* 1.1
Paulo. As cartas antigas começavam com a fórmula geral: "A
envia saudações a B". Usando o seu nome romano, Paulo preencheu essa
fórmula com significações cristãs, tanto quanto à sua própria descrição (vs.
1-6) como no tocante ao estilo de sua saudação (vs. 7 e 8).
servo. No grego,
alguém totalmente posto à disposição de seu senhor.
apóstolo. Um
mensageiro oficial do evangelho. Ver 2Co 1.1, nota.
o evangelho de Deus. Deus é ao
mesmo tempo a origem e o tema da mensagem cristã; o evangelho é a mensagem
"de" Deus. Aqui e em outros lugares, o trinitarianismo de Paulo
aflora à superfície (1.3,4; 5.1-5; 8.3,4,9-11,16,17; 14.17,18; 15.16,30).
* 1.2 foi por Deus, outrora, prometido. O
evangelho foi anunciado sob a forma de promessas na pregação biblicamente
registrada dos profetas, na qual a apresentação apostólica do evangelho se
alicerçou (16.25-27).
* 1.3,4 Uma descrição dos dois estágios do
ministério do Salvador, e não uma descrição de suas duas naturezas. Embora
fosse Filho de Deus, ele "nasceu da descendência de Davi", a fim de
compartilhar de nossas fraquezas, mas foi transformado pelo "espírito da
santidade", por ocasião de sua ressurreição, e foi conduzido a um novo
estágio de sua existência pessoal humana (1Co 15.45; 2Co 13.4).
* 1.5,6 Paulo via Cristo como o autor de sua salvação,
e também de sua chamada para ser um evangelista entre os gentios (11.13,14; At
9.15; Ef 3.8).
* 1.5 para a obediência por fé.
Literalmente, "obediência de fé", indicando tanto a obediência que
flui da fé quanto o fato que a fé implica na submissão obediente ao chamamento
divino (16.26).
* 1.7 Roma. Capital do
império romano. Não temos um conhecimento indiscutível sobre a fundação da
igreja em Roma, embora visitantes judeus de Roma estivessem entre aqueles que
ouviram o evangelho pregado no dia de Pentecoste (At 1.10).
os amados de Deus... chamados para
serdes santos. Os termos usados na saudação mostrarão ser as notas-chaves
da própria epístola, como o chamamento divino, o amor, a graça e a paz, que são
explicados detalhadamente.
* 1.8 dou graças a meu Deus. A gratidão
pela obra graciosa de Deus em outras pessoas foi uma característica constante
da vida de Paulo (1Co 11.4; Fp 1.3; Cl 1.3; 1Ts 1.2; 2Ts 1.3; 2Tm 3.1; Fm 4).
em todo o mundo.
Espalharam-se por todo o império as notícias da presença de cristãos em Roma, a
capital.
* 1.9 faço menção de vós. O
constante empenho de Paulo à oração refletia o seu devotado serviço e o seu
anelo de ser espiritualmente útil. Ele orava em plena submissão à vontade de
Deus (vs. 9-12; cf. Ef 1.16; Fp 1.9; Cl 1.9; 1Ts 1.3; 2Ts 1.11; 2Tm 1.3).
* 1.11 dom espiritual. Aqui essa
expressão, "dom espiritual", não foi usada no sentido funcional de
1Co 12.1. Paulo tinha em mira antes o benefício que flui do exercício de dons
funcionais no ministério prestado ao próximo.
* 1.12 reciprocamente nos confortemos. O
ministério cristão visa ao fortalecimento mútuo do inteiro corpo de Cristo (Ef
4.15,16).
* 1.13 me propus ir ter convosco. Não
existem registros escritos dessas muitas ocasiões planejadas, mas ver At 19.21;
23.11, quanto ao senso de Paulo de ser impulsionado por Deus na direção de
Roma.
impedido.
Provavelmente por outras responsabilidades regulares. Ver At 16.6,7, quanto a interrupções
nos planos de Paulo, causados ou pelo conselho interno do Espírito Santo ou por
declarações proféticas.
entre os outros gentios. Isso nos
sugere que o pensamento de Paulo sobre a Igreja de Roma era composta
predominantemente por membros gentílicos.
* 1.14 Pois sou devedor. O
planejamento de Paulo (v. 13), e sua expectativa (v. 14) estavam arraigados em
forte senso de obrigação. Fora-lhe conferido o evangelho para anunciá-lo entre
os gentios (11.13,14; cf. Ef 3.1-8).
gregos. O mundo
de cultura helenista (os "sábios").
bárbaros. Os
incultos, os "não-sábios" do mundo antigo.
* 1.16 não me envergonho do evangelho. Embora o
evangelho pareça loucura para os sábios, Paulo via a sua mensagem como uma
demonstração da sabedoria divina (1Co 1.22-25,30), e não se sentia embaraçado
diante do caminho divino da salvação. Ver sobre "Salvação", em At
4.12.
o poder. O
regenerador impacto transformador de vida da palavra do evangelho, através do
Espírito Santo, é algo essencial, devido à servidão da humanidade ao pecado e a
Satanás, e da debilidade e incapacidade espiritual por causa do pecado (5.6;
8.5-9).
de todo aquele que crê. A salvação
é imerecida; mas não é universalmente desfrutada; a fé é requerida para que
haja salvação.
primeiro do judeu. Ao mesmo
tempo em que isso era uma verdade em termos da história da redenção (2.9,10; Jo
4.22; cf. Mc 7.24-30), também era o padrão do alcance missionários de Paulo.
Assim sendo, ao visitar as cidades do mundo romano, ele começava expondo as
Escrituras nas sinagogas, sempre que isso lhe era possível, quando então ele
pregava o Cristo como o cumprimento das promessas do Antigo Testamento (At
9.20; 13.5,14; 14.1; 17.1,17; 18.4,19,26; 19.8). Mas por toda esta epístola aos
Romanos, Paulo teve o cuidado de não negar a validade dos privilégios dados por
Deus ao seu próprio povo (3.11,12; 9.4,5).
* 1.17 a justiça de Deus. Essa é a
frase-chave da epístola aos Romanos (3.21; 5.19; 10.3), regularmente explicada
na epístola como "justiça... através (ou da) da fé" (3.22; 9.30;
10.6). A justiça de Deus é demonstrada na retidão de Cristo que é imputada ou
considerada por Deus como pertencente aos crentes. Essa imputação da retidão
aos pecadores que crêem é plenamente coerente com a retidão pessoal de Deus. Na
qualidade de juiz justo e reto (2.5-16), Deus justifica ou declara reto, por
meio da morte de seu Filho, aqueles pecadores que confiam em Cristo com
verdadeira fé (3.21-26; 5.10). A leitura deste versículo, por parte de Lutero,
exerceu um decisivo impacto em sua compreensão sobre a justificação.
de fé em fé. Paulo
acentua o fato de que o Evangelho em cada ponto da sua influência, reclama a
necessidade da fé, não das obras.
como está escrito. O trecho
de Hc 2.4 provê a base bíblica para e o sumário do que se segue, indicando que
o modo de vida pela fé já era conhecido no Antigo Testamento.
viverá. A vida em
contraste com a morte espiritual, e a vida no sentido de uma contínua comunhão
com Deus. Do princípio ao fim, viver piedosamente significa confiar em Deus e
depender de sua graça.
* 1.18 A ira de Deus. A divina e
justa retribuição do Juiz e a sua reação pessoal, provocada pelo mal moral.
se revela. O
julgamento divino não se limita ao futuro; seu antagonismo contra o pecado já
se manifesta no mundo. Seus efeitos são visíveis desde agora.
impiedade e perversão. A ordem
das palavras pode ser significativa — visto que a decadência moral segue-se à
rebelião teológica. Ou Paulo poderia estar usando juntos esses dois vocábulos
para exprimir uma única idéia, a da impiedade iníqua.
que detêm a verdade. Não
significa que a verdade seja buscada mas não possa ser achada, mas antes é que,
confrontada com a verdade (que é "claramente reconhecida”, v. 20), a
humanidade caída busca impedir e obstruir a sua influência, razão pela qual
torna-se "indesculpável" (v. 20). A "desculpa" dos homens é
um apelo à ignorância.
* 1.19 o que de Deus se pode conhecer. Paulo
salienta aqui a realidade e a universalidade da revelação divina, que é
perpétua ("desde o princípio do mundo", v. 20) e claramente
perceptível ("claramente se reconhecem", v. 20). A invisibilidade, a
eternidade e o poder são todos expressos em e através da ordem criada (ver
"Revelação Geral", em Sl 19.1). O Deus invisível se revela através do
meio visível da criação. Essa revelação é manifesta; ela não é obscurecida, mas
é claramente visível. Ver nota teológica "Conhecimento e Culpa",
índice.
* 1.21 tendo conhecimento de Deus. Com estas
palavras, Paulo salientou que a humanidade não somente tem a oportunidade de
conhecer a Deus por meio da revelação geral, mas também que essa revelação
produz um real conhecimento. O pecado da humanidade consiste na recusa do
indivíduo de reconhecer o que já se sabe ser verdade. Apesar de reconhecerem a
Deus, as pessoas se recusam em honrá-lo ou em mostrarem-se agradecidas a ele. A
conseqüência de terem rejeitado a Deus foi que suas mentes e corações se
obscureceram. A recusa de honrar a Deus, leva todos os esforços intelectuais à
frustração.
* 1.22,23 Inculcando-se por sábios,
tornaram-se loucos ... mudaram a glória do Deus incorruptível. A
arrogância intelectual, na presença de Deus, exibe um senso de valores
invertido; a adoração a Deus é trocada pela devoção a ídolos feitos por homens
e que refletem os homens. O indelével instinto para adorar é pervertido
mediante a centralização sobre objetos errados (v. 25).
* 1.24 Deus entregou tais homens. O
julgamento divino envolve a remoção das restrições divinas, tanto sobre os atos
pecaminosos como sobre as suas consequências (vs. 26, 28).
* 1.26,27 O efeito da perversão da adoração
instintiva a Deus é a perversão de outros instintos, que se afastam de suas
funções apropriadas. As Escrituras encaram todos os atos homossexuais sob essa
luz (Lv 18.22; 21.13). A conseqüência é a degradação do corpo (v. 24), a
dominação da concupiscência, a desintegração daquilo que é verdadeiramente
"natural" (v. 26), e a escravidão a paixões incontroláveis (v. 27).
* 1.27 recebendo, em si mesmos, a merecida
punição. Até mesmo em um mundo moralmente caído, e, portanto imprevisível
(para a humanidade), a recompensa da colheita está relacionada às sementes
implantadas (Gl 6,7,8).
* 1.28 por haverem desprezado... o próprio Deus os
entregou. O pecado produz o desdém pelos reais valores, e se arrisca a
ser deixado por Deus a um espírito de licensiosidade (vs. 29-31).
* 1.32 conhecendo eles a sentença de Deus. Paulo via
como evidências da culpa e da servidão ao pecado, o fato de que o conhecimento
do juízo divino não atua mais como força de restrição, antes, torna-se motivo para
mais rebelião ainda, sob a forma de encorajar outros ao pecado. Este texto
confirma que parte da revelação de Deus, mediante a natureza, comunica seu
caráter moral e um senso de dever moral por parte da humanidade.
* 2.1-16 Naquilo que se segue, Paulo
volta-se para um representante imaginário de um grupo de pessoas real e
identificável. Embora ele tenha mencionado especificamente os judeus
tão-somente, no v. 17, provavelmente ele já os tinha em mente. Eles concordam
com a declaração paulina sobre a ira de Deus, mas supõem-se a salvo dessa ira
(o que explica a severa advertência do apóstolo no v. 5). Mas a natureza dessa
presunção, se não em sua forma específica, não se limita aos judeus. Neste
contexto, Paulo firma os princípios do julgamento divino que todos os seres
humanos terão que enfrentar. Esse julgamento está baseado sobre a verdade (v.
2) e será marcado pela retidão (v. 5). Será de conformidade com as obras de
cada um (v. 6), imparcial em sua natureza (v. 11), e executado por meio de
Cristo (v. 16). Esse julgamento divino trará uma agonizante ruína a todos os
pecadores (vs. 8, 9).
* 2.1 indesculpável. Paulo
desmascara aqueles que concordavam com a exposição dele da ira divina sobre o
pecado (1.18-32), mas supunham-se imunes a ela.
Pois praticas as próprias coisas
que condenas. Naquilo em que condenam a outras pessoas, na verdade
condenam a si mesmos (v. 3).
* 2.2
é segundo a verdade. Um elo com
1.18. O julgamento divino se baseia sobre a realidade da reação ou falta de
reação do indivíduo a ele, e não sobre outras considerações.
* 2.4 Ou desprezas. Eles se
recusam a reconhecer que a bondade de Deus tem por intenção produzir a tristeza
por causa do pecado e o abandono do mesmo. Eles desprezam esse propósito da
generosidade divina, e, assim sendo, mostram o seu desdém pelo próprio Deus.
Ver "Deus É Amor: Bondade e a Fidelidade", em Sl 136.1.
* 2.5 acumulas contra ti mesmo ira. A
presunção religiosa consiste em "dureza" de coração, visto que uma
contínua resistência aos propósitos de Deus, na exibição de sua graça, é a
recusa de fazer a vontade de Deus, e aumenta o senso de culpa, ao mesmo tempo
em que protesta inocência. A ira vai sendo acumulada (ver referência lateral),
apontando para uma punição proporcional, no inferno.
