* 3.1 A afirmação paulina de que para Deus não
há acepção de pessoas (2.11) não significa que não há qualquer
"vantagem" em ser alguém um judeu, mas somente que a desobediência
anula essa vantagem.
* 3.2 os oráculos de Deus. Ver a
referência lateral. A frase revela a crença do apóstolo de que a inspiração do
Antigo Testamento se extende às suas palavras (Mt 4.4).
* 3.3,4 A reação aos incrédulos não anula a
fidelidade de Deus às promessas constantes em sua palavra. Antes, ele as cumpre
(9.6,7; 2Tm 2.13), conforme o Antigo Testamento destaca.
* 3.5-8 Duas perguntas relacionadas são apresentadas
aqui. A primeira é que se a injustiça das pessoas é motivo para entrar em ação
a justiça de Deus, não seria injusto que Deus executasse a sua ira contra os
injustos? A resposta de Paulo é breve. "Concede-se" que Deus julgará
o mundo e que o seu julgamento será justo. No segundo passo, Paulo reduz a
objeção a uma conclusão absurda. Se Deus, de alguma maneira, aceita a
injustiça, que dá oportunidade da sua misericórdia manifestar-se, não deveria
ele acolher até mesmo mais atos de injustiça de nossa parte? A conclusão é
insensata (6.1,2,15). Os fins não justificam os meios.
* 3.5 Falo como homem. Embora
tenha sido o argumento expresso apenas como uma possibilidade, em uma discussão,
a sugestão que Deus poderia ser injusto requer uma correção imediata.
* 3.6 A justiça de Deus será
exibida no Julgamento Final. Como é óbvio, não será uma desculpa pelos pecados
o fato de que os condenados tiveram uma parte ativa em tornar necessário o
juízo divino. A justificação de pecadores, da parte de Deus, não desfaz a
verdade elementar que ele julgará o mundo com justiça.
* 3.8 alguns caluniosamente,
afirmam. Por tola que seja essa conclusão falsa, parece que Paulo foi
acusado de ensiná-la. Um tema semelhante mas não idêntico, é discutido em
5.20—6.1.
* 3.10 como está escrito. Esse é o
fraseado comum do Novo Testamento quando ali se apela à autoridade das
Escrituras (1.17; 3.3). Os textos bíblicos, considerados juntamente, salientam
o reinado universal do pecado e a consequente depravação e condenação da
humanidade inteira.
* 3.18 Não há temor de Deus. No Antigo
Testamento, a essência de uma atitude apropriada diante de Deus é o
"temor", cuja ausência corresponde ao ateísmo prático.
* 3.19 a lei. Neste passo,
"lei" é uma referência às Escrituras do Antigo Testamento em geral,
visto que as citações de Paulo procedem dos Salmos, Eclesiastes e Isaías.
diz. Outra
indicação de que Paulo encarava as Escrituras como a voz viva de Deus.
aos que vivem na lei. Não no
sentido de 6.14,15, mas como em 2.12 (aqueles que possuíam a revelação do
Antigo Testamento, ou seja, os judeus em particular).
para que se cale toda boca, e todo
o mundo seja culpável perante Deus. Ver a referência lateral. Ninguém,
seja judeu ou gentio, tem qualquer base para apelar; ninguém pode declarar-se
isento de culpa na presença de Deus. Todos estão perdidos.
* 3.20 pela lei vem o pleno conhecimento do
pecado. Ver "Os Três Propósitos da Lei", em Dt 13.11. Se
os judeus apelavam para a sua possessão da lei como prova de sua posição
privilegiada diante de Deus, Paulo, a esta altura, já havia demonstrado que o
pecado de qualquer judeu é desvendado e condenado, e não ocultado e tolerado, pela
lei (ver a autodescrição de Paulo, em 7.7-11). Por ocasião do Juízo Final, será
fútil todo argumento, diante de um Juiz perfeitamente justo e onisciente.
* 3.21-31 Tendo mostrado a necessidade, tanto
de judeus quanto de gentios, da justiça de Deus revelada no evangelho (1.16),
Paulo agora explica como isso é providenciado em Cristo (vs. 21-26), e destaca
duas implicações (vs. 27-31).
* 3.21 Mas agora. A lei de
Moisés, vista como uma demanda, não pode salvar. Não obstante, o evangelho não
é contrário à lei de Moisés (1.2). O evangelho já tinha sido proclamado tanto
pela "Lei" como pelos "Profetas". Mas "agora" (o
tempo transbordante da significação remidora, por causa da vinda de Cristo; v.
26), a justiça de Deus chega ao seu cumprimento histórico, através de Cristo e
Sua missão.
sem lei. A justiça
para com Deus não é obtida pelos nossos atos de obediência à lei. Não obstante,
Paulo insiste em que o evangelho não anula a lei (v. 31; 6.15; 8.3,4; 13.8,10).
* 3.22 mediante a fé em Jesus Cristo, para
todos... os que crêem. A justiça de Deus deve ser recebida, agora que ela
foi "revelada" (v. 21). Para Paulo, o ato de crer envolve o
conhecimento do conteúdo do evangelho, o assentimento mental ao seu testemunho
acerca de Cristo (10.14), e a confiança obediente e a dependência a ele como
Salvador e Senhor (1.5). A retidão de Deus destina-se exclusivamente àqueles
que têm fé ("porque não há distinção; pois todos pecaram e carecem da
glória de Deus"), sem importar se são judeus ou gentios (1.16,17).
