* 1.1 Provérbios. A palavra hebraica correspondente a
"provérbios" tem uma série de significados, mas usualmente é aplicada
a um aforismo ou máxima, dentro de um contexto de sabedoria. O prólogo (1.1-7)
aplica-se ao livro inteiro e à variedade de ditos de sabedoria que ele contém,
todas elas classificadas genericamente como "provérbios".
Salomão. Embora Salomão tenha escrito muitos
provérbios (1Rs 4.32), as palavras de outros sábios que não eram de Salomão
estão aparentemente incluídas sob esse título (p.ex., Agur, 30.1; e Lemuel,
31.1). Até mesmo nos materiais atribuídos a Salomão, algo que não foi de uma
autoria direta pode ter sido incluído. As raízes das tradições proverbiais na
experiência popular tornam improvável que Salomão tenha sido o originador
exclusivo de todos os provérbios que ele deixou registrados por escrito
(Introdução: Autor).
* 1.2-4 Temos aqui uma referência explícita
ao propósito que há por detrás desta coletânea, a qual sugere alguma espécie de
uso educacional que estava sendo feito de tal material, embora não seja forte a
evidência a favor da existência de escolas de sabedoria em Israel.
* 1.2 a sabedoria. O propósito
do livro de Provérbios é guiar o leitor à sabedoria, um vocábulo com muitas
nuances. Está relacionado ao intelecto e ao controle do comportamento humano.
Essa é uma maneira de pensar sobre a realidade que capacita alguém a seguir o
que é bom na vida. Através da sabedoria, Deus revela quais são os valores da
vida e como podem ser alcançados.
o ensino. Esta
palavra sugere a disciplina moral e intelectual. Com freqüência indica o
aprendizado da sabedoria.
palavras de inteligência. Ou seja,
discernimento, a capacidade de ler entre as linhas e fazer distinções corretas.
* 1.3 a justiça, o juízo, e a
eqüidade. Esses termos podem ser usados em contextos religiosos e
éticos, bem como nos negócios temporais. Às vezes, a sabedoria bíblica parece
envolver-se em questões deste mundo, mas sempre o faz dentro do arcabouço do
desígnio divino para a ordem criada.
* 1.4 prudência. Ou seja, a
perspicácia.
aos simples. Essas
palavras têm como paralelo, no mesmo versículo, "aos jovens".
Refere-se a algum jovem sem tutores e inexperiente, e não àqueles destituídos
de capacidades intelectuais. A sabedoria é uma questão de piedade prática.
bom siso. Essa palavra sugere tomar decisões corretas
com entendimento.
* 1.5 cresça em prudência. A
sabedoria estava institucionalizada na cultura antiga na qual os sábios
convocavam as pessoas para aumentar a sabedoria deles. Sucessivas gerações
deveriam aprender das gerações anteriores (v. 8). Note a típica estrutura
paralela deste versículo na qual frases quase sinônimas são reunidas.
habilidade. A palavra
hebraica, usada somente nos livros de Provérbios e de Jó, significa guiar,
orientar ou dirigir. Ela torna clara a importância dos corretos pensamentos e a
experiência na tomada de decisões.
* 1.6 Esses diferentes termos podem
ser usados como sinônimos, como em Hc 2.6, mas é provável que aqui sejam formas
distintas de ditos de sabedoria, tendo como característica comum um enigma que
desafia o intelecto (1.1, nota).
parábolas. As
parábolas de Jesus são um tanto diferentes daquilo que se vê no livro de
Provérbios, embora exibam a influência da literatura de sabedoria. Temos aqui,
provavelmente, um amplo mas identificável tipo de literatura de sabedoria. A
palavra é usada para a indicação do enigma de Sansão (Jz 14.12-19), de uma
alegoria (Ez 17.2) e das declarações usadas para testar a Salomão (1Rs 10.1).
* 1.7 O temor do SENHOR. Essa idéia
é o princípio controlador de Provérbios, e é uma antiga e decisiva contribuição
israelita para a inquirição humana pelo conhecimento e pelo entendimento. O
temor do Senhor é a única base do verdadeiro conhecimento. Esse
"temor" não consiste em um terror desconfiado de Deus, mas antes, é o
respeito e a adoração reverentes como resposta de fé ao Deus que se revela como
Criador, Salvador e Juiz.
