* 8.1-36
Nos caps. 1—7 o porta-voz da sabedoria é um mestre ou um sábio. Neste
majestoso poema, a sabedoria foi personificada como o mestre supremo que ensina
com base em sua própria autoridade. Essa personificação, mui provavelmente é um
artifício poético para expressar, mais vividamente ainda, a autoridade da
sabedoria. Embora seja prematuro ver a sabedoria personificada (especialmente
nos vs. 22-31) como um retrato direto de um ser divino, não há dúvida que a
revelação de Jesus Cristo como a sabedoria de Deus mostra a importância de uma
sabedoria que é sua própria autoridade absoluta (1Co 1.24,30; Hb 1.1-4; Cl
1.15,16; Jo 1.1-18). O poema progride da consideração da tarefa humana de
aprender a sabedoria (vs. 1-11) para os poderosos efeitos da sabedoria neste
mundo (vs. 12-21), e daí passa à origem divina da sabedoria e seu lugar na
totalidade da criação (vs. 22-31). Um apelo final equipara a sabedoria à vida
(vs. 32-36). Por detrás da sabedoria humana está a sabedoria de Deus, original
e não-criada, pelo qual ele estabeleceu todas as coisas criadas e seus próprios
relacionamentos para com Deus e umas para com as outras. Isso significa que a
sabedoria humana é válida e afirmadora de vida até onde a mesma ocorre dentro
do contexto provido pela divina revelação especial (cap. 4, nota).
* 8.1-3 Ver as
notas em 1.20-33.
* 8.4 ó homens. A palavra
hebraica usualmente aplica-se aos varões, mas pode estender-se a toda a
humanidade. A sabedoria, no papel de um instrutor, dirige-se não a filhos e nem
a alunos, mas a todo o povo. Não existe elite de classes nessa questão do
aprendizado da sabedoria; ela é para todos.
* 8.5 Ver as notas em 1.4,22.
* 8.6 coisas excelentes. Coisas
valiosas ou importantes.
Coisas retas. Fica
subentendido o elemento moral.
* 8.7 a verdade. Esta
palavra denota o que é totalmente digno de confiança. É o oposto de iniqüidade.
Provérbios relaciona a verdade à sabedoria em vários lugares, e aqui a palavra
da sabedoria é descrita de uma maneira que sugere uma origem divina.
* 8.8 São justas. Ver a nota
no v. 18.
* 8.9 A sabedoria é uma realidade
autoconsistente. É preciso nos sintonizarmos com ela a fim de aprendermos dele.
Isso é outra maneira de dizer que toda verdade é verdade de Deus, e que sem o
conhecimento de Deus não podemos conhecer a verdade absoluta. Cf. a sabedoria
de Jesus, em Mt 13.10-16; Lc 11.52.
* 8.10,11
A comparação da sabedoria com os mais desejáveis emblemas das riquezas é
uma maneira de enfatizar o seu valor (2.4; 3.14,15; 8.19-21; Jó 28.17). A
advertência contra o materialismo crasso é óbvia.
* 8.12
Ver 1.4 e nota.
* 8.13 O temor do SENHOR. Ver 1.7;
2.5; 3.7; 9.10 e notas. A sabedoria nos relembra que a busca por uma ética
baseada exclusivamente na experiência é fútil. A educação e a experiência devem
estar edificadas sobre a base da fidelidade e da esperança providas pelas
promessas do pacto de Deus. Os sistemas éticos sem o padrão absoluto do que é
certo, bom e verdadeiro, revelado nas Escrituras, não podem sobreviver (Sl
36.9).
a soberba... eu os aborreço. A sabedoria
ecoa o ódio que Deus tem pelo mal (6.16; Dt 12.31; 16.22; Sl 5.5; Is 61.8; Jr
44.4).
* 8.14 o conselho. Essa
palavra tem o sentido de conselhos derivados da sabedoria e da experiência, e
também planos feitos pela deliberação conjunta em um curso de ação. A mesma
palavra é usada para a mente de Deus a respeito de seus próprios planos e
propósitos (Is 5.19; 19.17; 25.1; 28.29). A sabedoria tem acesso a esse
conselho.
* 8.15,16 A função
apropriada para os governantes humanos é definida pela ordem da criação de
Deus, conforme está revelada na Palavra de Deus (Gn 1.26-28). Um governo sábio
começa pelo temor do Senhor (Dt 17.18-20; 1Rs 3.6-9; 4.29-34). O Messias
governará pela sabedoria perfeita (Is 11.1-3). Ver "Os Cristãos e o
Governo Civil", em Rm 13.1.
* 8.17 Eu amo os que me amam. Essas
afirmativas fazem o contraste com a sabedoria sendo ocultada dos insensatos
(1.28,29). A sabedoria cuida daqueles que lhe pertencem (4.6,8,9).
os que me procuram me acham. Ver
2.4,5; 3.13-15. Isso sugere uma relação entre a sabedoria e a graça divina, que
o leva a aproximar-se de nós (Is 55.6). O próprio Jesus é a revelação final da
sabedoria divina (1Co 1.24,30; Cl 2.2,3), e possivelmente fez alusão a este
versículo em Mt 7.7.
