*          8.1-39              Encontramos aqui uma vasta rapsódica expansão da análise da certeza e da esperança cristãs contidas em 5.1-11. Paulo almeja a glória da salvação dos crentes romanos, e não a memória depressiva que tinha acabado de destacar, acerca de sua contínua pecaminosidade, para que a glória enchesse as mentes de seus leitores, e trouxesse alegria aos seus corações.

 

*          8.1                   Agora, pois. O interesse do apóstolo, aqui, é pastoral. Paulo está dizendo a seus leitores, à luz do lembrete passado de sua contínua pecaminosidade, que eles agora deveriam relembrar a aceitação, a imunidade e a segurança de que eles gozavam em Cristo.

 

nenhuma condenação. Provavelmente em ambos os sentidos — o julgamento e a punição.

 

*          8.2                   a lei do Espírito da vida... lei do pecado e da morte. A lei do Espírito aponta para o seu poder operante (7.23). A lei do pecado é o poder operante do pecado, ou então a lei divina usada pelo pecado para produzir a morte (7.8-13).

 

*          8.3                   o que fora impossível à lei. Paulo não está criticando a lei moral, mas observa uma vez mais que, por causa da pecaminosidade da humanidade, a lei não pode dar a salvação ao ser humano.

 

o seu próprio Filho. Essas palavras nos fazem lembrar de Gn 22.2, quando Isaque foi amarrado; e também apontam para o tremendo custo da nossa redenção (v. 32).

 

em semelhança de carne pecaminosa. A palavra "semelhança" significa a similaridade com um protótipo; a "carne pecaminosa" é a natureza humana, a qual, através da queda, veio a ser corrompida e controlada pelo pecado. A humanidade de Cristo era semelhante à nossa, porquanto ele podia ser tentado, e viveu sua vida como uma parte de um mundo decaído, pleno de fragilidades e exposto a vastas pressões. Mas nem por isso ele pecou, e não havia qualquer corrupção moral e espiritual nele. Se Jesus tivesse sido corrompido pelo pecado, em qualquer sentido, ele não poderia ter cumprido o padrão do Antigo Testamento, que requeria que toda oferta pelo pecado fosse "sem defeito" (Lv 4.3).

 

condenou Deus, na carne, o pecado. Parece que o que Paulo quis dizer aqui é que na crucificação do Filho de Deus encarnado, o pecado foi julgado e condenado, pelo que agora todas as reivindicações do pecado, que visam a nossa condenação, tornam-se inválidas. Não há qualquer condenação restante para aqueles que estão em Cristo. Ver "Liberdade Cristã", em Gl 5.7.

 

*          8.4-8    O contraste feito por Paulo entre o antigo e o novo padrão de vida, entre a vida na carne e a vida no Espírito (7.6), é agora resolvido detalhadamente nos termos de duas atitudes mentais fixas: uma delas sob a influência da "carne"; e a outra sob a influência de Cristo, por meio do Espírito que veio habitar nos crentes.

 

*          8.7                   inimizade contra Deus. Pura hostilidade contra Deus, incapaz de outra atitude qualquer, é a real atitude mental de todos aqueles que ainda não foram renovados pelo Espírito (3.9-18). A pessoa natural considera Deus um inimigo.

 

*          8.9-11             Os cristãos não estão em Adão, dominados pela "carne", mas estão sob o governo de Cristo, porque o Espírito que veio habitar nele é o Espírito de Cristo (ver "O Espírito Santo", em Jo 15.2). Embora o corpo físico continue sujeito à morte, a vida prevalece neles, porque aqueles que estão unidos com Cristo vivem para Deus na esfera do Espírito. A dualidade que está aqui em foco não é uma mera distinção entre os lados físico e espiritual na vida de um crente, mas entre duas esferas de existência — a vida física em um mundo caído, com sua sempre presente morte física, e vida no Espírito, a participação na ressurreição de Cristo (1.4).