* 2.6-10 A
base do julgamento será aquilo que as pessoas tiverem sido ou feito (v. 6).
Paulo não estava negando aqui o que enfatiza em outros lugares: que a salvação
é uma dádiva, e não uma recompensa (5.15,17; 6.23). O julgamento divino está
baseado sobre cada aspecto do relacionamento pessoal com Deus. Somente aqueles
que recebem a graça é que, de fato, aspiram "glória, honra e
imortalidade" (v. 7). Há, porém, aqueles que são "facciosos" (v.
8), e não buscam honrar a Deus. Paulo ensina que se a salvação vem pela graça
divina, o julgamento será de acordo com as obras de cada um (2Co 5.10). À parte
da graça, só será possível um veredito: "ao judeu primeiro, e também ao
grego" (v. 10; cf. 1.16).
* 2.11 Uma correta posição diante de Deus não tem
base em motivos étnicos, e nem quaisquer distinções autogeradas entre a
humanidade (9.6-13; Gl 6.15).
* 2.12-16 Os judeus estavam prontos para apelar
à lei de Moisés, que eles possuíam, mas não os povos gentílicos. Fica implícito
que, nessa conexão, Deus mostra "parcialidade" (v. 11). O papel da
lei é um dos principais temas da epístola aos Romanos (3.27-31; 4.13-15;
5.13-15; 6.14,15; 7.1-25; 13.8-10). Temos aqui a primeira discussão acerca do
papel da lei. Paulo mostrou que aquilo que agrada a Deus não é o conhecimento
da lei, mas a obediência à vontade revelada de Deus através da lei. Por conseguinte,
"não há acepção de pessoas" (v. 11).
* 2.12 todos os que pecaram. Essa
categoria inclui a todos, conforme fica claro em 3.19,20,23.
lei. A lei de
Moisés, cristalizada nos Dez Mandamentos (Êx 20.1-17; Dt 5.1-22). A lei mosaica
já revela a condenação divina contra o pecado, mas a causa do pecado jaz em
nossos corações, ou seja, profundamente arraigada em nossa natureza, e não na
lei (7.13). O conhecimento da "norma da lei" (v. 15) também reside no
coração, porquanto a humanidade foi criada à imagem de Deus (Gn 1.26,27). Visto
que Deus julga as pessoas de acordo com padrões que lhes der a conhecer, a
defesa baseada na ignorância da legislação mosaica é irrelevante e ilegítima.
Não será o grau da revelação recebida, mas a reação diante da própria revelação,
sem importar como e quando recebida, que se mostrará crítica "no dia em
que Deus julgar" (v. 16).
* 2.14 procedem, por natureza, de conformidade com
a lei. Nenhum ser humano pode ser justificado com base na sua
justiça própria, mas a presença universal de padrões morais (embora com vários
graus de clareza), e o senso comum de obrigação diante desses padrões, indicam
uma constituição moral universal e o senso de que o indivíduo terá que prestar
conta diante de Deus. Isso é evidenciado pelo testemunho prestado pela sua
"consciência" (v. 15). Ver "A Consciência e a Lei", em 1Sm
24.7.
* 2.16 por meio de Cristo Jesus. Todo
julgamento foi deixado aos cuidados Dele (Mt 7.21-23; 25.31-33; Jo 5.22; 2Co
5.10). Esse julgamento será infalível, penetrando nos "pensamentos e
intuitos do coração" (Hb 4.12,13); e coisa alguma será ocultada do Juiz. E
ninguém poderá dizer que é injusto que seres humanos sejam julgados pelo ser
divino, visto que o agente do julgamento será o Cristo encarnado, sendo ele mesmo
um homem. Ver o "O Juízo Final", em Mt 25.41.
meu evangelho. O
evangelho pregado por Paulo. Nesse evangelho, as más novas do julgamento
antecedem as boas novas da graça divina.
* 2.17-29 Paulo volta-se agora, diretamente,
para a reivindicação judaica de privilégios especiais, tratando com maiores
detalhes acerca da possessão da lei (vs. 17-24) e da circuncisão (vs. 25-29).
Em conexão com a lei, ele imprime força à reivindicação que aparece no v. 1,
que os judeus eram culpados dos pecados pelos quais eles condenavam outras
pessoas. Em conexão com a circuncisão, o apóstolo argumentou que o sinal, sem a
sua realidade, não tem sentido.
* 2.17-20 Paulo alistou aqui os privilégios de
que os judeus se jactavam, pensando que essas bênçãos lhes davam superioridade
sobre outras pessoas.
* 2.21-23 As responsabilidades que acompanhavam
os privilégios não tinham sido cumpridas. Paulo especifica os mandamentos
contra o adultério, o sacrilégio e o furto (Êx 20.4,5,14,15).
* 2.25 a circuncisão... valor. O
argumento de Paulo, neste segundo capítulo, chega agora ao seu clímax. A
condenação resulta do fracasso de obedecer a revelação de qualquer tipo. Os
judeus tinham transgredido particularmente a lei mosaica, esvaziando a
circuncisão de seu real significado. Paulo reconheceu os privilégios dos judeus
(9.4,5), e da circuncisão em particular (3.1,2; 4.11). Mas a circuncisão física
era símbolo da santificação e da renovação da vida (v. 25; Dt 30.6). A
realidade, e não apenas o sinal, é a questão vital, e pode ser possuída a parte
do judaísmo (vs. 26,27).
* 2.29 Porém judeu é aquele que. A obra do
Espírito, que deriva-se de uma vida centrada em Deus, e não a possessão da
"circuncisão... exteriormente" (v. 28), e a "letra" (v.
27), é que torna o indivíduo membro do povo em aliança com Deus. Conforme Paulo
demonstrará, a sua conclusão poderia chocar os judeus aos quais ele se dirigia,
mas estava alicerçada sobre o ensino do próprio Antigo Testamento (cf. 9.6).
* 3.1 A afirmação paulina de que para Deus não
há acepção de pessoas (2.11) não significa que não há qualquer
"vantagem" em ser alguém um judeu, mas somente que a desobediência
anula essa vantagem.
* 3.2 os oráculos de Deus. Ver a
referência lateral. A frase revela a crença do apóstolo de que a inspiração do
Antigo Testamento se extende às suas palavras (Mt 4.4).
* 3.3,4 A reação aos incrédulos não anula a
fidelidade de Deus às promessas constantes em sua palavra. Antes, ele as cumpre
(9.6,7; 2Tm 2.13), conforme o Antigo Testamento destaca.
* 3.5-8 Duas perguntas relacionadas são apresentadas
aqui. A primeira é que se a injustiça das pessoas é motivo para entrar em ação
a justiça de Deus, não seria injusto que Deus executasse a sua ira contra os
injustos? A resposta de Paulo é breve. "Concede-se" que Deus julgará
o mundo e que o seu julgamento será justo. No segundo passo, Paulo reduz a
objeção a uma conclusão absurda. Se Deus, de alguma maneira, aceita a
injustiça, que dá oportunidade da sua misericórdia manifestar-se, não deveria
ele acolher até mesmo mais atos de injustiça de nossa parte? A conclusão é
insensata (6.1,2,15). Os fins não justificam os meios.
* 3.5 Falo como homem. Embora
tenha sido o argumento expresso apenas como uma possibilidade, em uma
discussão, a sugestão que Deus poderia ser injusto requer uma correção
imediata.
* 3.6 A justiça de Deus será
exibida no Julgamento Final. Como é óbvio, não será uma desculpa pelos pecados
o fato de que os condenados tiveram uma parte ativa em tornar necessário o
juízo divino. A justificação de pecadores, da parte de Deus, não desfaz a
verdade elementar que ele julgará o mundo com justiça.
* 3.8 alguns caluniosamente,
afirmam. Por tola que seja essa conclusão falsa, parece que Paulo foi
acusado de ensiná-la. Um tema semelhante mas não idêntico, é discutido em
5.20—6.1.
* 3.10 como está escrito. Esse é o
fraseado comum do Novo Testamento quando ali se apela à autoridade das
Escrituras (1.17; 3.3). Os textos bíblicos, considerados juntamente, salientam
o reinado universal do pecado e a consequente depravação e condenação da
humanidade inteira.
* 3.18 Não há temor de Deus. No Antigo
Testamento, a essência de uma atitude apropriada diante de Deus é o
"temor", cuja ausência corresponde ao ateísmo prático.
* 3.19 a lei. Neste passo,
"lei" é uma referência às Escrituras do Antigo Testamento em geral,
visto que as citações de Paulo procedem dos Salmos, Eclesiastes e Isaías.
diz. Outra
indicação de que Paulo encarava as Escrituras como a voz viva de Deus.
aos que vivem na lei. Não no
sentido de 6.14,15, mas como em 2.12 (aqueles que possuíam a revelação do
Antigo Testamento, ou seja, os judeus em particular).
para que se cale toda boca, e todo
o mundo seja culpável perante Deus. Ver a referência lateral. Ninguém,
seja judeu ou gentio, tem qualquer base para apelar; ninguém pode declarar-se
isento de culpa na presença de Deus. Todos estão perdidos.
* 3.20 pela lei vem o pleno conhecimento do
pecado. Ver "Os Três Propósitos da Lei", em Dt 13.11. Se
os judeus apelavam para a sua possessão da lei como prova de sua posição
privilegiada diante de Deus, Paulo, a esta altura, já havia demonstrado que o
pecado de qualquer judeu é desvendado e condenado, e não ocultado e tolerado,
pela lei (ver a autodescrição de Paulo, em 7.7-11). Por ocasião do Juízo Final,
será fútil todo argumento, diante de um Juiz perfeitamente justo e onisciente.
* 3.21-31 Tendo mostrado a necessidade, tanto
de judeus quanto de gentios, da justiça de Deus revelada no evangelho (1.16),
Paulo agora explica como isso é providenciado em Cristo (vs. 21-26), e destaca
duas implicações (vs. 27-31).
* 3.21 Mas agora. A lei de
Moisés, vista como uma demanda, não pode salvar. Não obstante, o evangelho não
é contrário à lei de Moisés (1.2). O evangelho já tinha sido proclamado tanto
pela "Lei" como pelos "Profetas". Mas "agora" (o
tempo transbordante da significação remidora, por causa da vinda de Cristo; v.
26), a justiça de Deus chega ao seu cumprimento histórico, através de Cristo e
Sua missão.
sem lei. A justiça
para com Deus não é obtida pelos nossos atos de obediência à lei. Não obstante,
Paulo insiste em que o evangelho não anula a lei (v. 31; 6.15; 8.3,4; 13.8,10).
* 3.22 mediante a fé em Jesus Cristo, para
todos... os que crêem. A justiça de Deus deve ser recebida, agora que ela
foi "revelada" (v. 21). Para Paulo, o ato de crer envolve o
conhecimento do conteúdo do evangelho, o assentimento mental ao seu testemunho
acerca de Cristo (10.14), e a confiança obediente e a dependência a ele como
Salvador e Senhor (1.5). A retidão de Deus destina-se exclusivamente àqueles
que têm fé ("porque não há distinção; pois todos pecaram e carecem da
glória de Deus"), sem importar se são judeus ou gentios (1.16,17).
* 3.23 carecem da glória de Deus. Ver
"Pecado Original e Depravação Total", em Sl 51.11. Uma pungente
descrição das conseqüências do pecado. Criada à imagem do Deus glorioso (Gn
1.26,27), a humanidade trocou a glória divina pela idolatria (1.23), e
distorceu a imagem divina. Agora, as pessoas estão moral e espiritualmente
repulsivas e depravadas. A graça renova e restaura a glória perdida da
humanidade no caso dos crentes (5.2; 8.18; 1Co 15.42-49; 2Co 3.18; Ef 4.24; Fp
3.20,21; Cl 3.10).
* 3.24 sendo justificados. Nas
Escrituras, a justificação é o contrário da condenação (p.ex., Pv 17.15). É a
declaração que diz que o pecador que crê é justo, e isso devido à retidão
imputada de Cristo, o "dom da justiça", conforme lemos em 5.17. Agora
a justiça de Cristo é legalmente considerada como possessão do pecador crente.
A justificação é algo final e irreversível (8.1,33,34). Está alicerçada sobre a
obediência da vida inteira de Cristo, na qual ele cumpriu os preceitos de Deus
por nós, e em sua morte na cruz, quando pagou a pena do julgamento divino que
era contra nós. Os crentes compartilham atualmente da posição justa, tanto
quanto a do Cristo ressurrecto, com quem eles estão unidos desde agora e pra
sempre (2Co 5.21).
gratuitamente, por sua graça. A
reiteração da mesma idéia, mediante palavras diferentes, enfatiza a iniciativa
e a misericórdia divina por nos ter concedido livremente a nossa salvação.
a redenção. Liberdade
obtida por meio do pagamento de um preço; neste caso específico vemos a soltura
da condição anterior de escravidão ao pecado. Isso foi realizado através da morte
de Cristo, o preço da redenção pago pela nossa salvação (Mc 10.45; 1Tm 2.6 e Hb
9.15).
* 3.25 a quem Deus propôs. Ver a nota
teológica "A Expiação", índice. Cristo morreu como um sacrifício
propiciatório, que satisfaz o julgamento divino contra os pecadores, produzindo
perdão e justificação. Mas Paulo é cuidadoso ao indicar que o sacrifício de
Cristo não fez Deus nos amar. O contrário é que exprime a verdade — o amor de
Deus levou-o a oferecer o seu Filho (5.8; 8.32; Jo 3.16).
mediante a fé. A ênfase
do v. 22 é reiterada, e, portanto, é destacada. "Mediante" indica o
meio de nós termos sido ligados à retidão de Cristo. A fé é a causa
instrumental, e não a causa final da justificação.
