.4). Sendo
único e santo (11.9), a nossa única resposta possível é adorá-lo (3.5) e ele
não tolerará rivais. Sendo soberano, tudo está sob seu governo, seja a
fertilidade (2.8), a história de Israel (5.14,15) ou as nações (10.10).
Há recorrência de diversos temas por
todo o livro, temas que continuam a ter relevância religiosa para a comunidade
de fé dos dias de hoje (14.9, nota). O tema da infidelidade à aliança,
simbolizado de forma tocante pelo relacionamento de Oséias com uma mulher
promíscua, permeia todo o livro. Intimamente ligado a este, surge o tema do
arrependimento. Oséias conclama Israel a voltar-se para o Senhor e
reestabelecer o relacionamento íntimo que tivera com ele no deserto
(2.7,14,19,20). Promessas de restauração, como as que aparecem em 1.11 e 2.23,
serão cumpridas sob a nova aliança através de Jesus Cristo (Rm 5.8; Ef 2.4-10).
Os temas da infidelidade e da conversão conclamam aqueles que pertencem à
comunidade da aliança a arrependerem-se e a renovarem seu relacionamento de
amor com Deus.
Outro importante tema do livro é o
que trata do significado de “conhecer” ou “reconhecer” o Senhor (2.20; 4.1;
5.4; 6.3,6; 13.4). Parece tratar-se de um termo técnico para a intimidade,
lealdade e obediência próprias da aliança. O livro ensina que o verdadeiro
conhecimento de Deus não se resume a possuir as informações corretas a respeito
dele, mas pressupõe a intimidade típica do casamento e da vida em família, uma
intimidade que se evidencia na adoração, no estilo de vida, e na lealdade ao
Deus da aliança. Oséias adverte ainda que o pecado pode iludir o povo,
levando-o a pensar que conhece e compreende a Deus, quando na verdade estão muito
distantes dele (8.2).
Permeia ainda o livro a polêmica
contra o sincretismo religioso (a mistura da verdadeira com falsas religiões)
(2.2-13; 4.10-19; 5.4; 9.1,10). Repetidas vezes Oséias aponta para o pecado do reino do Norte, que
tentara unir a adoração do Deus da aliança à religião cananéia, com sua
deificação do sexo e da natureza. A impossibilidade de uma tal união adverte a
igreja para que permaneça fiel em meio a uma cultura que encoraja a
transigência e aceitação de princípios e crenças incompatíveis com a doutrina
bíblica. Além disso, a descrição realista que Oséias faz do pecado lembra aos
crentes sobre a natureza e conseqüências do pecado humano: incorre no
julgamento divino (9.9; 13.12); causa graves crises na natureza e na sociedade
(4.3) e corrompe a personalidade humana. As pessoas se tornam semelhantes
àquilo que amam (9.10).
A mensagem de Oséias é intensificada
pelo efetivo uso que faz das metáforas. A mais intensa e longa dessas metáforas
tem sua origem na experiência humana da intimidade. Utilizando a figura do
casamento humano (caps. 1—3) e da vida em família (11.1-4,10), Oséias retrata o
relacionamento entre Deus e seu povo. Em outras figuras, Deus é comparado à
traça e à podridão (5.12), às chuvas de inverno e de verão (6.3), a um leão
(5.14; 11.10; 13.7-8), um leopardo (13.7), uma ursa (13.8) e um cipreste
(14.8).
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sergiovalentin