 

*          8.10     o espírito é vida. Esta frase porém pode referir-se ao espírito renovado do crente, mas provavelmente, refere-se ao Espírito Santo. A própria passagem enfatiza o Espírito Santo, a sua obra e a sua íntima associação com Cristo. O "Espírito de Deus", que habita em nós, é chamado de "Espírito de Cristo" (v. 9), e a sua habitação permanente em nós é o meio mediante o qual Cristo está "em vós" (v. 10). Paulo via esse relacionamento como algo tão íntimo que ele pôde dizer "o Senhor é o Espírito" (2Co 3.17; cf. 1Co 15.45). Essas passagens não eliminam a distinção entre Cristo e o Espírito como Pessoas separadas da trindade divina.  Antes, Paulo estava ensinando que Cristo e o Espírito Santo trabalham juntos na aplicação da vida ressurrecta de Cristo ao crente. A presença do Espírito em nós, nesta vida, é a garantia da futura ressurreição do corpo do crente (v. 11).

 

*          8.11     Um relato trinitariano da realização da salvação, pressupondo a unidade entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, em seu ser essencial, da mesma maneira que eles estão unidos na complexa obra da redenção.

 

*          8.12     Deste ponto em diante, até o fim do presente capítulo, Paulo está generalizando sobre si mesmo, e todos os crentes juntamente com ele.

 

*          8.13     mortificardes os feitos do corpo. Ver "Santificação: O Espírito e a Carne", em 1Co 6.11. O corpo não é mau por si mesmo. O pecado origina-se no coração, o centro espiritual de nosso ser, e que inclui a vontade (Mc 7.18-23). Mas visto que vivemos em corpos físicos, o pecado acha expressão através do corpo. Portanto, não somente nos pontos internos de sua origem, mas também em suas expressões físicas, o pecado deve ser morto, ou seja, deve-se pôr um ponto final ao mesmo (6.12,13; 12.1).

 

*          8.14     Esse caminho da santidade é agora mais completamente descrito como a orientação pelo Espírito, sendo especificada como uma das marcas dos filhos de Deus. A palavra "guiados" nos faz lembrar a "adoção" e a orientação no êxodo e no deserto, que pode ter sido o pano de fundo do pensamento de Paulo aqui (9.4; Dt 8.2,15; 29.5). Ver "Adoção", em Gl 4.5.

 

*          8.15     o espírito de adoção. Em adição à justificação e a liberdade da condenação (v. 1), os crentes são acolhidos na família de Deus e são internamente persuadidos pelo Espírito de que eles fazem parte dessa família. O clamor do crente, "Abba, Pai" (a palavra aramaica Abba, foi usada pelo próprio Jesus para referir-se a Deus Pai, em Mc 14.36), indica quão vividamente a união com Cristo é uma realidade, na experiência da Igreja do Novo Testamento. Esse clamor é uma expressão de consciência assegurada de filiação. A idéia de adoção não aparece no sistema legal do Antigo Testamento, e Paulo parece ter tomado por empréstimo esse conceito próprio da lei romana, preenchendo-o com a teologia bíblica da paternidade de Deus sobre o seu povo.

 

*          8.16     testifica. O testemunho conjunto de nosso próprio espírito com o Espírito Santo vem à tona no clamor "Abba, Pai" (Gl 4.6).

 

*          8.17-21           Tal como todos os filhos, em uma família humana, são herdeiros do pai juntamente com o irmão mais velho, assim também os crentes são herdeiros de Deus em Cristo e juntamente com ele. Mas receber a herança que nos é dada em Cristo envolve a participação em seus sofrimentos, a vereda mediante a qual compartilharemos de sua glória (2Co 4.17). As palavras "glorificados", "glória", nos vs. 17-21 (cf. v. 30) significa a transformação, enobrecimento e o regozijo trazidos pela manifestação de Deus em cada crente. A glória a ser revelada (v.18) aparecerá quando os filhos de Deus são revelados em sua nova natureza (v.19), e a criação é libertada de seu presente estado de imperfeição e declínio (v. 20,21). A revelação dessa glória fará mais do que extinguir o dano e a perda (“Vaidade”, v.20) que a ordem criada sofreu em resultado da queda de Adão (Gn 3.17). A regeneração de todas as coisas (Mt 19.28; At 3.21 e Ap 21.1), na ordem criada, corresponde à liberdade na glória (vs.17, 18), a ser desfrutada pelos filhos de Deus.