* 3.26 a manifestação da sua justiça. A retidão
judicial de Deus fica demonstrada no evangelho. Sob o sistema mosaico de
sacrifícios, o perdão era oferecido através (mas não à base) de sacrifícios de
animais. Conforme o Novo Testamento reconhece (Hb 9.11-15; 10.1-4), tais
sacrifícios não podem servir de substituto pelos pecados dos seres humanos. A
real significação dos sacrifícios veterotestamentários jaz na maneira como
apontavam para Cristo, por meio de quem Deus cuidaria do pecado humano, de
maneira apropriada e definitiva. Em face do que ele faria mais tarde, Deus
podia, com justiça, passar por cima dos "pecados anteriormente
cometidos" (v. 25). A obra de Cristo revela tanto a justiça de Deus (ele
pune o pecado na pessoa de seu próprio Filho, 8.32) como a retidão do caminho
divino da salvação, mediante a "fé em Jesus" (v. 26). Ao tratar com
Cristo como o portador do pecado, e com a pessoa humana como pecadora, Deus não
compromete de maneira alguma a sua própria santidade, e nem a necessidade dos
pecados serem expiados. Contudo, ele proveu graciosamente a salvação que a
humanidade era incapaz de obter. Quanto a esse aspecto, Paulo via a Cruz de
Cristo como a manifestação da gloriosa sabedoria de Deus (1Co 1.23,24).
* 3.27 Onde, pois, a jactância. O ponto
salientado em 2.17,23 vem novamente à superfície. Visto que tanto os judeus
quanto os gentios estão debaixo da ira, por causa de seu pecado, e visto que a
lei não protege os judeus, mas antes, revela a condenação deles, e visto que o
evangelho desmascara a injustiça do indivíduo, ao mesmo tempo em que revela a
justiça de Deus, ninguém, nem mesmo um judeu, tem qualquer base para jactar-se
(4.2,3). De fato, a jactância fica "excluída", visto que somente a fé
(vs. 27,28,30), e não as realizações humanas, traz a salvação.
* 3.28 justificado pela fé. Ver
"Justificação e Mérito", em Gl 3.11.
* 3.30 Deus é um só. A salvação
não nos é dada por sermos possuidores da lei. Isso subentende que a salvação
foi posta à disposição de outras pessoas, e não somente à disposição dos
judeus. Paulo confirma essa verdade, em face da oposição judaica, apelando para
a confissão fundamental da religião do Antigo Testamento, que Deus é um só (Dt
6.4). Esse princípio já havia sido deixado implícito, nas acusações legais dos
profetas do Antigo Testamento, contra as nações, por causa dos pecados delas, e
contra os judeus, por causa dos pecados deles (p.ex., Am 1.2). Paulo salientou
que a justificação vem aos judeus ("os circuncisos") e aos gentios
("os incircuncisos") de uma mesma maneira — exclusivamente pela fé.
* 3.31 Anulamos, pois, a lei pela fé. Ver
"Antinomismo", em 1Jo 3.7. Paulo estava rejeitando a lei como caminho
da salvação. Mas visto que a lei, como demanda moral, não foi dada aos
pecadores a fim de justificá-los (vs. 19,20), o princípio da salvação pela
graça divina, mediante a fé, não pode ser contradito pela lei. Conforme ele
demonstrou mais adiante, o evangelho sustém e fomenta o alvo final da lei
(8.3,4; 13.8-10).
* 4.1-25 Paulo confirma seu argumento de que
a justificação vem pela graça divina, através da fé em Cristo (3.22-25),
mediante um apelo à vida de Abraão. Na qualidade de pai espiritual dos judeus
(v. 1), Abraão provê um caso de teste para a doutrina de Paulo. Se ele pudesse
mostrar que Abraão foi justificado pela fé, então sua exposição anterior
tornar-se-ia irrefutável em um contexto judaico.
* 4.2,3 Contra a posição de que Abraão foi
considerado justo e sustentado em sua posição de aliança com Deus à base de sua
obediência e fidelidade, Paulo tencionou demonstrar que a declaração geral, em
3.27, é verdadeira no caso de Abraão em particular. Abraão nada tinha do que
"vangloriar-se", porquanto Gn 15.6 prova que foi pela fé, e não
mediante a guarda da lei, que ele foi contado como justo. Tiago também destaca
Abraão como exemplo de alguém que demonstrou sua verdadeira fé por meio de suas
obras (Tg 2.21). Ver "Justificação e Mérito", em Gl 3.11.
* 4.4,5 É um princípio geral que os salários são
ganhos em troca de trabalho, e não recebidos como uma "dádiva" (ver a
referência lateral). Mas Gn 15.6 não faz qualquer menção a obras por parte de
Abraão, mas menciona tão-somente a confiança que ele teve em Deus. Embora a fé
tivesse sido um ato de Abraão, em nada esse ato contribuiu para a justiça
resultante de Abraão diante de Deus, pois essa justiça foi uma dádiva divina
(v. 4). Nesse sentido, se a fé, como o instrumento da justificação, envolve a
atividade humana, ela não é uma "obra" meritória. A retidão de Deus
foi "imputada” a Abraão (v. 3 e referências laterais; v. 9), e não conquistada
por ele em troca de suas boas obras. Ver "Fé e Obras", em Tg 2.24.
* 4.6-8 O fato que a exegese paulina de Gn 15.6 está
correta é confirmado por um apelo às palavras de Davi, em Sl 32.1,2. A
bem-aventurança, a comunhão com Deus e tudo aquilo que os acompanha, bem como a
salvação, não são adquiridas mediante as obras, mas são o efeito do dom do
perdão. É por causa da obra de Cristo, e não por causa da nossa, que somos
justificados. Méritos humanos de
qualquer tipo ficam excluídos.
* 4.9-12 Paulo agora aborda uma crítica
adicional do seu argumento. Mesmo que ele tivesse demonstrado que a retidão
veio pela graça, mediante a fé, no caso de Abraão, ter-se-ia ele esquecido que
Abraão foi o pai dos circuncidados (e, portanto, não dos incircuncisos)? O
apóstolo provê aqui uma resposta devastadora: Gn 15.6 descreve Abraão antes
dele ter sido circuncidado (v. 10). A retidão em foco e selada no caso dele,
por meio da circuncisão, já tinha sido imputada a ele, quando ainda não havia
sido circuncidado. Abraão, pois, serve de protótipo de todos os crentes, tanto
judeus quanto gentios. Para os judeus, Abraão serve de protótipo porque a sua
circuncisão retorna ao momento da sua justificação, e, para os gentios, porque
ele recebeu a justificação à parte da circuncisão.
* 4.13-15 Agora o argumento de Paulo avança
mais um passo. A promessa feita a Abraão era que ele seria o pai de uma
multidão que possuiria o território de Canaã, e que ele também seria a fonte de
bênçãos para todas as nações (Gn 12.2,3,7). Cristo é o Descendente de Abraão
(Gl 3.16), e já começou a herdar a terra (Sl 2.8; cf. Mt 28.18,19). Essa
promessa foi recebida por Abraão mediante a fé, e não "por intermédio da
lei" (v. 13). Paulo assume aqui a verdade do que ele demonstrou em Gl
3.17, visto que a lei veio quatrocentos e trinta anos depois da promessa, a
promessa não pode ser reputada dependente da lei. Se a herança fosse dependente
da obediência à lei, então a fé não teria lugar no esquema divino das coisas, e
a promessa seria inútil, visto que a lei não pode produzir a obediência que ela
mesma requer para que seja cumprida. Somente "onde não há lei" também
"não há transgressão"; mas onde há lei, ela "suscita a ira"
(v. 15). Concedida a verdade da pecaminosidade de todas as pessoas, é impossível
que a promessa pudesse ser recebida à base da guarda da lei.
* 4.16 Essa é a razão por que provém da fé. Porquanto
a promessa, em todos os seus elementos, é recebida pela fé, ela também é
"segundo a graça", e "firme... para toda a descendência" de
Abraão. Se, por acaso, a promessa fosse dada à base das obras humanas, a
promessa teria fracassado; tivesse sido à base da circuncisão, ela só poderia
ser recebida pelos judeus. Mas visto que vem mediante a fé, e, por conseguinte,
vem pela graça (pela ação de Deus, e não por ação humana),
"certamente" ela destina-se à verdadeira descendência espiritual de
Abraão, ou crentes, sem importar, quanto ao nascimento natural, se eles são
judeus ou gentios.
* 4.17 como está escrito. Uma vez
mais Paulo apela para as Escrituras (Gn 17.5), quanto à confirmação de sua
exposição. Longe de ser pai somente dos judeus (os circuncidados), já era
claro, desde o livro de Gênesis, que Abraão seria o patriarca espiritual de
todos os crentes, judeus e gentios igualmente. E nem é inacreditável que a
promessa de Deus viesse também a ser recebida pelos gentios, pois Aquele em
quem Abraão confiou "dá vida aos mortos". Isso se evidenciou na nova
vida que veio do ventre aparentemente morto de Sara (v. 19), na vida devolvida
a Isaque, quando ele estava sob a sentença de morte (Gn 22), e, finalmente, na
vida restaurada na ressurreição de Cristo (4.24,25).
e chama à existência as cousas que
não existem. Essas palavras podem referir-se à criação do mundo, por
parte de Deus, a partir do nada (ver Gn 1; Is 41.4; 48.13, porquanto a criação
foi chamada à existência pela palavra de Deus), ou podem referir-se ao
nascimento de Isaque (onde uma nação emergiu de um ventre estéril). Talvez isso
também aluda às palavras de Os 1.10; 2.23 (9.25,26).
* 4.18 contra a esperança. No curso
natural dos eventos, acreditar que Sara daria à luz ao filho de Abraão (o
primeiro requisito para receber o que lhe fora prometido) seria totalmente
fútil, pelas razões expostas no versículo 19.
creu. Abraão
confiou no poder de Deus (v. 17), e assim ganhou a certeza de que a promessa de
Deus teria cumprimento. Paulo deixou salientado que a verdadeira fé dirige-se
na direção de Deus, e não na direção da humanidade, na direção da palavra
divina, e não na direção das situações humanas.
* 4.19 sendo já de cem anos. Ver Gn
17.1,17.
* 4.20 dando glória a Deus. Dar glória
a Deus é a garantia da qualidade da fé, visto que é dependência no poder de
Deus e é também confiança em sua promessa proferida (v. 21). A vida de fé
demonstrada por Abraão era de natureza tal que os atributos de Deus formavam o
seu alicerce (1.20), e, por conseguinte, era uma vida na qual a glória de Deus
foi exibida (cf. 1.21). Foi exercendo essa espécie de fé que ele foi
justificado (v. 22).
* 4.25 A prova da justificação pela fé, no caso de
Abraão, levou Paulo de volta ao alicerce da justificação na obra de Cristo
(3.24-26). A morte e a ressurreição de Cristo são dois aspectos de uma única
obra salvífica. Na primeira parte, Cristo levou sobre si a pena legal pela
nossa culpa. Na segunda parte, a ressurreição de Cristo confirmou que a sua
morte foi uma oferta suficiente e eficaz pelo pecado, tendo agradado ao Juiz
Supremo.
* 5.1-11 Agora
são traçadas as implicações da justificação pela graça, mediante a fé. A
transição da ira (1.18) para a graça (3.21) transforma tanto a posição quanto a
experiência do crente. Em lugar de alienação (3.10-17), agora há paz (5.1); em
lugar de ficar aquém da glória de Deus, por motivo do pecado (3.23), agora há a
esperança da glória (5.2); em lugar de sofrimento como julgamento (2.5,6), há
agora alegria nas tribulações, por causa daquilo que Deus produz através delas
(5.3); em lugar de uma temida incerteza, há agora a certeza do amor de Deus
(vs. 6-8) e a alegria no Senhor (v. 11).
* 5.1 temos paz. Ver a
referência lateral. Numerosos manuscritos apóiam a tradução "tenhamos
paz". Mas o fluxo da lógica paulina dá sustentação à primeira dessas
possíveis traduções. O fato que "acabamos agora de receber a
reconciliação" (v. 11), subentende que já desfrutamos de paz com Deus. Uma
vez estabelecida essa paz, agora temos acesso à presença de Deus. O muro de
separação foi removido. Essa paz não é uma trégua guardada, sujeita a nova
eclosão de guerra. Antes, trata-se de uma paz permanente.
* 5.2 na esperança. No Novo
Testamento, a esperança é a certeza de que receberemos algo que ainda não está
sendo plenamente experimentado, o que é inteiramente diferente da incerteza, do
pensamento desejoso. Que essa esperança não será frustrada é garantido aqui e
agora pelo amor de Deus que o Espírito Santo derrama nos corações dos crentes
(vs. 4,5).
* 5.4 experiência. Ver a
referência lateral. Essa experiência confirma a nossa confiança de que a glória
pela qual esperamos uma dia nos pertencerá (8.17-25).
* 5.6 Cristo... morreu. A natureza
desse amor derramado (v. 5) é visto na cruz. Ali Deus agiu "no devido
tempo" (ver a referência lateral), tanto no sentido que a morte de Cristo
teve lugar de acordo com o tempo de Deus (Jo 17.1; At 2.23; Gl 4.4), como
também porque essa bênção nos veio no momento de nossa mais profunda
necessidade. Esse é o ponto tocado por Paulo quando ele diz: "quando nós
ainda éramos fracos" (v. 6), "sendo nós ainda pecadores" (v.8) e
"quando inimigos" (v. 10).
