* 7.1-12 Paulo
expande agora o tema da relação entre o crente e a lei. Embora a lei seja
santa, justa e boa (v. 12), a sujeição do pecador à lei resultou somente em
condenação, visto que a lei, em sua justiça, desvendava toda transgressão e
fracasso. Nesta seção, a relação entre o pecador e a lei é comparada a um
casamento. O ponto da comparação é que a morte leva essas relações ao fim, e o
cônjuge viúvo fica livre para entrar em uma nova relação de casamento. Visto
que o "casamento" com a lei foi quebrado por meio da morte, o crente
não é um adúltero e nem pode ser condenado pela lei. O crente morre ao ficar
unido com Cristo em sua morte, quebrando a cadeia de desobediência e morte que
prendia o pecador a Adão e ao seu destino (5.12-21). O outro lado da ilustração
é que a união com Cristo, em sua ressurreição, confere ao crente uma nova
relação, segundo a qual uma verdadeira, embora ainda não perfeita, obediência é
prestada a Deus, em amor e gratidão. No novo relacionamento com Cristo, a força
do Espírito assegura que haverá vida e frutificação.
* 7.3 Paulo parte da idéia de que
um novo casamento, após a morte de um dos cônjuges é inteiramente coerente com
o evangelho cristão (1Tm 5.14).
* 7.4 corpo de Cristo. A
referência aqui é à morte física de Jesus Cristo.
frutifiquemos. Uma
metáfora que aponta para um resultado ou consequência natural.
* 7.6 para aquilo a que estávamos
sujeitos. O complexo do pecado, da condenação e da morte em Adão e
debaixo da lei.
* 7.7 É a lei pecado. As alusões
de Paulo à lei até este ponto tiveram um tom negativo, especialmente a sua
declaração de que a lei desperta as paixões pecaminosas (v. 5). Mas agora ele
explica que reconhecer o efeito negativo da lei sobre a vida da humanidade
caída não desmerece a própria lei (note a linguagem veemente em 3.31). O papel
da lei, determinado por Deus, em um mundo caído, é revelar a natureza do pecado
humano. A lei não somente define o pecado, mas também atua como um estímulo,
provocando as precisas reações pecaminosas que ela proibia e condenava (vs.
8-11). Em si mesma, a lei, que nos leva a conhecer a realidade do pecado, em
nosso sistema moral e espiritual (3.20; 5.13,20) é "santa e justa e
boa" (v. 12). A lei é uma revelação fiel do que é certo e do que é errado,
e nunca perde a sua validade para aquilatar e dirigir o nosso comportamento
moral.
* 7.8 sem lei, está morto o pecado. No sentido
que ou o pecado ou sua real ofensa não eram reconhecidos.
* 7.9 sem a lei, eu vivia... e eu
morri. Paulo estava vivo, não no sentido de possuir vida espiritual
(6.11), mas em sua própria estimativa. Ao conhecer a lei, que prometia vida em
troca de obediência (v. 10), isso fez Paulo perceber que a observância da lei
lhe era requerida. Tentar obedecer à lei, fê-lo perceber que interiormente, nos
desejos de seu coração (especialmente a cobiça, v. 8, o pecado proibido no
décimo mandamento), ele era um constante transgressor da lei, antes mesmo de
conhecê-la, e quando ele percebeu o que estava fazendo, ele não podia mais
parar. Isso posto, Paulo escreve que o pecado, o impulso anti-Deus e anti-lei
que estava dentro dele, "me enganou e me matou" (v. 11). E ele ficou
convencido de que, espiritualmente, ele não tinha vida e estava perdido. Paulo,
pois, oferece a sua experiência pessoal como índice de como a lei se relaciona
com todas as pessoas.
* 7.10 que me fora para vida. Ver Lv
18.5; Dt 30.15,19. Em si mesma, a lei assinala uma vereda que garante o favor
de Deus e a felicidade da humanidade. Mas onde o pecado reina, a lei só produz
miséria e morte.
* 7.11 o pecado... me enganou. Aqui, como
em outros trechos da epístola aos Romanos, a sombra do jardim do Éden emerge na
linguagem usada por Paulo (Gn 3.13; cf. 2Co 11.3; 1Tm 2.14).
* 7.12 Santo, e justo, e bom. A lei
reflete o caráter de Deus ("santo"); é a norma objetiva para a reação
pactual da humanidade para com Deus ("justo"); e é benéfica para cada
um de nós, pessoalmente, visto que fomos criados à imagem de Deus
("bom").
* 7.13 Acaso o bom se me tornou em morte. A resposta
de Paulo à sua própria pergunta é um "não". O pecado em mim foi que
se tornou a causa de minha morte espiritual, impelindo-me a quebrar a boa lei
de Deus. O pecado, pois, é visto como "excessivamente iníquo".