 

*          8.22-25           A atual condição da criação não é sua condição final; é antes como uma mãe que geme com as dores do parto. A criação inteira tem um destino planejado por Deus, e deseja ardentemente que seja cumprido, tal como sucede aos próprios crentes (vs. 23, 26). Nossa salvação apenas começou — temos o Espírito Santo como se fora uma primeira prestação — mas só chegará à consumação quando formos ressuscitados (a plena realização da adoção que temos em Cristo, v. 23). Inevitavelmente, pois, a vida cristã envolve uma paciente espera, vivida na esperança.

 

*          8.24     na esperança, fomos salvos. Ver "Esperança" em Hb 6.18. O trabalho de parto (a dor e a tristeza, por causa de como as coisas são, 7.24,25; 8.18,36) é permeado com a expectação, e não com o desapontamento e a frustração (5.5), e também com a paciência (v. 25) e com o anelo (v. 23).

 

*          8.26     O Espírito... nos assiste. Ver "Oração", em Lc 11.2. O Espírito Santo nos fortalece em nosso estado de fraqueza, do que somos constantemente cônscios. A perplexidade quanto a orar por si mesmo é uma experiência universal dos crentes. Nosso anelo não-articulado de orarmos devidamente serve de indicação de que o Espírito, que em nós veio habitar, já nos está ajudando, ao interceder por nós em nossos corações, fazendo pedidos que o Pai certamente responderá.

 

*          8.28     Sabemos. O crente calcula o presente à luz de sua certeza quanto ao futuro. Como verdadeiros israelitas, em quem se cumpre o primeiro e grande mandamento (Mt 22.37,38), nosso amor a Deus é evocado pelo conhecimento que temos de que ele nos ama (5.5-8).

 

chamados. Conduzidos à fé (v. 30. cf. 1.6).

 

segundo o seu propósito. O propósito de Deus garante o "bem" para o seu povo. Para eles, isso não é, necessariamente, algo fácil e tranquilo, mas é ser como Cristo (vs. 17-23,29). A providência de Deus controla as coisas de tal modo que assegura que tudo quanto acontece conosco está funcionando para o nosso bem final.

 

*          8.29     conheceu... predestinou. Ver "O Propósito de Deus: Predestinação e Pré-Conhecimento", em Ml 1.2. Os vs. 29 e 30 explicam o "propósito" de Deus (v. 28). Trata-se de um plano da graça salvífica soberana, capacitando a todos aqueles que agora crêem que retrocedem a sua fé e salvação à eterna decisão de Deus de conduzir seus filhos à glória, e olharem para essa glória como uma certeza garantida. O destino determinado para os crentes (conformidade com Cristo e glorificação juntamente com ele) flui do conhecimento prévio de Deus. Aqui, é dito que Deus conheceu de antemão a pessoas, e não a fatos ou acontecimentos. É verdade que Deus conhece de antemão os eventos, mas o ponto frisado por Paulo foi que Deus tem, por sua própria iniciativa, escolhido os objetos de seu amor salvífico. "Conhecer" subentende uma relação pessoal íntima, e não meramente a consciência de fatos e circunstâncias (Gn 4.1; Am 3.2; Mt 1.25). Isto é virtualmente o equivalente da "eleição".