* 5.8-11 Tal
como o trecho de 8.1-4,32, esta passagem ilumina o propósito especial e a
eficácia que Paulo atribui regularmente à morte de Cristo. Em outras palavras,
Cristo morreu especificamente "por nós" (v. 8), os quais agora cremos
e estamos justificados mediante a nossa fé, pois a sua morte realmente obteve
para nós a "reconciliação" que "acabamos agora de receber"
(v. 11). Ver a "Redenção Definida", em Jo 10.10.
* 5.9 muito mais agora. Paulo
argumentou do maior para o menor. Se Deus operou por nós a obra da
reconciliação, ao custo do sofrimento e da morte de seu Filho, ele não negará a
salvação final que é "através dele" e "pelo seu sangue", na
qualidade de Mediador assunto ao céu. Guardar para a salvação final aqueles que
já foram justificados é simplesmente Deus seguindo avante o Seu propósito
inicial de amá-los. A expressão mais decisiva e mais cara desse propósito de
amor foi a morte reconciliadora e real de Cristo, que garantiu a justificação e
a glorificação daqueles por quem ele morreu (8.32).
* 5.10 fomos reconciliados. Somente Paulo
no Novo Testamento descreve como reconciliação a obra de Cristo que leva sobre
si o pecado (11.15; 2Co 5.18-20; Ef 2.16; Cl 1.20,22), embora a idéia já se
faça presente no Antigo Testamento, especialmente no livro de Oséias. A
alienação de Deus com respeito a nós chegou ao fim mediante a remoção da causa
da alienação (nosso pecado, culpa e condenação) através da morte de Cristo (cf.
2Co 5.21). Nesse sentido, a reconciliação é objetiva (2Co 5.18,19). Todavia,
ela precisa ser “recebida” (v.11; cf. 2Co 5.20), pela rejeição da nossa própria
alienação e hostilidade, a saber, mediante o arrependimento e a fé em Cristo.
* 5.12-21 A palavra "portanto", usada
no começo do v. 12, indica que aquilo que se segue está ligado, na mente de
Paulo, com o que precedeu, pelo que a comparação e o contraste que ele traça
entre Adão e Cristo, é sua elaboração teológica do que já havia sido dito.
Paulo salienta a idéia de "um só homem" por toda esta passagem (vs.
12,15-17 e 19), e isso indica que ele encarava tanto Adão como Cristo como
indivíduos históricos. No caso de Adão, ele enfoca a atenção sobre a sua
"ofensa" (vs. 16, 18 e a referência lateral), mediante a qual todos
os homens "se tornam pecadores" (v. 19). Eles mostraram-se solidários
com Adão, que foi o representante deles diante de Deus, e isso os constituiu
pecadores, quando Adão pecou.
* 5.12 assim como... entrou o pecado no mundo. Paulo
começa a fazer aqui uma comparação que não foi concluída senão nos vs. 18-21. A
comparação foi interrompida mediante uma meditação que continua até o v. 17.
como por um só homem. A morte
não é natural para a humanidade, mas resulta diretamente do pecado (Gn 2.17).
porque todos pecaram. O reino
universal da morte é a consequência do pecado. Paulo não explicou como toda a
humanidade se viu envolvida com Adão em seu pecado, mas simplesmente asseverou
o fato. Todos os homens pecaram no pecado de Adão. Ver "Pecado Original e
Depravação Total", em Sl 51.11.
* 5.14 reinou a morte. Todos os
seres humanos estiveram sujeitos à morte, antes que fosse concedida a lei de
Moisés.
o qual prefigurava aquele que havia
de vir. Adão, o primeiro homem, foi o cabeça divinamente nomeado da
humanidade inteira, e o pecado dele fez todos aqueles a quem ele representava
perderem a retidão ("todos os homens", vs. 12 e 18;
"muitos", vs. 15 e 19). Por semelhante modo, Deus fez de Cristo o
cabeça representante de uma nova humanidade, a fim de que, mediante a sua
obediência diante da morte, pudesse obter a justificação deles. Inerente a esse
ensino é a idéia de que a restauração provida na salvação deve seguir o padrão,
e reverter o conteúdo da constituição original da humanidade diante de Deus
(1Co 15.45-49; Hb 2.14-18).
* 5.15 não é assim o dom gratuito como a ofensa. Ver a
referência lateral. Paulo exprimiu aqui o contraste entre Cristo e Adão, nos
vs. 15-17. Não somente os atos entre eles são antitéticos, mas a graça da obra de
Cristo é vista como maior do que o pecado, o julgamento e a condenação de Adão,
quanto à maneira como a realização de Cristo trouxe justificação, retidão e
vida a almas arruinadas ("muito mais", vs. 15 e 17).
* 5.16 o julgamento derivou de uma só ofensa. Ver
"A Queda", em Gn 3.14.
* 5.18,19 Paulo retorna ao principal impacto
de sua analogia, a saber, que há um paralelo entre Adão e Cristo, visto que a
condenação e a justificação são frutos diretos de suas ações. Com base nos atos
de "um só", "muitos" são constituídos ou pecadores ou
justos. Adão é o cabeça representante bem como a raiz física de todos, pois
todos pecaram e caíram quando ele pecou. Em contraste, mediante a
"obediência de um só", aqueles que são representados por Cristo,
foram feitos "justos" em Cristo (ver "A Humilde Obediência de
Cristo", em Jo 5.29). Cristo é o Cabeça representante deles, bem como a
raiz espiritual da nova humanidade, pois mediante a sua ressurreição, eles
receberam tanto o novo nascimento quanto uma vívida esperança (1Pe 1.3; Ef
2.1-7).
* 5.20 Sobreveio a lei. A lei foi
dada como um elemento adicional (pós-queda) no trato de Deus com o seu povo, a
fim de que "avultasse a ofensa". Enquanto o pecado estava no mundo
antes que a lei fosse dada (v. 13), a lei revela o pecado em seu caráter
específico como transgressão, o ultrapassar de um conjunto de regras
padronizadas. Tais declínios "abundam", porquanto as demandas da lei
despertam desejos contrários nos corações dos pecadores (7.5,8). Mas em face
desse aumento do pecado, "superabundou a graça", não somente mantendo
o mesmo passo com a ofensa, mas até ultrapassando-a, na grande salvação
realizada por meio de Cristo.
* 6.1-14 A insistência de Paulo de que o
aumento do pecado é compensado pelo aumento da graça (5.20), levou à pergunta
que ele agora levanta. Tão grande foi a sua ênfase sobre a liberdade da graça
divina , em face do pecado, que a sua pregação foi acusada de tendências
antinomianas, ou seja, a ignorância dos requisitos éticos da lei (3.8). Agora
ele frisava o ponto de que continuar no pecado envolveria uma contradição da
nova identidade do crente em Cristo. Em face dessa nova identidade (v. 11), os
crentes devem rejeitar a idéia de que a permissão de pecar usurpe autoridade
sobre as suas vidas; pelo contrário, devem entregar sua vida inteira a Deus
(vs. 12,13), na certeza de que, visto estarem sob a graça divina e não sob a
lei, como meio da salvação deles, o pecado não é mais o seu senhor.
* 6.2 De modo nenhum. Uma
expressão freqüentemente usada por Paulo para exprimir um retrocesso
escandaloso (3.31; 6.15; 7.7,13; 9.14; 11.1,11).
nós os que para ele morremos. O ponto
destacado por Paulo é que os crentes foram realmente unidos a Cristo, tanto em
sua morte quanto em sua ressurreição, e que isso alterou de tal modo a condição
deles que continuarem pecando como antes não somente é impróprio, mas também é,
realmente, impossível.
* 6.3,4 O batismo em água, o sinal e o selo da união
inicial com Cristo, é a cerimônia de sepultamento para o "velho
homem" (v. 6), bem como a cerimônia de inauguração para a nova pessoa em
Cristo (v. 4). Como tal, o batismo proclama que aqueles que estão unidos com
Cristo morreram para o pecado. De Rm 5.20 a Rm 8.4, o pecado é apresentado como
a força impulsionadora que produz atos pecaminosos, e que é personificado como
um capataz tirânico, exigindo domínio e que precisa ser resistido. Ver a nota
teológica "Batismo", índice.
* 6.6 foi crucificado com ele o
nosso velho homem. Se o "velho homem" abrange a vida de antes
da conversão, inclui também muito mais, e deveria ser interpretado à luz de
5.12-21, dando a entender tudo quanto éramos em nossa união com Adão. Devemos
pensar que tudo isso foi encravado na cruz, a fim de morrer.
o corpo do pecado. Talvez no
sentido do pecado como uma massa, como um corpo; mas provavelmente o corpo
físico visto como a esfera na qual o pecado reinava (cf. "corpo desta
morte", em 7.24).
seja destruído. A união
com Cristo em sua morte não destrói o nosso corpo como tal, mas põe fim ao
papel do corpo como o instrumento inescapável do pecado, destruindo o reino do
pecado no corpo. Os corpos dos crentes são agora dedicados a Cristo e produzem
fruto santo em seu serviço (6.13,22; 7.4; 12.1). Não somos mais "escravos
do pecado" visto que a vida no corpo, dominada pelo desejo ardente de
pecar, cedeu lugar à vida no corpo dominada pela paixão pela justiça e pela
santidade (v. 18).
* 6.7 está justificado do pecado. Ver a
referência lateral. Aqui a linguagem tem uma nuance adicional de "livrado
do", porquanto Paulo estava discutindo o reinado do pecado, e não
meramente a sua culpa (vs. 17-22). Paulo personificou o pecado como se fosse um
monarca (5.21); como um general que usa várias partes do corpo como armas ("instrumentos,
v. 13 e referência lateral); e também como um empregador que paga salário ao
seu empregado (v. 23).
* 6.8 também com ele viveremos. Isso
inclui a idéia da ressurreição, mas também deixa implícita a nossa presente
participação na vida ressurrecta de Cristo, como alguém que está "vivo
para Deus em Cristo Jesus" (v. 11).
* 6.11 considerai-vos mortos. Deve-se
reconhecer que aquilo que foi dito nos vs. 1-10 já era a verdade a respeito do
crente.
* 6.12 Não reine... o pecado. Visto que
o reinado do pecado foi quebrado, todas as tentativas do pecado por recuperar o
domínio podem e devem ser resistidas. O corpo (v. 13), outrora dominado por
desejos pecaminosos, não mais deve ceder diante desses desejos.
* 6.13 oferecei-vos a Deus. Paulo via
o segredo da santificação como a entrega da pessoa por inteiro a Deus, da qual
se segue o oferecimento das várias partes do corpo a ele.
como ressurrectos dentre os mortos. Tudo isso
deve ser feito em consciente conhecimento e como uma expressão deliberada, de
nossa nova identidade em Cristo.
* 6.14 o pecado não terá domínio sobre vós. Temos aqui
uma declaração indicativa, uma promessa, e não um imperativo ou uma exortação.
pois não estais debaixo da lei, e,
sim, da graça. O princípio controlador na vida do crente é o reinado da
graça, que nos livra do reinado do pecado (5.21), e nos transforma segundo a
semelhança de Cristo.
* 6.15-23 O fato de que o crente não está
debaixo da lei, mas debaixo da graça divina poderia parecer que provê licença
para a negligência moral. Mas Paulo nega isso, visto que, sob o reinado da
graça, os crentes tornaram-se escravos de Deus. A liberdade concedida pela
graça, portanto, é a liberdade para obedecer e servir, e não uma permissão para
pecar. Ver "Liberdade e Escravidão da Vontade", em Jr 17.19.
* 6.17 graças a Deus. Ao mesmo
tempo em que Paulo salienta a atividade do indivíduo na conversão ("vos
ofereceis", v. 16: "viestes a obedecer", v. 17), ele atribui,
agradecido, toda a correta reação espiritual à graça de Deus. Se o indivíduo é
ativo na conversão, ele o fez de maneira não-contribuinte e não-meritória, de
tal modo que não ficam comprometidas nem a graça e nem a soberania divinas.
viestes a obedecer de coração à
forma de doutrina a que fostes entregues. Ver a referência lateral. O
oposto à servidão ao pecado é a submissão do novo estilo de vida que é
produzido pela graça. À vista disto aqui estão tanto o próprio evangelho como o
tipo de ensino dado nos capítulos 12—16, talvez tendo o próprio Cristo como
modelo (cf. Ef 4.20,21).
* 6.18 uma vez libertados do pecado. Ver a
"Liberdade Cristã", em Gl 5.7.
* 6.19 Falo como homem, por causa da fraqueza da
vossa carne. A ilustração da escravidão é uma representação inadequada da
vida cristã, especialmente em um contexto romano, porquanto poderia dar a idéia
de uma dura conotação da servidão humana e expressar inadequadamente a verdade
de que o jugo de Cristo é suave (Mt 11.28-30). Não obstante, Paulo retém a
metáfora, talvez acreditando que o perigo maior consiste em deixar de cumprir a
responsabilidade moral pessoal diante do Senhor.
para a escravidão da impureza. A
pecaminosidade não se estaciona, mas entra em decadência e se agrava.
* 6.23 O tríplice contraste do salário, do pecado
e da morte, com o dom, Deus e a vida eterna, leva o argumento de Paulo a um
enfoque memorável.