* 8.18
Riquezas e honra. Ver 3.2,16.
O princípio do reinado de Salomão foi um exemplo dos benefícios materiais e
sociais da sabedoria (1Rs 10.1-9).
e justiça. Isso
significa a obediência à lei de Deus, extendendo-se ao cultivo de corretas
relações entre Deus, as pessoas e a criação. Ver Rm 12.18; 1Tm 2.1-4.
* 8.19 Ver a nota
nos vs. 10 e 11.
* 8.22-31 Esta
seção, parecida com um hino, apresenta a sabedoria como a base do projeto do
universo. O enfoque é incomum, mas essa visão sobre a sabedoria não contraria a
teologia do pacto e os atos salvíficos de Deus em Israel. Os sábios também eram
homens do pacto (1.7; 2.20-22 e notas). O método da sabedoria consiste em
enfatizar a teologia bíblica da criação, como base da compreensão de nossas
vidas como o povo remido de Deus.
* 8.22 O Senhor. Temos aqui o nome próprio
de Deus como o Redentor e o Autor do pacto (Êx 3.15 e notas). O pacto da
redenção de Deus com Israel sublinha seu compromisso com a criação, pois as
promessas do pacto culminam em Jesus Cristo — o grande Descendente de Abraão
(Gn 12.7; cf. Gl 3.16) e o Filho de Davi (2Sm 7.16; cf. Lc 1.32) — por meio de
quem a criação destroçada e caída é remida (Rm 8.20-22; 2Co 5.17, nota; Cl
1.15-20; Ap 21.1.).
me possuía. A sabedoria
não é uma quarta pessoa divina, mas é um atributo de Deus, que recebeu
expressão tanto na criação como na redenção. Neste capítulo, a sabedoria foi
personificada para conseguir um efeito poético. Os atributos de Deus são
eternos, pelo que a figura da sabedoria vem desde o "início".
no início de sua obra. A
sabedoria é o primeiro conselho da vontade de Deus (Ef 1.11), o decreto eterno
que estabelece todas as coisas em seus relacionamentos e determina o curso da
história.
antes de suas obras mais antigas. A
sabedoria existia antes da auto-revelação de Deus, em seu pacto e em seus atos
salvíficos.
* 8.23 A
sabedoria também é anterior à criação do universo.
* 8.24-31 Jó relembra-nos que a sabedoria da
criação, em última análise, pertence exclusivamente a Deus (Jó 38 e 39). O
"mandato cultural", ao atribuir aos seres humanos a tarefa de
compreender a criação e de exercer domínio sobre ela (Gn 1.26-28), é a base do
interesse da sabedoria, ao conhecer a natureza do mundo (1Rs 4.29,33). Isso é
visto dentro da estrutura estabelecida pela revelação especial (as Escrituras)
e no temor do Senhor (1.7, nota; 8.1-36, nota; 9.10).
* 8.24 eu nasci. O sábio plano de Deus
antecede os seus atos. A referência a ter "nascido" sugere que a
sabedoria é, de forma singular, uma filha de Deus, mas isso é apenas um
artifício poético, e não se refere a um novo ser divino.
* 8.27 aí estava eu. A
sabedoria é anterior à criação e participante dela. A criação é a primeira
grande demonstração da sabedoria de Deus.
* 8.28 as fontes do abismo. Ver Gn
7.11; 8.2.
* 8.30 seu arquiteto. A sabedoria
é agora descrita como o agente da criação. Um habilidoso artesanato é um dos
aspectos da sabedoria (cf. Êx 31.3), o que salienta a natureza prática da
sabedoria. Ver 1.2 e nota.
* 8.31 regozijando-me... achando as minhas
delícias. A sabedoria reflete a satisfação expressa na declaração
divina de que a criação era muito boa (Gn 1.31).
* 8.32 felizes. Ver a nota em 3.13. As
bênçãos de Deus sobre a obediência são uma das características da teologia da
Aliança (Dt 28.1-14; ver "A Aliança da Graça de Deus", em Gn 12.1).
Aqui essa palavra descreve as recompensas da sabedoria (3.13-18).
* 8.34 velando dia a dia às minhas portas. O aluno
comparece à casa do mestre, anelante por aprender o que quer que a sabedoria
lhe queira transmitir.
* 8.35 Os
benefícios da sabedoria são equiparados com a própria vida. Ser verdadeiramente
vivo é estar corretamente relacionado com Deus, com outras pessoas bem como com
a ordem criada. Ver as notas em 3.2,18.
favor do SENHOR. Isto é,
aceitação e boa-vontade. O sábio não estava descrevendo uma maneira alternativa
de obter aceitação diferente daquela provida na comunidade do pacto e nos
sacrifícios. Antes, ele descreve as riquezas da comunhão dos crentes com o Senhor,
na qual suas vidas são moldadas pela verdadeira sabedoria (12.2).
* 8.36 Todos os que me aborrecem. Odiar a
sabedoria é odiar a vida, e, portanto, é amar a morte.
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sergiovalentin