 

*          8.30     Aqueles que foram predestinados são, no devido tempo, "chamados" ou convocados eficazmente através do evangelho para a comunhão da salvação com Cristo (1.6; cf. 1Co 1.9). Observamos que todos aqueles que foram "chamados" também foram "justificados". Essa chamada não pode referir-se ao chamamento externo do evangelho, ao qual muitos rejeitam. Trata-se antes de um chamamento interior, que realiza aquilo que Deus tenciona fazer. Todos os predestinados são chamados dessa maneira. A predestinação inclui a determinação divina de que a pessoa receberá esse chamamento eficaz, e isso não está alicerçado no conhecimento que Deus tem de como as pessoas reagirão diante do evangelho. Tal como os predestinados são chamados, assim os chamados são tanto justificados quanto podem ter a certeza de que, finalmente, serão glorificados. O tempo verbal passado do verbo "glorificar" (glorificou) indica, do ponto de vista de Deus, essa obra como que já foi realizada. Deus completará seu plano, conforme foi planejado. Ver a nota teológica "Perseverança dos Santos", índice.

 

*          8.31-39           Paulo leva agora o argumento inteiro de 1.16—8.39 à conclusão triunfal por meio de uma série de desafios a toda influência que poderia distorcer a confiante certeza da Igreja, na atual preservação e na glória futura. A passagem nos faz lembrar o terceiro Cântico do Servo, em Is 50.4-9, do qual essa passagem depende.

 

*          8.31     Que diremos, pois, à vista destas cousas. Os vs. 28-30 podem estar primariamente em foco aqui, mas não deveriam ser separados de 1.16—8.27, e, especialmente, de 8.1-27. "Estas cousas" é uma frase que abarca a inteira exibição da graça divina gratuita, estendida a pecadores perdidos, nesta epístola, até este ponto.

 

quem será contra nós? Certamente alguém se oporá a nós, mas Paulo salienta que a essa oposição faltará a capacidade de destruir a fé. Visto que "Deus é por nós", é-nos assegurada a sobrevivência espiritual vitoriosa. As palavras "por nós" exprimem o eterno compromisso assumido pelo grande amor que é expresso nos vs. 38, 39.

 

*          8.32     Aquele que não poupou o seu próprio Filho. As palavras de Paulo são uma eficaz reverberação do que se lê na Septuaginta (tradução do Antigo Testamento para o grego), em Gn 22.12.

 

por todos nós o entregou. Essa frase é usada em outros lugares para indicar uma participação ativa na condenação judicial de Cristo (Mt 20.19; 26.15,16; 27.2,18,26; cf. Is 53.6,10).

 

por todos nós. Incluindo o pior dentre nós, os que cremos (3.9-18; 5.6-8). Uma vez mais, tal como em 5.9,10, Paulo raciocina do maior para o menor: o fato que Deus nos deu o seu Filho, para que morresse por nós, foi o dom supremo, garantindo o dom subsequente de tudo o mais de que precisamos quanto à nossa glória plena e final (v. 30).

 

*          8.33     É Deus quem os justifica. O Juiz já cuidou de todas as acusações que poderiam ser feitas contra nós, mediante a morte e a ressurreição de Cristo (4.25). A autojustificação é fútil.

 

*          8.34     o qual está à direita de Deus. Essa é a posição de honra e de autoridade executiva (cf. Sl 110.1). Não pode haver qualquer condenação contra nós (em qualquer sentido do termo, v. 1, nota), se aquele que levou sobre si o pecado, que está entronizado no céu, interceder por nós (1Jo 2.1), ao mesmo tempo em que o Espírito Santo intercede em nossos corações (v. 27).

 

*          8.35     Quem nos separará do amor de Cristo. A facilidade com que Paulo usou essa frase reciprocamente com "o amor de Deus... em Cristo" (v. 39), testifica sobre sua suposição subjacente da identidade de essência entre o Pai e o Filho.

 

*          8.36     O apelo de Paulo às Escrituras do Antigo Testamento, indica que o sofrimento não é uma novidade inesperada para o povo de Deus. Em Cristo, porém, tais sofrimentos tornam-se degraus na senda para a glória (5.1-5; 8.17-23).

 

*          8.37     somos mais que vencedores. A força demonstrada para tolerarmos a hostilidade da perseguição e a dor das circunstâncias é, realmente, admirável.

 

*          8.38,39 Nenhum aspecto da ordem criada, e nem qualquer evento ou ser dentro dessa ordem pode pôr fim a nosso aprazimento do amor ativo de Deus por nós, em Cristo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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