* 7.1-12 Paulo
expande agora o tema da relação entre o crente e a lei. Embora a lei seja santa,
justa e boa (v. 12), a sujeição do pecador à lei resultou somente em
condenação, visto que a lei, em sua justiça, desvendava toda transgressão e
fracasso. Nesta seção, a relação entre o pecador e a lei é comparada a um
casamento. O ponto da comparação é que a morte leva essas relações ao fim, e o
cônjuge viúvo fica livre para entrar em uma nova relação de casamento. Visto
que o "casamento" com a lei foi quebrado por meio da morte, o crente
não é um adúltero e nem pode ser condenado pela lei. O crente morre ao ficar
unido com Cristo em sua morte, quebrando a cadeia de desobediência e morte que
prendia o pecador a Adão e ao seu destino (5.12-21). O outro lado da ilustração
é que a união com Cristo, em sua ressurreição, confere ao crente uma nova
relação, segundo a qual uma verdadeira, embora ainda não perfeita, obediência é
prestada a Deus, em amor e gratidão. No novo relacionamento com Cristo, a força
do Espírito assegura que haverá vida e frutificação.
* 7.3 Paulo parte da idéia de que
um novo casamento, após a morte de um dos cônjuges é inteiramente coerente com
o evangelho cristão (1Tm 5.14).
* 7.4 corpo de Cristo. A
referência aqui é à morte física de Jesus Cristo.
frutifiquemos. Uma
metáfora que aponta para um resultado ou consequência natural.
* 7.6 para aquilo a que estávamos
sujeitos. O complexo do pecado, da condenação e da morte em Adão e
debaixo da lei.
* 7.7 É a lei pecado. As alusões
de Paulo à lei até este ponto tiveram um tom negativo, especialmente a sua
declaração de que a lei desperta as paixões pecaminosas (v. 5). Mas agora ele
explica que reconhecer o efeito negativo da lei sobre a vida da humanidade
caída não desmerece a própria lei (note a linguagem veemente em 3.31). O papel
da lei, determinado por Deus, em um mundo caído, é revelar a natureza do pecado
humano. A lei não somente define o pecado, mas também atua como um estímulo,
provocando as precisas reações pecaminosas que ela proibia e condenava (vs.
8-11). Em si mesma, a lei, que nos leva a conhecer a realidade do pecado, em
nosso sistema moral e espiritual (3.20; 5.13,20) é "santa e justa e
boa" (v. 12). A lei é uma revelação fiel do que é certo e do que é errado,
e nunca perde a sua validade para aquilatar e dirigir o nosso comportamento
moral.
* 7.8 sem lei, está morto o pecado. No sentido
que ou o pecado ou sua real ofensa não eram reconhecidos.
* 7.9 sem a lei, eu vivia... e eu
morri. Paulo estava vivo, não no sentido de possuir vida espiritual
(6.11), mas em sua própria estimativa. Ao conhecer a lei, que prometia vida em
troca de obediência (v. 10), isso fez Paulo perceber que a observância da lei
lhe era requerida. Tentar obedecer à lei, fê-lo perceber que interiormente, nos
desejos de seu coração (especialmente a cobiça, v. 8, o pecado proibido no
décimo mandamento), ele era um constante transgressor da lei, antes mesmo de
conhecê-la, e quando ele percebeu o que estava fazendo, ele não podia mais
parar. Isso posto, Paulo escreve que o pecado, o impulso anti-Deus e anti-lei
que estava dentro dele, "me enganou e me matou" (v. 11). E ele ficou
convencido de que, espiritualmente, ele não tinha vida e estava perdido. Paulo,
pois, oferece a sua experiência pessoal como índice de como a lei se relaciona
com todas as pessoas.
* 7.10 que me fora para vida. Ver Lv
18.5; Dt 30.15,19. Em si mesma, a lei assinala uma vereda que garante o favor
de Deus e a felicidade da humanidade. Mas onde o pecado reina, a lei só produz
miséria e morte.
* 7.11 o pecado... me enganou. Aqui, como
em outros trechos da epístola aos Romanos, a sombra do jardim do Éden emerge na
linguagem usada por Paulo (Gn 3.13; cf. 2Co 11.3; 1Tm 2.14).
* 7.12 Santo, e justo, e bom. A lei
reflete o caráter de Deus ("santo"); é a norma objetiva para a reação
pactual da humanidade para com Deus ("justo"); e é benéfica para cada
um de nós, pessoalmente, visto que fomos criados à imagem de Deus
("bom").
* 7.13 Acaso o bom se me tornou em morte. A resposta
de Paulo à sua própria pergunta é um "não". O pecado em mim foi que
se tornou a causa de minha morte espiritual, impelindo-me a quebrar a boa lei
de Deus. O pecado, pois, é visto como "excessivamente iníquo".
* 7.14-25 A mudança súbita para verbos no tempo
presente, nos vs. 15-25, em contraste com as declarações que descreviam o
passado (vs. 7-13), levanta a questão se Paulo estava agora descrevendo sua
experiência presente. Há uma certa variedade de interpretações, incluindo as
seguintes: (a) Paulo estava descrevendo a pessoa não-regenerada, ou talvez os
judeus em particular, do ponto-de-vista do evangelho; (b) Paulo estava
descrevendo um crente que está em uma condição espiritual desnatural e doentia,
que não tira proveito dos recursos do Espírito Santo que em nós veio habitar;
(c) Paulo estava descrevendo a experiência transitória, talvez a sua própria
experiência, de alguém que foi despertado para suas verdadeiras necessidades
espirituais, mas ainda não entrou na experiência plena da justificação pela fé;
(d) Paulo estava descrevendo a si mesmo e aos crentes em geral que, embora em
Cristo e livres da condenação da lei, ainda não cumprem de modo perfeito os
requisitos da lei. Este quarto ponto é a interpretação mais provável. Isto
explica a mudança feita por Paulo para o tempo verbal presente, enquanto que
seu tema, nos vs. 7-25 (a santa lei de Deus que estimula e desmascara o
pecado), continua, bem como a presença, na auto-análise de Paulo, de elementos
encontrados somente em pessoas que foram unidas com o Cristo ressurrecto, para
a nova vida no Espírito (6.4-11; 7.6; 8.4-9). Paulo estava cônscio de que a lei
de Deus é "espiritual" (v. 14). Realmente, ele se deleitava na lei de
Deus, desejando cumpri-la perfeitamente (vs. 15-23), e ele se sentia aflito
porque o pecado, que nele havia, se opunha a esse desejo. Mas sentia-se
agradecido diante da possibilidade de um futuro livramento de sua frustração
(v. 24; 8.23). Ele fez a distinção entre a sua "mente", cujo alvo era
a obediência, e a sua "carne", que continuava a pecar (v. 25). Todas
essas observações mostram que Paulo estava descrevendo a sua experiência como
um novo homem em Cristo.
Paulo,
na verdade, estava descrevendo um profundo conflito que todo crente encontra
inerente em sua vida em Cristo: Cristo habita nele (Gl 2.20); e, no entanto, o
pecado também habita nele (vs. 17 e 20). Uma perfeita conformidade com a
vontade de Deus, no presente, estava fora de seu alcance. A salvação tem duas
dimensões: "já" e "ainda não".
É
importante observarmos que Paulo continuava discutindo o papel da lei. Ele
destaca sobre as frustrações da presente experiência cristã, mostrando
simplesmente como, tanto para os cristãos quanto para os judeus, a boa lei de
Deus provoca, expõe e condena o pecado, sem ser maculada por ele e sem trazer o
livramento dele.
* 7.14 a lei é espiritual. Temos aqui
uma outra descrição sobre a lei, em adição ao que se lê no v. 12. Longe de
repudiar a lei (3.31), Paulo declara que ela estabelece o padrão ao qual a vida
governada pelo Espírito deveria conformar-se. Fazendo contraste com a lei, ele
se chama de "carnal", visto que não podia atingir a plenitude desse
padrão. Na posição de ruína moral, atualmente sob reconstrução, ele exibia as
marcas daquilo que ele era em resultado da influência de Adão, bem como em
resultado da influência de Cristo.
vendido à escravidão do pecado. Apesar de
não sumariar toda a verdade a seu respeito (v. 25), Paulo reconhece que, do
ponto de vista da santa lei de Deus, essa é a verdade acerca de sua existência
física e de seu comportamento (apesar de que era um crente), e passa a explicar
a questão.
* 7.15 nem mesmo compreendo. Paulo é
capaz de analisar, mas não de explicar, o contraste que havia entre si mesmo e
o "pecado que habita em mim" (vs. 17, 20). Havia um tremendo e real
conflito entre as forças do pecado e da graça divina em sua vida. Todavia, ele
dá a entender que o pecado que nele habitava era apenas um ocupante temporário.
Apesar de que o pecado ainda acompanha sua nova identidade em Cristo, nesta
vida, a nova identidade resultará no triunfo final sobre o pecado que nele
habita (6.2-14).
* 7.24 Quem me
livrará. Esse não é um grito de desespero, porquanto Paulo sabe a resposta
e a fornece no versículo seguinte.
corpo desta morte. Ou seja, o
corpo físico, visto como o meio pelo qual o pecado se expressava. O desejo a
que Paulo aludiu aqui não era pela morte como tal, mas pelo livramento que,
finalmente, se consumará na ressurreição (8.23; Fp 3.20; 2Co 5.2-4).
* 7.25 eu, de mim mesmo. Devemos entender
por essa frase "eu, uma e a mesma pessoa". Paulo aprovava totalmente
a boa lei de Deus, e, no entanto, "na carne" ele ainda servia ao
pecado. A nova vida no Espírito é experimentada por indivíduos, na mente, no
corpo e no espírito que continuam a estampar os sinais do pecado.
com a mente... do pecado. Paulo
sintetiza aqui o estado de frustração que ele vinha descrevendo desde o v. 14.
* 8.1-39 Encontramos
aqui uma vasta rapsódica expansão da análise da certeza e da esperança cristãs
contidas em 5.1-11. Paulo almeja a glória da salvação dos crentes romanos, e
não a memória depressiva que tinha acabado de destacar, acerca de sua contínua
pecaminosidade, para que a glória enchesse as mentes de seus leitores, e
trouxesse alegria aos seus corações.
* 8.1 Agora, pois. O
interesse do apóstolo, aqui, é pastoral. Paulo está dizendo a seus leitores, à
luz do lembrete passado de sua contínua pecaminosidade, que eles agora deveriam
relembrar a aceitação, a imunidade e a segurança de que eles gozavam em Cristo.
nenhuma condenação.
Provavelmente em ambos os sentidos — o julgamento e a punição.
* 8.2 a lei do Espírito da vida...
lei do pecado e da morte. A lei do Espírito aponta para o seu poder operante
(7.23). A lei do pecado é o poder operante do pecado, ou então a lei divina
usada pelo pecado para produzir a morte (7.8-13).
* 8.3 o que fora impossível à lei. Paulo não
está criticando a lei moral, mas observa uma vez mais que, por causa da
pecaminosidade da humanidade, a lei não pode dar a salvação ao ser humano.
o seu próprio Filho. Essas
palavras nos fazem lembrar de Gn 22.2, quando Isaque foi amarrado; e também
apontam para o tremendo custo da nossa redenção (v. 32).
em semelhança de carne pecaminosa. A palavra
"semelhança" significa a similaridade com um protótipo; a "carne
pecaminosa" é a natureza humana, a qual, através da queda, veio a ser
corrompida e controlada pelo pecado. A humanidade de Cristo era semelhante à
nossa, porquanto ele podia ser tentado, e viveu sua vida como uma parte de um
mundo decaído, pleno de fragilidades e exposto a vastas pressões. Mas nem por
isso ele pecou, e não havia qualquer corrupção moral e espiritual nele. Se
Jesus tivesse sido corrompido pelo pecado, em qualquer sentido, ele não poderia
ter cumprido o padrão do Antigo Testamento, que requeria que toda oferta pelo
pecado fosse "sem defeito" (Lv 4.3).
condenou Deus, na carne, o pecado. Parece que
o que Paulo quis dizer aqui é que na crucificação do Filho de Deus encarnado, o
pecado foi julgado e condenado, pelo que agora todas as reivindicações do
pecado, que visam a nossa condenação, tornam-se inválidas. Não há qualquer condenação
restante para aqueles que estão em Cristo. Ver "Liberdade Cristã", em
Gl 5.7.
* 8.4-8 O contraste feito por Paulo entre o antigo e
o novo padrão de vida, entre a vida na carne e a vida no Espírito (7.6), é
agora resolvido detalhadamente nos termos de duas atitudes mentais fixas: uma
delas sob a influência da "carne"; e a outra sob a influência de
Cristo, por meio do Espírito que veio habitar nos crentes.
* 8.7 inimizade contra Deus. Pura
hostilidade contra Deus, incapaz de outra atitude qualquer, é a real atitude
mental de todos aqueles que ainda não foram renovados pelo Espírito (3.9-18). A
pessoa natural considera Deus um inimigo.
* 8.9-11 Os cristãos não estão em Adão,
dominados pela "carne", mas estão sob o governo de Cristo, porque o
Espírito que veio habitar nele é o Espírito de Cristo (ver "O Espírito
Santo", em Jo 15.2). Embora o corpo físico continue sujeito à morte, a
vida prevalece neles, porque aqueles que estão unidos com Cristo vivem para
Deus na esfera do Espírito. A dualidade que está aqui em foco não é uma mera
distinção entre os lados físico e espiritual na vida de um crente, mas entre
duas esferas de existência — a vida física em um mundo caído, com sua sempre
presente morte física, e vida no Espírito, a participação na ressurreição de
Cristo (1.4).