Embora
o relacionamento pactual de Israel com Deus receba pouca atenção em Provérbios,
é significativo o uso do nome divino associado mais de perto com a aliança, o
SENHOR (no hebraico, Yahweh, Êx 3.15; 6.3 e notas). Isso indica que a
aliança redentora de Deus com seu povo e a revelação especial que a acompanha
são fundamentais para a verdadeira sabedoria. No livro de Deuteronômio,
"temor do Senhor" significa viver segundo as estipulações da aliança,
em grata resposta à graça remidora de Deus (Dt 6.2,24). Mais tarde, o templo
erigido por Salomão tornou-se a expressão visível do relacionamento pactual de
Israel com o Senhor, o que, novamente, é descrito como o "temor do
Senhor" (1Rs 8.40,43). Há um elo importante através de Salomão e do templo
entre a sabedoria e a teologia da aliança, encontrada em outras partes no
Antigo Testamento.
é o princípio do saber. Ver também
2.4-6; 9.10; 15.33; Jó 28.28; Sl 111.10. O hebraico aponta ou para o ponto
inicial do conhecimento, ou para o seu princípio básico e normativo. Esta
última possibilidade está em foco aqui. Enquanto que, em sua graça comum, Deus
capacita os incrédulos a saberem muito sobre o mundo, somente o temor do Senhor
capacita o indivíduo a saber o que alguma coisa significa, em última análise.
Dependendo desse entendimento, a sabedoria persegue a tarefa de refletir na
experiência humana. Ver "A Sabedoria e a Vontade de Deus", em Dn
2.20.
* 1.8,9 A forma de instrução da literatura de
sabedoria, no antigo Oriente Médio, tipicamente começa com uma chamada para que
se preste atenção. Pai e mãe estavam ambos envolvidos na instrução do lar.
* 1.8 o ensino. Ver a nota
em 3.1.
* 1.9 diadema de graça... colares. Essas
metáforas retratam o efeito da sabedoria para embelezar a vida do indivíduo.
* 1.10-19 Esses versículos compõem outra
unidade na forma da instrução. É possível que essa forma tenha sido um instrumento
de ensino na educação mais formal, aquela efetuada fora do lar, no qual os
sábios ensinavam os seus alunos. As cláusulas condicionais, ou frases com um
"se" (vs. 10, 11), indicam as situações às quais se aplicam essa
sabedoria. A ordem do v. 15 é apoiada pelas razões dadas nos vs. 16-19.
* 1.12 o abismo. O reino da morte é descrito
aqui como pronto para tragar as suas vítimas. Em outros lugares, esse termo
poético denota uma dimensão onde a corrupção é o pai, e o verme é a mãe (Jó
17.13,14), um domínio dotado de portas (Is 38.10). Trata-se da terra de onde
não há retorno (Jó 7.9), do silêncio (Sl 94.17), das trevas (Sl 143.3) e do
esquecimento (Sl 88.11,12). Ver 9.18, nota; Is 14.9-11, nota).
* 1.13 bens preciosos. O livro de
Provérbios não proíbe e nem desencoraja as riquezas — somente o uso do mal para
obtê-las. Entretanto, a riqueza final é a própria sabedoria (2.4; 3.13-16; Jó
28.12-19).
* 1.15 Filho meu. Depois de
uma extensa oração condicional (vs. 10-14), é repetida a conclamação que
reforça a ordem de se evitar más pessoas.
* 1.16 Este
versículo é quase idêntico a Is 59.7, sendo parcialmente citado em Rm 3.15.
* 1.17 debalde... ave. Esta
declaração é introduzida para fortalecer as razões do conselho do autor. O seu
significado aparente é que até uma ave evitará uma armadilha, uma vez que tome
conhecimento dela. Aqueles que estão sendo tentados deveriam fazer a mesma
coisa.