* 7.14-25 A mudança súbita para verbos no tempo
presente, nos vs. 15-25, em contraste com as declarações que descreviam o
passado (vs. 7-13), levanta a questão se Paulo estava agora descrevendo sua
experiência presente. Há uma certa variedade de interpretações, incluindo as
seguintes: (a) Paulo estava descrevendo a pessoa não-regenerada, ou talvez os
judeus em particular, do ponto-de-vista do evangelho; (b) Paulo estava
descrevendo um crente que está em uma condição espiritual desnatural e doentia,
que não tira proveito dos recursos do Espírito Santo que em nós veio habitar;
(c) Paulo estava descrevendo a experiência transitória, talvez a sua própria
experiência, de alguém que foi despertado para suas verdadeiras necessidades
espirituais, mas ainda não entrou na experiência plena da justificação pela fé;
(d) Paulo estava descrevendo a si mesmo e aos crentes em geral que, embora em
Cristo e livres da condenação da lei, ainda não cumprem de modo perfeito os
requisitos da lei. Este quarto ponto é a interpretação mais provável. Isto
explica a mudança feita por Paulo para o tempo verbal presente, enquanto que
seu tema, nos vs. 7-25 (a santa lei de Deus que estimula e desmascara o
pecado), continua, bem como a presença, na auto-análise de Paulo, de elementos
encontrados somente em pessoas que foram unidas com o Cristo ressurrecto, para
a nova vida no Espírito (6.4-11; 7.6; 8.4-9). Paulo estava cônscio de que a lei
de Deus é "espiritual" (v. 14). Realmente, ele se deleitava na lei de
Deus, desejando cumpri-la perfeitamente (vs. 15-23), e ele se sentia aflito
porque o pecado, que nele havia, se opunha a esse desejo. Mas sentia-se
agradecido diante da possibilidade de um futuro livramento de sua frustração
(v. 24; 8.23). Ele fez a distinção entre a sua "mente", cujo alvo era
a obediência, e a sua "carne", que continuava a pecar (v. 25). Todas
essas observações mostram que Paulo estava descrevendo a sua experiência como
um novo homem em Cristo.
Paulo,
na verdade, estava descrevendo um profundo conflito que todo crente encontra
inerente em sua vida em Cristo: Cristo habita nele (Gl 2.20); e, no entanto, o
pecado também habita nele (vs. 17 e 20). Uma perfeita conformidade com a
vontade de Deus, no presente, estava fora de seu alcance. A salvação tem duas
dimensões: "já" e "ainda não".
É
importante observarmos que Paulo continuava discutindo o papel da lei. Ele
destaca sobre as frustrações da presente experiência cristã, mostrando
simplesmente como, tanto para os cristãos quanto para os judeus, a boa lei de
Deus provoca, expõe e condena o pecado, sem ser maculada por ele e sem trazer o
livramento dele.
* 7.14 a lei é espiritual. Temos aqui
uma outra descrição sobre a lei, em adição ao que se lê no v. 12. Longe de
repudiar a lei (3.31), Paulo declara que ela estabelece o padrão ao qual a vida
governada pelo Espírito deveria conformar-se. Fazendo contraste com a lei, ele
se chama de "carnal", visto que não podia atingir a plenitude desse
padrão. Na posição de ruína moral, atualmente sob reconstrução, ele exibia as
marcas daquilo que ele era em resultado da influência de Adão, bem como em
resultado da influência de Cristo.
vendido à escravidão do pecado. Apesar de
não sumariar toda a verdade a seu respeito (v. 25), Paulo reconhece que, do
ponto de vista da santa lei de Deus, essa é a verdade acerca de sua existência
física e de seu comportamento (apesar de que era um crente), e passa a explicar
a questão.
* 7.15 nem mesmo compreendo. Paulo é
capaz de analisar, mas não de explicar, o contraste que havia entre si mesmo e
o "pecado que habita em mim" (vs. 17, 20). Havia um tremendo e real
conflito entre as forças do pecado e da graça divina em sua vida. Todavia, ele
dá a entender que o pecado que nele habitava era apenas um ocupante temporário.
Apesar de que o pecado ainda acompanha sua nova identidade em Cristo, nesta
vida, a nova identidade resultará no triunfo final sobre o pecado que nele
habita (6.2-14).
* 7.24 Quem me
livrará. Esse não é um grito de desespero, porquanto Paulo sabe a resposta
e a fornece no versículo seguinte.
corpo desta morte. Ou seja, o
corpo físico, visto como o meio pelo qual o pecado se expressava. O desejo a
que Paulo aludiu aqui não era pela morte como tal, mas pelo livramento que,
finalmente, se consumará na ressurreição (8.23; Fp 3.20; 2Co 5.2-4).
* 7.25 eu, de mim mesmo. Devemos
entender por essa frase "eu, uma e a mesma pessoa". Paulo aprovava
totalmente a boa lei de Deus, e, no entanto, "na carne" ele ainda
servia ao pecado. A nova vida no Espírito é experimentada por indivíduos, na
mente, no corpo e no espírito que continuam a estampar os sinais do pecado.
com a mente... do pecado. Paulo
sintetiza aqui o estado de frustração que ele vinha descrevendo desde o v. 14.
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sergiovalentin