*          4.1-25             Paulo confirma seu argumento de que a justificação vem pela graça divina, através da fé em Cristo (3.22-25), mediante um apelo à vida de Abraão. Na qualidade de pai espiritual dos judeus (v. 1), Abraão provê um caso de teste para a doutrina de Paulo. Se ele pudesse mostrar que Abraão foi justificado pela fé, então sua exposição anterior tornar-se-ia irrefutável em um contexto judaico.

 

*          4.2,3    Contra a posição de que Abraão foi considerado justo e sustentado em sua posição de aliança com Deus à base de sua obediência e fidelidade, Paulo tencionou demonstrar que a declaração geral, em 3.27, é verdadeira no caso de Abraão em particular. Abraão nada tinha do que "vangloriar-se", porquanto Gn 15.6 prova que foi pela fé, e não mediante a guarda da lei, que ele foi contado como justo. Tiago também destaca Abraão como exemplo de alguém que demonstrou sua verdadeira fé por meio de suas obras (Tg 2.21). Ver "Justificação e Mérito", em Gl 3.11.

 

*          4.4,5   É um princípio geral que os salários são ganhos em troca de trabalho, e não recebidos como uma "dádiva" (ver a referência lateral). Mas Gn 15.6 não faz qualquer menção a obras por parte de Abraão, mas menciona tão-somente a confiança que ele teve em Deus. Embora a fé tivesse sido um ato de Abraão, em nada esse ato contribuiu para a justiça resultante de Abraão diante de Deus, pois essa justiça foi uma dádiva divina (v. 4). Nesse sentido, se a fé, como o instrumento da justificação, envolve a atividade humana, ela não é uma "obra" meritória. A retidão de Deus foi "imputada” a Abraão (v. 3 e referências laterais; v. 9), e não conquistada por ele em troca de suas boas obras. Ver "Fé e Obras", em Tg 2.24.

 

*          4.6-8    O fato que a exegese paulina de Gn 15.6 está correta é confirmado por um apelo às palavras de Davi, em Sl 32.1,2. A bem-aventurança, a comunhão com Deus e tudo aquilo que os acompanha, bem como a salvação, não são adquiridas mediante as obras, mas são o efeito do dom do perdão. É por causa da obra de Cristo, e não por causa da nossa, que somos justificados.  Méritos humanos de qualquer tipo ficam excluídos.

 

*          4.9-12             Paulo agora aborda uma crítica adicional do seu argumento. Mesmo que ele tivesse demonstrado que a retidão veio pela graça, mediante a fé, no caso de Abraão, ter-se-ia ele esquecido que Abraão foi o pai dos circuncidados (e, portanto, não dos incircuncisos)? O apóstolo provê aqui uma resposta devastadora: Gn 15.6 descreve Abraão antes dele ter sido circuncidado (v. 10). A retidão em foco e selada no caso dele, por meio da circuncisão, já tinha sido imputada a ele, quando ainda não havia sido circuncidado. Abraão, pois, serve de protótipo de todos os crentes, tanto judeus quanto gentios. Para os judeus, Abraão serve de protótipo porque a sua circuncisão retorna ao momento da sua justificação, e, para os gentios, porque ele recebeu a justificação à parte da circuncisão.

 

*          4.13-15           Agora o argumento de Paulo avança mais um passo. A promessa feita a Abraão era que ele seria o pai de uma multidão que possuiria o território de Canaã, e que ele também seria a fonte de bênçãos para todas as nações (Gn 12.2,3,7). Cristo é o Descendente de Abraão (Gl 3.16), e já começou a herdar a terra (Sl 2.8; cf. Mt 28.18,19). Essa promessa foi recebida por Abraão mediante a fé, e não "por intermédio da lei" (v. 13). Paulo assume aqui a verdade do que ele demonstrou em Gl 3.17, visto que a lei veio quatrocentos e trinta anos depois da promessa, a promessa não pode ser reputada dependente da lei. Se a herança fosse dependente da obediência à lei, então a fé não teria lugar no esquema divino das coisas, e a promessa seria inútil, visto que a lei não pode produzir a obediência que ela mesma requer para que seja cumprida. Somente "onde não há lei" também "não há transgressão"; mas onde há lei, ela "suscita a ira" (v. 15). Concedida a verdade da pecaminosidade de todas as pessoas, é impossível que a promessa pudesse ser recebida à base da guarda da lei.