* 1.19 Tal
insensatez é contrária à verdadeira ordem do mundo que, embora caído, continua
sob o governo soberano de Deus. Essa expressão de inevitável retribuição está
alicerçada sobre a ordem observável das causas e conseqüências. Aparentes
interrupções desse padrão levaram outros escritores bíblicos a voltar a sua
atenção para os problemas dos ímpios prósperos e para os sofrimentos dos justos
(Jó; Sl 73).
* 1.20 A
sabedoria é retratada como se fosse um pregador ao ar-livre, similar ao
conclamador de Is 55. Personificada como se fosse uma mulher, a sabedoria
convida os símplices a se arrependerem de sua insensatez e a buscarem a
sabedoria, antes que se torne tarde demais. Personificações da sabedoria também
podem ser encontradas em 3.14-18; 8.1-36 e 9.1-12.
* 1.21 portas. O portão da cidade era o
fórum público de conselho e julgamento (Dt 22.15; 25.7; Rt 4.1,11; 2Sm 19.8). Esse
é o local apropriado para a figura da sabedoria chamar as pessoas a dar atenção
aos seus conselhos.
* 1.22 ó néscios. Ver a
referência bíblica; também o v. 4 e nota. Houve um certo desenvolvimento no
pensamento. Em questão não está meramente a obtenção de mais discernimento, mas
uma escolha deliberada entre dois caminhos. A sabedoria e a insensatez, a
retidão e a iniqüidade, aparecem em constante oposição em Provérbios como as
duas únicas opções na vida (cf. Mt 7.24-27).
escarnecedores. O
significado preciso dessa palavra, usada principalmente em Provérbios, é
difícil de determinar. O escarnecedor, ou zombador, é uma pessoa que resiste à
disciplina dos sábios (9.7,8; 13.1; 14.6; 21.11).
loucos. Pessoas
embotadas, a quem não se pode ensinar.
o conhecimento. Ver 1.7.
Na literatura de sabedoria, o "conhecimento" é, com freqüência, um
sinônimo para a sabedoria.
* 1.23 o meu espírito. O livro de
Provérbios reconhece a sabedoria tanto como uma dádiva divina quanto como uma
tarefa humana. O primeiro desses aspectos é visto em 1.7, onde o temor do
Senhor cresce da graça de Deus na redenção. A redenção envolve uma renovação da
mente, bem como a regeneração da alma (Rm 12.1,2; 1Cr 1.18—2.6).
* 1.24 vós recusastes. A rejeição
ao evangelho da sabedoria tem seus paralelos na rejeição da graça de Deus, por
parte de Israel.
* 1.25 o meu conselho. Aqui a
sabedoria fala com toda a autoridade. Sendo o conselho de Deus, seu conselho e
orientação não estão abertos a debate (2.6; 8.14).
* 1.28 eu não responderei. A
verdadeira sabedoria é um aspecto da graça salvadora de Deus, e pode-se chegar
a um ponto sem retorno, para aqueles que a rejeitem. Essa verdade reforça a
urgência da mensagem. Ninguém pode esperar o favor de Deus ao mesmo tempo em
que despreza as dádivas que ele oferece (Dt 1.45; 1Sm 28.6; Sl 18.41).
* 1.29 o conhecimento. Essa
palavra é um sinônimo para a sabedoria, e é explicada aqui pela frase paralela
que a acompanha, "o temor do Senhor". A sabedoria desce do alto (Tg
3.17), como uma dádiva divina na revelação redentora. Isso é verdade mesmo que
ela deva ser desejada e que devamos nos esforçar para obtê-la (2.4-6; Hb 5.7,8;
Tg 1.5).
* 1.31 fruto. A relação entre feitos e
resultados é observável na relação natural entre causa e efeito. A figura aqui
não é de prazer após uma refeição completa, mas o desgosto por ter comido
muito.
* 1.32 desvio. Indiferença ou negligência
voluntária.
aos loucos a sua impressão de
bem-estar. Temos aqui uma alusão à ignorante auto-satisfação dos que se
não deixam ensinar voluntariamente, que não vêem necessidade de aprender
qualquer coisa da parte de alguém.
* 1.33 Este
versículo faz contraste direto com o v. 32. A sabedoria traz vida e segurança.
Rejeitar a sabedoria é rejeitar tudo quanto promove a vida.
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sergiovalentin