* 8.10 o espírito é vida. Esta frase
porém pode referir-se ao espírito renovado do crente, mas provavelmente,
refere-se ao Espírito Santo. A própria passagem enfatiza o Espírito Santo, a
sua obra e a sua íntima associação com Cristo. O "Espírito de Deus",
que habita em nós, é chamado de "Espírito de Cristo" (v. 9), e a sua
habitação permanente em nós é o meio mediante o qual Cristo está "em
vós" (v. 10). Paulo via esse relacionamento como algo tão íntimo que ele
pôde dizer "o Senhor é o Espírito" (2Co 3.17; cf. 1Co 15.45). Essas
passagens não eliminam a distinção entre Cristo e o Espírito como Pessoas
separadas da trindade divina. Antes,
Paulo estava ensinando que Cristo e o Espírito Santo trabalham juntos na
aplicação da vida ressurrecta de Cristo ao crente. A presença do Espírito em
nós, nesta vida, é a garantia da futura ressurreição do corpo do crente (v.
11).
* 8.11 Um relato trinitariano da realização da
salvação, pressupondo a unidade entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, em seu
ser essencial, da mesma maneira que eles estão unidos na complexa obra da
redenção.
* 8.12 Deste ponto em diante, até o fim do
presente capítulo, Paulo está generalizando sobre si mesmo, e todos os crentes
juntamente com ele.
* 8.13 mortificardes os feitos do corpo. Ver
"Santificação: O Espírito e a Carne", em 1Co 6.11. O corpo não é mau
por si mesmo. O pecado origina-se no coração, o centro espiritual de nosso ser,
e que inclui a vontade (Mc 7.18-23). Mas visto que vivemos em corpos físicos, o
pecado acha expressão através do corpo. Portanto, não somente nos pontos
internos de sua origem, mas também em suas expressões físicas, o pecado deve
ser morto, ou seja, deve-se pôr um ponto final ao mesmo (6.12,13; 12.1).
* 8.14 Esse caminho da santidade é agora mais
completamente descrito como a orientação pelo Espírito, sendo especificada como
uma das marcas dos filhos de Deus. A palavra "guiados" nos faz
lembrar a "adoção" e a orientação no êxodo e no deserto, que pode ter
sido o pano de fundo do pensamento de Paulo aqui (9.4; Dt 8.2,15; 29.5). Ver
"Adoção", em Gl 4.5.
* 8.15 o espírito de adoção. Em adição
à justificação e a liberdade da condenação (v. 1), os crentes são acolhidos na
família de Deus e são internamente persuadidos pelo Espírito de que eles fazem
parte dessa família. O clamor do crente, "Abba, Pai" (a palavra
aramaica Abba, foi usada pelo próprio Jesus para referir-se a Deus Pai,
em Mc 14.36), indica quão vividamente a união com Cristo é uma realidade, na
experiência da Igreja do Novo Testamento. Esse clamor é uma expressão de
consciência assegurada de filiação. A idéia de adoção não aparece no sistema
legal do Antigo Testamento, e Paulo parece ter tomado por empréstimo esse
conceito próprio da lei romana, preenchendo-o com a teologia bíblica da
paternidade de Deus sobre o seu povo.
* 8.16 testifica. O
testemunho conjunto de nosso próprio espírito com o Espírito Santo vem à tona
no clamor "Abba, Pai" (Gl 4.6).
* 8.17-21 Tal como todos os filhos, em uma
família humana, são herdeiros do pai juntamente com o irmão mais velho, assim
também os crentes são herdeiros de Deus em Cristo e juntamente com ele. Mas
receber a herança que nos é dada em Cristo envolve a participação em seus
sofrimentos, a vereda mediante a qual compartilharemos de sua glória (2Co
4.17). As palavras "glorificados", "glória", nos vs. 17-21
(cf. v. 30) significa a transformação, enobrecimento e o regozijo trazidos pela
manifestação de Deus em cada crente. A glória a ser revelada (v.18) aparecerá
quando os filhos de Deus são revelados em sua nova natureza (v.19), e a criação
é libertada de seu presente estado de imperfeição e declínio (v. 20,21). A
revelação dessa glória fará mais do que extinguir o dano e a perda (“Vaidade”,
v.20) que a ordem criada sofreu em resultado da queda de Adão (Gn 3.17). A
regeneração de todas as coisas (Mt 19.28; At 3.21 e Ap 21.1), na ordem criada,
corresponde à liberdade na glória (vs.17, 18), a ser desfrutada pelos filhos de
Deus.
* 8.22-25 A atual condição da criação não é sua
condição final; é antes como uma mãe que geme com as dores do parto. A criação
inteira tem um destino planejado por Deus, e deseja ardentemente que seja
cumprido, tal como sucede aos próprios crentes (vs. 23, 26). Nossa salvação
apenas começou — temos o Espírito Santo como se fora uma primeira prestação —
mas só chegará à consumação quando formos ressuscitados (a plena realização da
adoção que temos em Cristo, v. 23). Inevitavelmente, pois, a vida cristã envolve
uma paciente espera, vivida na esperança.
* 8.24 na esperança, fomos salvos. Ver
"Esperança" em Hb 6.18. O trabalho de parto (a dor e a tristeza, por
causa de como as coisas são, 7.24,25; 8.18,36) é permeado com a expectação, e
não com o desapontamento e a frustração (5.5), e também com a paciência (v. 25)
e com o anelo (v. 23).
* 8.26 O Espírito... nos assiste. Ver
"Oração", em Lc 11.2. O Espírito Santo nos fortalece em nosso estado
de fraqueza, do que somos constantemente cônscios. A perplexidade quanto a orar
por si mesmo é uma experiência universal dos crentes. Nosso anelo
não-articulado de orarmos devidamente serve de indicação de que o Espírito, que
em nós veio habitar, já nos está ajudando, ao interceder por nós em nossos
corações, fazendo pedidos que o Pai certamente responderá.
* 8.28 Sabemos. O crente calcula o presente
à luz de sua certeza quanto ao futuro. Como verdadeiros israelitas, em quem se
cumpre o primeiro e grande mandamento (Mt 22.37,38), nosso amor a Deus é
evocado pelo conhecimento que temos de que ele nos ama (5.5-8).
chamados. Conduzidos
à fé (v. 30. cf. 1.6).
segundo o seu propósito. O
propósito de Deus garante o "bem" para o seu povo. Para eles, isso
não é, necessariamente, algo fácil e tranquilo, mas é ser como Cristo (vs.
17-23,29). A providência de Deus controla as coisas de tal modo que assegura
que tudo quanto acontece conosco está funcionando para o nosso bem final.
* 8.29 conheceu... predestinou. Ver
"O Propósito de Deus: Predestinação e Pré-Conhecimento", em Ml 1.2.
Os vs. 29 e 30 explicam o "propósito" de Deus (v. 28). Trata-se de um
plano da graça salvífica soberana, capacitando a todos aqueles que agora crêem
que retrocedem a sua fé e salvação à eterna decisão de Deus de conduzir seus
filhos à glória, e olharem para essa glória como uma certeza garantida. O
destino determinado para os crentes (conformidade com Cristo e glorificação
juntamente com ele) flui do conhecimento prévio de Deus. Aqui, é dito que Deus
conheceu de antemão a pessoas, e não a fatos ou acontecimentos. É verdade que
Deus conhece de antemão os eventos, mas o ponto frisado por Paulo foi que Deus
tem, por sua própria iniciativa, escolhido os objetos de seu amor salvífico.
"Conhecer" subentende uma relação pessoal íntima, e não meramente a
consciência de fatos e circunstâncias (Gn 4.1; Am 3.2; Mt 1.25). Isto é
virtualmente o equivalente da "eleição".
* 8.30 Aqueles que foram predestinados são, no
devido tempo, "chamados" ou convocados eficazmente através do
evangelho para a comunhão da salvação com Cristo (1.6; cf. 1Co 1.9). Observamos
que todos aqueles que foram "chamados" também foram
"justificados". Essa chamada não pode referir-se ao chamamento
externo do evangelho, ao qual muitos rejeitam. Trata-se antes de um chamamento
interior, que realiza aquilo que Deus tenciona fazer. Todos os predestinados
são chamados dessa maneira. A predestinação inclui a determinação divina de que
a pessoa receberá esse chamamento eficaz, e isso não está alicerçado no
conhecimento que Deus tem de como as pessoas reagirão diante do evangelho. Tal
como os predestinados são chamados, assim os chamados são tanto justificados
quanto podem ter a certeza de que, finalmente, serão glorificados. O tempo
verbal passado do verbo "glorificar" (glorificou) indica, do ponto de
vista de Deus, essa obra como que já foi realizada. Deus completará seu plano,
conforme foi planejado. Ver a nota teológica "Perseverança dos
Santos", índice.
* 8.31-39 Paulo leva agora o argumento inteiro
de 1.16—8.39 à conclusão triunfal por meio de uma série de desafios a toda
influência que poderia distorcer a confiante certeza da Igreja, na atual
preservação e na glória futura. A passagem nos faz lembrar o terceiro Cântico
do Servo, em Is 50.4-9, do qual essa passagem depende.
* 8.31 Que diremos, pois, à vista destas cousas. Os vs.
28-30 podem estar primariamente em foco aqui, mas não deveriam ser separados de
1.16—8.27, e, especialmente, de 8.1-27. "Estas cousas" é uma frase
que abarca a inteira exibição da graça divina gratuita, estendida a pecadores perdidos,
nesta epístola, até este ponto.
quem será contra nós? Certamente
alguém se oporá a nós, mas Paulo salienta que a essa oposição faltará a
capacidade de destruir a fé. Visto que "Deus é por nós", é-nos
assegurada a sobrevivência espiritual vitoriosa. As palavras "por
nós" exprimem o eterno compromisso assumido pelo grande amor que é
expresso nos vs. 38, 39.
* 8.32 Aquele que não poupou o seu próprio Filho. As
palavras de Paulo são uma eficaz reverberação do que se lê na Septuaginta
(tradução do Antigo Testamento para o grego), em Gn 22.12.
por todos nós o entregou. Essa frase
é usada em outros lugares para indicar uma participação ativa na condenação
judicial de Cristo (Mt 20.19; 26.15,16; 27.2,18,26; cf. Is 53.6,10).
por todos nós. Incluindo
o pior dentre nós, os que cremos (3.9-18; 5.6-8). Uma vez mais, tal como em
5.9,10, Paulo raciocina do maior para o menor: o fato que Deus nos deu o seu
Filho, para que morresse por nós, foi o dom supremo, garantindo o dom
subsequente de tudo o mais de que precisamos quanto à nossa glória plena e
final (v. 30).
* 8.33 É Deus quem os justifica. O Juiz já
cuidou de todas as acusações que poderiam ser feitas contra nós, mediante a
morte e a ressurreição de Cristo (4.25). A autojustificação é fútil.
* 8.34 o qual está à direita de Deus. Essa é a
posição de honra e de autoridade executiva (cf. Sl 110.1). Não pode haver
qualquer condenação contra nós (em qualquer sentido do termo, v. 1, nota), se
aquele que levou sobre si o pecado, que está entronizado no céu, interceder por
nós (1Jo 2.1), ao mesmo tempo em que o Espírito Santo intercede em nossos
corações (v. 27).
* 8.35 Quem nos separará do amor de Cristo. A
facilidade com que Paulo usou essa frase reciprocamente com "o amor de
Deus... em Cristo" (v. 39), testifica sobre sua suposição subjacente da
identidade de essência entre o Pai e o Filho.
* 8.36 O apelo de Paulo às Escrituras do Antigo
Testamento, indica que o sofrimento não é uma novidade inesperada para o povo
de Deus. Em Cristo, porém, tais sofrimentos tornam-se degraus na senda para a
glória (5.1-5; 8.17-23).
* 8.37 somos mais que vencedores. A força
demonstrada para tolerarmos a hostilidade da perseguição e a dor das
circunstâncias é, realmente, admirável.
* 8.38,39 Nenhum
aspecto da ordem criada, e nem qualquer evento ou ser dentro dessa ordem pode
pôr fim a nosso aprazimento do amor ativo de Deus por nós, em Cristo.
* 9.1-5 O próprio Paulo agora explica a rejeição da
maioria de seus compatriotas judeus ao evangelho.
* 9.1 testemunhando... a minha
própria consciência. Em parte alguma as Escrituras definem a
"consciência". Aqui, como em 2.15 e 13.5, Paulo pensa claramente
sobre a consciência como um autoconhecimento moral, comunicado pela revelação
divina. Paulo estava fazendo um juramento legal, acerca de sua sinceridade.
* 9.3 eu mesmo desejaria ser
anátema. Embora Paulo seja o apóstolo dos gentios, ele reverbera os
sentimentos de Moisés em face da incredulidade dos judeus (Êx 32.30-32). Eles
são seus próprios compatriotas, e Paulo agoniza por eles (v. 2). Estar disposto
a sofrer a maldição divina, por eles, é uma fortíssima declaração de amor.
* 9.4 Pertence-lhes a adoção. A
incredulidade de Israel é destacada pelas inúmeras bênçãos por eles
experimentada. Nesses oito privilégios que Paulo alistou nos vs. 4 e 5, ele
confirma sua anterior declaração em 3.1,2.