* 3.23 carecem da glória de Deus. Ver
"Pecado Original e Depravação Total", em Sl 51.11. Uma pungente
descrição das conseqüências do pecado. Criada à imagem do Deus glorioso (Gn
1.26,27), a humanidade trocou a glória divina pela idolatria (1.23), e
distorceu a imagem divina. Agora, as pessoas estão moral e espiritualmente
repulsivas e depravadas. A graça renova e restaura a glória perdida da
humanidade no caso dos crentes (5.2; 8.18; 1Co 15.42-49; 2Co 3.18; Ef 4.24; Fp
3.20,21; Cl 3.10).
* 3.24 sendo justificados. Nas Escrituras,
a justificação é o contrário da condenação (p.ex., Pv 17.15). É a declaração
que diz que o pecador que crê é justo, e isso devido à retidão imputada de
Cristo, o "dom da justiça", conforme lemos em 5.17. Agora a justiça
de Cristo é legalmente considerada como possessão do pecador crente. A
justificação é algo final e irreversível (8.1,33,34). Está alicerçada sobre a
obediência da vida inteira de Cristo, na qual ele cumpriu os preceitos de Deus
por nós, e em sua morte na cruz, quando pagou a pena do julgamento divino que
era contra nós. Os crentes compartilham atualmente da posição justa, tanto
quanto a do Cristo ressurrecto, com quem eles estão unidos desde agora e pra
sempre (2Co 5.21).
gratuitamente, por sua graça. A
reiteração da mesma idéia, mediante palavras diferentes, enfatiza a iniciativa
e a misericórdia divina por nos ter concedido livremente a nossa salvação.
a redenção. Liberdade
obtida por meio do pagamento de um preço; neste caso específico vemos a soltura
da condição anterior de escravidão ao pecado. Isso foi realizado através da
morte de Cristo, o preço da redenção pago pela nossa salvação (Mc 10.45; 1Tm
2.6 e Hb 9.15).
* 3.25 a quem Deus propôs. Ver a nota
teológica "A Expiação", índice. Cristo morreu como um sacrifício
propiciatório, que satisfaz o julgamento divino contra os pecadores, produzindo
perdão e justificação. Mas Paulo é cuidadoso ao indicar que o sacrifício de
Cristo não fez Deus nos amar. O contrário é que exprime a verdade — o amor de
Deus levou-o a oferecer o seu Filho (5.8; 8.32; Jo 3.16).
mediante a fé. A ênfase
do v. 22 é reiterada, e, portanto, é destacada. "Mediante" indica o
meio de nós termos sido ligados à retidão de Cristo. A fé é a causa
instrumental, e não a causa final da justificação.
* 3.26 a manifestação da sua justiça. A retidão
judicial de Deus fica demonstrada no evangelho. Sob o sistema mosaico de
sacrifícios, o perdão era oferecido através (mas não à base) de sacrifícios de
animais. Conforme o Novo Testamento reconhece (Hb 9.11-15; 10.1-4), tais sacrifícios
não podem servir de substituto pelos pecados dos seres humanos. A real
significação dos sacrifícios veterotestamentários jaz na maneira como apontavam
para Cristo, por meio de quem Deus cuidaria do pecado humano, de maneira
apropriada e definitiva. Em face do que ele faria mais tarde, Deus podia, com
justiça, passar por cima dos "pecados anteriormente cometidos" (v.
25). A obra de Cristo revela tanto a justiça de Deus (ele pune o pecado na
pessoa de seu próprio Filho, 8.32) como a retidão do caminho divino da
salvação, mediante a "fé em Jesus" (v. 26). Ao tratar com Cristo como
o portador do pecado, e com a pessoa humana como pecadora, Deus não compromete
de maneira alguma a sua própria santidade, e nem a necessidade dos pecados
serem expiados. Contudo, ele proveu graciosamente a salvação que a humanidade
era incapaz de obter. Quanto a esse aspecto, Paulo via a Cruz de Cristo como a
manifestação da gloriosa sabedoria de Deus (1Co 1.23,24).
* 3.27 Onde, pois, a jactância. O ponto
salientado em 2.17,23 vem novamente à superfície. Visto que tanto os judeus
quanto os gentios estão debaixo da ira, por causa de seu pecado, e visto que a
lei não protege os judeus, mas antes, revela a condenação deles, e visto que o
evangelho desmascara a injustiça do indivíduo, ao mesmo tempo em que revela a
justiça de Deus, ninguém, nem mesmo um judeu, tem qualquer base para jactar-se
(4.2,3). De fato, a jactância fica "excluída", visto que somente a fé
(vs. 27,28,30), e não as realizações humanas, traz a salvação.
* 3.28 justificado pela fé. Ver
"Justificação e Mérito", em Gl 3.11.
* 3.30 Deus é um só. A salvação
não nos é dada por sermos possuidores da lei. Isso subentende que a salvação
foi posta à disposição de outras pessoas, e não somente à disposição dos judeus.
Paulo confirma essa verdade, em face da oposição judaica, apelando para a
confissão fundamental da religião do Antigo Testamento, que Deus é um só (Dt
6.4). Esse princípio já havia sido deixado implícito, nas acusações legais dos
profetas do Antigo Testamento, contra as nações, por causa dos pecados delas, e
contra os judeus, por causa dos pecados deles (p.ex., Am 1.2). Paulo salientou
que a justificação vem aos judeus ("os circuncisos") e aos gentios
("os incircuncisos") de uma mesma maneira — exclusivamente pela fé.
* 3.31 Anulamos, pois, a lei pela fé. Ver
"Antinomismo", em 1Jo 3.7. Paulo estava rejeitando a lei como caminho
da salvação. Mas visto que a lei, como demanda moral, não foi dada aos
pecadores a fim de justificá-los (vs. 19,20), o princípio da salvação pela
graça divina, mediante a fé, não pode ser contradito pela lei. Conforme ele
demonstrou mais adiante, o evangelho sustém e fomenta o alvo final da lei
(8.3,4; 13.8-10).
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sergiovalentin