 

*          4.16     Essa é a razão por que provém da fé. Porquanto a promessa, em todos os seus elementos, é recebida pela fé, ela também é "segundo a graça", e "firme... para toda a descendência" de Abraão. Se, por acaso, a promessa fosse dada à base das obras humanas, a promessa teria fracassado; tivesse sido à base da circuncisão, ela só poderia ser recebida pelos judeus. Mas visto que vem mediante a fé, e, por conseguinte, vem pela graça (pela ação de Deus, e não por ação humana), "certamente" ela destina-se à verdadeira descendência espiritual de Abraão, ou crentes, sem importar, quanto ao nascimento natural, se eles são judeus ou gentios.

 

*          4.17     como está escrito. Uma vez mais Paulo apela para as Escrituras (Gn 17.5), quanto à confirmação de sua exposição. Longe de ser pai somente dos judeus (os circuncidados), já era claro, desde o livro de Gênesis, que Abraão seria o patriarca espiritual de todos os crentes, judeus e gentios igualmente. E nem é inacreditável que a promessa de Deus viesse também a ser recebida pelos gentios, pois Aquele em quem Abraão confiou "dá vida aos mortos". Isso se evidenciou na nova vida que veio do ventre aparentemente morto de Sara (v. 19), na vida devolvida a Isaque, quando ele estava sob a sentença de morte (Gn 22), e, finalmente, na vida restaurada na ressurreição de Cristo (4.24,25).

 

e chama à existência as cousas que não existem. Essas palavras podem referir-se à criação do mundo, por parte de Deus, a partir do nada (ver Gn 1; Is 41.4; 48.13, porquanto a criação foi chamada à existência pela palavra de Deus), ou podem referir-se ao nascimento de Isaque (onde uma nação emergiu de um ventre estéril). Talvez isso também aluda às palavras de Os 1.10; 2.23 (9.25,26).

 

*          4.18     contra a esperança. No curso natural dos eventos, acreditar que Sara daria à luz ao filho de Abraão (o primeiro requisito para receber o que lhe fora prometido) seria totalmente fútil, pelas razões expostas no versículo 19.

 

creu. Abraão confiou no poder de Deus (v. 17), e assim ganhou a certeza de que a promessa de Deus teria cumprimento. Paulo deixou salientado que a verdadeira fé dirige-se na direção de Deus, e não na direção da humanidade, na direção da palavra divina, e não na direção das situações humanas.

 

*          4.19     sendo já de cem anos. Ver Gn 17.1,17.

 

*          4.20     dando glória a Deus. Dar glória a Deus é a garantia da qualidade da fé, visto que é dependência no poder de Deus e é também confiança em sua promessa proferida (v. 21). A vida de fé demonstrada por Abraão era de natureza tal que os atributos de Deus formavam o seu alicerce (1.20), e, por conseguinte, era uma vida na qual a glória de Deus foi exibida (cf. 1.21). Foi exercendo essa espécie de fé que ele foi justificado (v. 22).

 

*          4.25     A prova da justificação pela fé, no caso de Abraão, levou Paulo de volta ao alicerce da justificação na obra de Cristo (3.24-26). A morte e a ressurreição de Cristo são dois aspectos de uma única obra salvífica. Na primeira parte, Cristo levou sobre si a pena legal pela nossa culpa. Na segunda parte, a ressurreição de Cristo confirmou que a sua morte foi uma oferta suficiente e eficaz pelo pecado, tendo agradado ao Juiz Supremo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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