* 9.5 Cristo... Deus bendito para
todo o sempre. O texto corretamente traduz as palavras de Paulo como
atribuição direta da deidade a Cristo. Ver "Jesus Cristo, Deus e Homem",
em Jo 1.26.
* 9.6 a palavra de Deus. A
promessa e o plano de Deus de que seria o Deus da descendência de Abraão (Gn
17.7,8), estão aqui em foco. Na era do Antigo Testamento, a descendência
natural não garantia automaticamente a herança da promessa. Deus escolhera quem
a herdaria. Esse princípio é evidente nas famílias de Abraão e de Isaque.
* 9.11 os gêmeos. O caso de
Jacó e Esaú confirma o argumento de três maneiras: (a) Por serem gêmeos e por
terem natrurezas tão semelhantes quanto seria possível; (b) porque o propósito
de Deus reverteu até a minúscula distinção que existia, levando o irmão mais
velho a servir ao mais jovem; (c) porque o propósito de Deus foi declarado
antes dos gêmeos terem nascido (e, portanto, não dependia de seus atos). A eleição
não se alicerça sobre atos previstos, obras ou fé. Pelo contrário, ela se
alicerça sobre a graça predestinadora e soberana de Deus.
* 9.13 Amei Jacó, porém me aborreci de Esaú. Esse
propósito distintivo de Deus na eleição (v. 11) foi também confirmado pelas
palavras de Ml 1.2,3, que explica que o amor de Deus por Israel está arraigado
em Sua livre escolha de Jacó, e não de Esaú. "Aborreci de", neste
caso, não pode ser reduzido a "amou menos", conforme o contexto de Ml
1.3,4 deixa claro. Antes, deve transmitir o sentido de rejeição e antipatia.
* 9.14 Que diremos, pois. Cf. 8.31.
Paulo reconhece que a sua declaração prévia não podia ficar sem outro
comentário. Poderia o propósito soberano e distinguidor de Deus colocar em jogo
o seu atributo de retidão perfeita? A idéia é claramente inconcebível —
"De modo nenhum" (6.2,15; 7.7). Paulo explica por quê, ao citar dois
textos bíblicos (Êx 33.19; 9.16) nos vs. 15 e 17, de onde ele conclui que Deus
é justo ao demonstrar misericórdia para com alguns, ao mesmo tempo em que
endurece o coração de outros. Quando Deus usa de misericórdia, isso não aponta
para uma pessoa que recebe um galardão adquirido pelos seus próprios esforços,
mas é a graça livre e soberana que ele oferece a pessoas moralmente incapazes
de qualquer esforço aceitável (1.18—3.20). Deus não deve misericórdia a
ninguém, pelo que não há qualquer injustiça quando a misericórdia não é
demonstrada. A misericórdia é uma prerrogativa divina; repousa sobre o
beneplácito de Deus. Quando Deus "endureceu" o coração de Faraó (v.
18), ele não criou nenhum mal, mas entregou Faraó aos seus maus desejos já
existentes, como um ato de julgamento, o que, eventualmente, resultou na manifestação
divina de "poder" (v. 22), na destruição do exército de Faraó (Êx
14.17,18,23-28).
* 9.17 a Escritura diz a Faraó. Foi Deus
quem assim falou a Faraó, pela boca de Moisés (Êx 9.16); mas para o apóstolo
Paulo, as palavras das Escrituras e a voz e a autoridade de Deus são uma só
coisa.
* 9.18 de quem quer. Ver a nota
teológica "Eleição e Reprovação", índice.
* 9.19 De que se queixa ele ainda. Com que
direito Deus pode fazer cair a culpa dos pecados sobre aqueles a quem ele
endureceu contra si mesmo? Paulo responde parcialmente em termos da experiência
humana (vs. 20,21). É insensato e irreverente alguém questionar a retidão dos
caminhos de Deus. Os oleiros têm o direito de fazer o que bem entenderem do
barro (Is 64.8). Todos os seres humanos pertencem à "mesma
descendência" (cf. vs. 10-13) da humanidade caída em Adão (5.12-14); todos
pecam ativamente antes mesmo de Deus endurecê-los no pecado (1.18-28). Que Deus
demonstre misericórdia para qualquer um da descendência adâmica, a fim de criar
vasos de honra, é a benevolência da graça divina; que outros se tornem vasos
menos úteis é uma questão de sua prerrogativa divina, sendo, por si mesma, uma
questão de perfeita justiça para com eles.
* 9.23 que para glória preparou de antemão. Ver
"O Propósito de Deus: Predestinação e Pré-Conhecimento", em Ml 1.2.
Paulo não elabora sobre a preparação em vista. A adição das palavras "de
antemão", em conexão com os vasos de misericórdia, pode estar apontando
para a misericórdia que se originou no beneplácito de Deus desde a eternidade
(8.29,30), ao passo que a ira em vista é uma reação direta à impiedade e à
injustiça já existentes (cf. 1.18-32). A distinção entre os eleitos e os
réprobos não jaz em qualquer coisa neles existente (todos são merecedores da
ira divina), mas exclusivamente, depende da vontade de Deus. Dentro desse
contexto, entretanto, os que são destinados para a destruição experimentam a
ira que é a única retribuição justa e possível contra o pecado.
* 9.30 Que diremos, pois. Ver o v.
14. Tendo explicado a incredulidade dos judeus em termos da soberania divina,
Paulo agora diagnostica essa incredulidade como devida a um anterior e fatal
comprometimento com um falso caminho de retidão. A soberania divina e a culpa
da voluntariedade humana eram, para Paulo, dois aspectos da realidade. Mediante
a graça e a soberania de Deus, os gentios, que não buscavam a retidão de Deus,
agora a tinham recebido, mediante a fé em Cristo, mas Israel, como um povo,
tinha deixado de recebê-la, porquanto buscavam a retidão de Deus por meios
legais, onde ela não poderia jamais ser encontrada. Cristo tinha sido para os
judeus como uma pedra de tropeço (a imagem foi extraída de Is 8.14; 28.16),
sobre a qual eles tinham caído (vs. 32,33; 1Pe 2.8).
* 9.31 lei de justiça. Mui
provavelmente, Paulo tem em mira, uma vez mais, a lei mosaica. O engano no qual
os judeus incorriam jazia não no que eles buscavam, mas na maneira como o
buscavam ("não decorreu da fé, e, sim, como que das obras", v. 32 e
referência lateral).
* 10.1 Irmãos. Um apelo feito de todo o
coração, à simpatia de seus irmãos cristãos, cuja emotividade jaz em sua
recente referência a seus parentes na carne (9.3, referência lateral).
para que sejam salvos. A
preocupação de Paulo, no capítulo 9, era com a salvação dos judeus, e não
meramente com o papel deles na história da redenção.
* 10.2 têm zelo por Deus. Paulo fala
aqui com base em sua experiência pessoal, tanto quanto à realidade do zelo
quanto a seu caráter mental e do coração errados (Fp 3.4-6).
* 10.3 desconhecendo a justiça de Deus. Paulo
contrasta a retidão divinamente estabelecida com os esforços do indivíduo para
estabelecer a sua própria justiça. Ver "Fé e Obras", em Tg 2.24.
procurando estabelecer. Linguagem
própria da aliança (Gn 6.18; 17.7). Mesmo dentro do contexto da aliança que
Deus estabelecera com eles, eles perverteram a graça divina, ao verem essa
aliança como que dependente da própria obediência deles à lei.
* 10.4 o fim da lei é Cristo. A
interpretação aqui seguida é que Cristo é o alvo e o propósito da lei (Gl
3.24). Uma outra interpretação é aquela que diz que, para os crentes, Cristo
tornou a lei obsoleta, porquanto eles não mais se esforçam por estabelecer a
sua própria retidão por meio da lei.
* 10.5 a justiça decorrente da lei. A citação
que Paulo faz de Lv 18.5 é posta originalmente no contexto da graça redentora
de Deus que requer a obediência a ela por parte do indivíduo (Lv 18.2; cf. Êx
20.1-17); não temos aqui uma declaração sobre a retidão como estabelecida pelo
próprio indivíduo.
* 10.6-8 O
livro de Deuteronômio exibe a salvação não como obtida pelo esforço ativo da
humanidade, mas pela graça divina, que atrai os homens a Deus. Em particular,
Dt 30 coloca isso no contexto de um retorno antecipado do juízo do exílio (Dt 30.1-6).
Paulo vê isso cumprido no novo pacto firmado em Cristo (Jr 31.31-34; cf. 2Co
3.7-18). Dessa forma, Cristo é o fim (o alvo) da lei mosaica. Tentar uma
retidão estabelecida pelos esforços do indivíduo é o equivalente a tentar
aquilo que somente Deus poderia fazer e fez, na encarnação e ressurreição de
Cristo. Fazendo contraste com todos os esforços humanos, Deus trouxe para perto
a palavra da salvação, e, com ela, a própria salvação. Ver "A Palavra de
Deus: Escrituras como Revelação", em Êx 32.16.
* 10.9,10 confessares... creres... se crê...
se confessa. No paralelismo do v. 10, Paulo reverte a ordem dos verbos,
conforme eles aparecem no v. 9, e, dessa forma, indica que a crença de todo o
coração e a confissão com a boca pertencem ambos à justificação
("retidão") e à salvação.
* 10.12 não há distinção. Isso é
confirmado não somente pela unidade e bondade universal de Deus (v. 12), mas
especificamente, uma vez mais, pelo ensino do Antigo Testamento, em Joel 2.32,
a declaração profética cumprida com tanta dramaticidade no dia de Pentecoste
(At 2.21).
* 10.14,15 Uma análise do que está envolvido
quando alguém invoca o nome do Senhor, a fim de ser salvo.
* 10.14 aquele em quem não creram.
Literalmente, "em quem", uma indicação de que para Paulo, o próprio
Cristo é o único verdadeiro pregador do evangelho (cf. Ef 2.17; Jo 10.16). O
ministério de pregar a Cristo, por conseguinte, reveste-se de grande honra, o
que explica sua citação de Is 52.7 (2Co 5.18-20).
* 10.18 Por toda a terra se fez ouvir a sua voz. O contexto
imediato da citação de Sl 19.4 é a da revelação geral de Deus (Sl 19.1-3).
Paulo se utiliza disso para provar, por meio das Escrituras, que Israel tinha
ouvido a mensagem de Deus, e isso subentende que sua citação dessa seção do
salmo envolve o ensino do salmo todo, que fala tanto de uma revelação geral, na
natureza, como de uma revelação especial, em sua Palavra. Esta última revelação
tem lugar no contexto da primeira. A lógica subjacente pode ser: Se aqueles
que, sem qualquer revelação especial "ouviram" a mensagem da glória
divina na criação, quanto mais a ouviram aqueles que receberam a revelação
especial.
* 10.19-21 A falha dos judeus não pode ser
justificada à base de que eles não ouviram a mensagem, ou à base de que não a
puderam compreender. Moisés e Isaías contrastaram o próprio povo de Deus com
aqueles a quem falta entendimento (Dt 32.21), e também com aqueles que não
estavam buscando a Deus, mas que foram trazidos a conhecê-lo (Is 65.1).
* 11.1-10 Mui objetivamente, Paulo pergunta se
Deus tinha rejeitado o seu povo. O próprio apóstolo serve de evidência de que
Deus não rejeitara seu povo de maneira completa e final, pois neles depositara
o seu amor. Assim como um remanescente crente podia ser encontrado em Israel,
nos dias de Elias, assim também continua a haver um remanescente formado pela
graça de Deus. Pela graça, os eleitos obtiveram a salvação que buscavam. E os
demais judeus foram endurecidos.
* 11.1 terá Deus... rejeitado o seu povo? O verbo
"rejeitar" transmite o senso de empurrar para longe de si mesmo. A
forma da pergunta, em grego, antecipa uma resposta negativa.
eu também sou israelita. Ver Fp
3.5,6. A linhagem impecável de Paulo é retroagida até Abraão, o grande
patriarca, mas também a Benjamim, o único filho de Jacó que nasceu em Israel. A
tribo de Benjamim era a tribo em cujo território se achava Jerusalém, e também
era a tribo de Saul, o primeiro rei do reino unido de Israel.
* 11.2 a quem de antemão conheceu. Paulo
deixa entendido que o amor e a escolha especial e graciosa deles, torna
inconcebível que Deus os tenha finalmente rejeitado como um povo, embora eles o
tivessem ainda recentemente rejeitado, quando rejeitaram o Cristo.
* 11.5 remanescente segundo a eleição da graça. Nos tempos
de Elias houve uma apostasia geral do povo de Israel, e, no entanto, a presença
de um remanescente de fiéis indicava que Deus não havia plena e finalmente
rejeitado o seu povo. Os pensamentos de Paulo acerca do remanescente estão
arraigados sobre o ensino de Isaías, pois o nome de seu filho, Sear-Jasube,
significa "um-resto-volverá" (Is 7.3 e referência lateral: cf. 9.27;
Is 1.9; 6.13; 10.20-22; 11.11-16).
* 11.6 E se é pela graça, já não é pelas obras. Uma vez
mais, o caminho da graça divina é contrastado com as obras da lei (3.20,27,28;
4.2,6; 9.12,32).
* 11.8-10 As passagens citadas (Dt 29.4; Is
29.10 e Sl 69.22,23) descrevem um padrão bíblico de atividade divina no
endurecimento judicial dos corações — padrão esse que Paulo vê repetido em seus
próprios dias.
* 11.11-24 A rejeição do povo judeu nem é total e
nem é final. Tal como a rejeição de Cristo, entre os judeus, levou à aceitação
do evangelho entre os gentios, assim Deus também pretende usar os gentios para
provocar os judeus a invejarem as bênçãos dos gentios, levando-os à salvação e
a riquezas correspondentemente maiores.
* 11.11 tropeçaram para que caíssem. Uma vez
mais, a forma da pergunta de Paulo antecipa (e recebe) uma resposta negativa. A
rejeição de Cristo, por parte dos judeus, não é irreversível. Paulo via um
padrão e um propósito divinos por detrás da incredulidade da qual os judeus se
fizeram culpados. O padrão de seu pensamento, no v. 11, portanto, é como segue:
(a) A transgressão dos judeus levou à justificação dos gentios; (b) a salvação
dos gentios levará os judeus a invejá-los; (c) a inveja dos judeus os atrairá à
mesma salvação que têm os gentios.
* 11.12 sua plenitude. No
contexto do argumento paulino, "plenitude" pode significar somente o
recebimento deles de Cristo e sua restauração a Deus. A questão mais difícil é
se o termo "plenitude" aponta para uma plena restauração do
remanescente ou para a restauração do número completo da nação, em algum
sentido. O segundo sentido parece adaptar-se melhor à direção geral da passagem
(vs. 25-32).
* 11.13 Dirijo-me a vós outros que sois gentios. A razão
pela qual Paulo destaca os gentios na igreja de Roma torna-se claro nos vs.
17-24.
eu sou apóstolo dos gentios. Paulo nos
provê aqui um discernimento ímpar em seu pensamento sobre o seu próprio
ministério entre os gentios. Esse ministério também tinha o seu próprio povo
judeu em vista, em termos de 9.19 e 11.11 (At 9.15; Ef 3.1 e Gl 2.8).
* 11.15 senão vida dentre os mortos. Esta frase
pode simplesmente denotar bênção sem precedentes. Embora o fraseado seja
levemente diferente do uso normal de Paulo ("ressurreição dos
mortos", 1.4; cf. 1Co 15.12,13,21,42), alguns estudiosos tomam essa frase
como uma referência à ressurreição geral do último dia, compreendendo a
conversão dos judeus como um evento do fim dos tempos, um precursor imediato da
ressurreição final.
* 11.16 igualmente o será a sua totalidade. Paulo
aplica aqui espiritualmente o princípio de que as primícias servem de garantia
da colheita final (cf. Nm 15.17-21).
* 11.17 oliveira brava, foste enxertado em meio
deles. Ver Jr 11.16; Os 14.6 quanto a Israel como uma oliveira.
Ramos de oliveira brava parecem ter sido enxertados em oliveiras cultivadas,
dando-lhes uma nova vitalidade. As palavras de Paulo, entretanto,
intencionalmente ultrapassam os limites da horticultura estrita. Os gentios
foram enxertados no povo de Deus, de uma maneira "contrária à
natureza" (v. 24).
* 11.18 não te glories. Visto que
a salvação dos gentios deve-se inteiramente à graça divina, eles não tinham
causa alguma de jactância, desprezando os crentes judeus. Essa arrogância
gentílica, em relação aos judeus, simplesmente refletiria o mesmo orgulho
espiritual que provocara o endurecimento de coração dos judeus (2.17).
* 11.20 Se a observação feita a Paulo, no v. 19,
expressa uma verdade formal, a quebra dos ramos judaicos foi um ato de
julgamento justo contra a incredulidade, e o enxerto dos gentios é uma questão
de graça, e, por conseguinte, de fé. O enxerto dos gentios (v. 19), por
conseguinte, não está alicerçado sobre qualquer qualidade superior dos gentios.
teme. Um
respeito de espírito terno, e não a arrogância, é a reação apropriada diante da
graça de Deus.
* 11.22 Considerai, pois, a bondade e a severidade de
Deus. Ver "O Propósito de Deus: Predestinação e Pré-Conhecimento",
em Ml 1.2. Os crentes gentílicos são exortados a levar a sério a revelação do
caráter de Deus nesses eventos da providência divina. A bondade de Deus só
produz fruto quando o seu povo continua nessa bondade (2.4).
* 11.23,24 O fato de Israel ter sido cortado tem
por motivo a sua incredulidade, e não porque os gentios estivessem
inerentemente melhor qualificados para a vida na oliveira. Ademais, os crentes
gentios nunca deveriam esquecer-se de que o evangelho veio primeiramente aos
judeus (1.16,17).
* 11.25-32 O raciocínio de Paulo, neste passo, tem
sido compreendido de três maneiras principais: (a) ele está mostrando como Deus
salva todo o seu povo eleito ("todo o Israel", no v. 26, deve ser
tomado como basicamente sinônimo de Igreja, ou seja, o Israel espiritual); (b)
ele está mostrando como Deus salva a todos os eleitos de Israel, que deverão
ser salvos; (c) ele está mostrando como Deus trará, no futuro, a salvação ao
povo judeu, tão amplamente divulgada que, num sentido geral óbvio, pode-se dizer
que “todo o Israel será salvo” (v.26). Não obstante às dificuldades, alguma
forma deste último ponto-de-vista parece ser o mais provável, e isso pelas
seguintes razões. Em primeiro lugar, indícios disso parecem ter aparecido já
nos vs. 11, 12, 15, 16 e 24. Em segundo lugar, o v. 25 sugere que o fim do
endurecimento parcial de Israel está em vista. Terceiro, "Israel", no
v. 26, não é naturalmente interpretado como se fosse uma entidade diferente do
Israel em mira nos vs. 1-24 e nos vs. 28-31, onde está em foco o Israel
nacional (e não o Israel espiritual). Em quarto lugar, "mistério", no
v. 25, pareceria impróprio e exagerado se o ensino de Paulo fosse simplesmente
que todos os judeus eleitos seriam salvos. Finalmente, esse ponto de vista
concorda bem com as citações nos vs. 26 e 27, de Is 59.20,21; 27.9; Jr
31.33,34, que parecem falar de um banimento compreensivo daquele pecado que tem
sido a causa da alienação entre Israel e Deus.
* 11.25 mistério. Tanto nos escritos de Paulo
como no pensamento judaico em geral, um segredo divino é algo que somente agora
estava sendo revelado. Alguns intérpretes concluem que aquilo que se segue de
imediato constitui o mistério (provavelmente a conversão generalizada dos
judeus). Outros pensam que o mistério é o padrão da operação de Deus na
inter-relação entre os judeus e os gentios, referida no v. 11.
haja entrado. Uma
expressão usada raramente nos escritos paulinos, mas comum nos evangelhos para
descrever a entrada na vida ou no reino de Deus (p.ex., Mc 9.47).
plenitude. O termo
"plenitude", aqui usado, parece ter uma conotação numérica
específica.
* 11.26 todo o Israel. Uma
expressão crítica dentro deste ponto do argumento de Paulo, e cujo significado
tem sido muito debatido. Poderia significar "todo o Israel (espiritual)",
ou seja, todas as pessoas eleitas, tanto judeus como gentios. Alternativamente,
poderia significar "todo" Israel no sentido de "todos os judeus
destinados a serem salvos através da história". Ou então, conforme foi
sugerido acima, poderia apontar para um tempo de conversões em massa entre o
povo judeu. Ver 11.25-32, nota, pontos (a), (b) e (c). A exegese de "todo
o Israel" dependerá da interpretação e do peso de outros fatores
existentes na passagem.
Virá de Sião o Libertador. A citação
foi extraída de Sl 14.7; Is 27.9 e Is 59.20,21.
* 11.29 os dons... são irrevogáveis. Ver
"Dons e Ministérios", em Ef 4.7.
* 11.30 O argumento de Paulo se encerra de uma
maneira paralela à de 3.19-21, salientando o fato de que judeus e gentios estão
unidos quanto a duas coisas: a desobediência produzida pelo pecado, e o
oferecimento da misericórdia divina a eles. A sabedoria e a soberania da graça
de Deus são demonstradas na maneira pela qual os propósitos divinos terão
cumprimento: a desobediência dos judeus fez a misericórdia de Deus atingir os
gentios; e a misericórdia de Deus para com os gentios levará ao recebimento da
misericórdia divina por parte dos judeus. Não há qualquer diferença entre eles
— todos (judeus e gentios igualmente) cometeram pecado (3.23), e Deus tem
misericórdia de ambos (1.16).
* 11.33-36 Tendo exposto os vários pontos que
fazem parte de seu argumento, agora Paulo responde de maneira lírica, como um
cântico de louvor que atinge alturas correspondentes à profundidade que ele
tinha feito soar em 9.2,3. O trato de Deus com judeus e gentios exibe uma
interrelação de sua majestade onde sua vontade soberana ("dele"), sua
atividade soberana ("por meio dele") e sua glória soberana
("para ele") são ricamente exibidas (v. 36).
* 12.1 A doxologia, no fim do capítulo 11, e a
natureza da abertura dos versículos do capítulo 12, assinalam um novo estágio
na exposição paulina. Doravante, até a conclusão da epístola, ele está
preocupado em aplicar o seu ensino.
pelas misericórdias de Deus. O amor
pelos pobres e necessitados, e o sustento daqueles que não conseguem
sustentar-se neste mundo de pecado (cf. Lc 10.36,37). A doutrina da graça, nos
capítulos 3-11, leva a uma vida motivada pela gratidão.
apresenteis o vosso corpo por
sacrifício vivo. Judeus e gentios agora formam um único povo de Deus,
em favor de quem o sacrifício final de sangue fora feito (3.25). O sacrifício
que resta é o de uma reação agradecida (cf. 6.17). "Corpo" significa
pessoa em sua inteireza, como indivíduo que vive em seu corpo físico (6.12,13,19
e 8.13).
o vosso culto racional. A adoração
que criaturas redimidas oferecem apropriadamente.
* 12.2 não vos conformeis... transformai-vos pela
renovação da vossa mente. A atitude mental do crente deve ser determinada e
remodelada pelo conhecimento do evangelho, mediante o poder do Espírito e pelos
interesses da vida por vir (8.5-9; 13.11-14), e não pelas modas passageiras
desta época (2Co 4.18; 1Jo 2.17). Somente através dessa renovação santificadora
o crente torna-se sensível o bastante para "provar" (discernir) o
comportamento que está em consonância com a vontade de Deus em cada situação.
* 12.3 pela graça que me foi dada. O
ministério de Paulo só existia em razão da graça divina (1.5), tal como os seus
dons espirituais (no grego, xarísmata, v. 6). A percepção realista dos
próprios dons ("pense com moderação") é algo essencial e envolve o
reconhecimento da própria "medida da fé", ou seja, saber até que
extensão a fé do indivíduo é apropriada para o exercício de algum dom
particular (v. 6). A fé mediante a qual somos justificados é uma questão
distinta da fé aqui referida.
* 12.4-8 Tal como 1 Co 12, Paulo lança mão
da analogia do corpo, com suas várias partes, para ilustrar a natureza da
Igreja. Ele salienta sua unidade (v. 5), sua diversidade (v. 6) e a necessidade
de reconhecer os próprios dons e fazer uso apropriado dos mesmos (vs. 6-8).
* 12.6 tendo... diferentes dons segundo a graça
que nos foi dada. Ver "Dons e Ministérios", em Ef 4.7.
profecia.
Profetizar é falar a palavra de Deus, mas a natureza da profecia, no Novo
Testamento, em parte alguma é definida, e é muito debatida. A profecia é
reconhecida aqui e em outras passagens do ensino (v. 7; At 13.1; 1Co 12.29; Ef
4.11), talvez por causa do maior senso de urgência e de espontaneidade
vinculada a ela (At 13.1-3; 21.10,11).
seja segundo a proporção da fé. Alguns
intérpretes vêem aqui a "fé" como se fora a própria fé do profeta
(cf. vs. 3,6). Outros entendem que "fé" significa o conteúdo de
verdade do evangelho como o padrão e a medida de cada declaração profética,
testando se a declaração se conforma ao "padrão das sãs palavras"
(2Tm 1.13).
* 12.7,8 Paulo
reconhece a grande variedade e a natureza prática desses dons (no grego,
xarísmata), bem como o entrelaçamento dos dotes naturais com os dons
espirituais. Mas por toda a parte, torna-se claro que a bênção daqueles que
recebem esse ministério da profecia deve ser a consideração por excelência no
emprego dos dons espirituais.
* 12.9-21 Tal como fez em 1Co 12—13, ao
discutir sobre a Igreja como o corpo de Cristo, Paulo salienta a importância do
amor. Sua série de rápidas exortações reverbera o ensino de Jesus e é expressa
em uma linguagem vívida.
* 12.9 sem hipocrisia. Nos dramas
clássicos dos gregos, o hypokrites (ator) usava uma máscara que lhe
cobria o rosto. O comportamento amoroso dos crentes não deveria ser como quem
toma parte em um papel, usando uma máscara, mas antes, que seja uma expressão
autêntica de boa-vontade.
* 12.10 Amai-vos cordialmente... com amor fraternal. Uma combinação
linguística incomum do amor fraternal com o amor do afeto natural. A Igreja é
uma família, a "casa de Deus" (1Tm 3.15; cf. 1Tm 5.1,2).
* 12.11 Não deve haver hesitação ou
preguiça na vida cristã. O crente deveria ser "fervoroso", vivendo em
Cristo com entusiasmo e energia.
* 12.13 hospitalidade. A
hospitalidade para com os crentes visitantes era um aspecto importante da vida
cristã primitiva (Hb 13.2; 3Jo 5—8).
* 12.14 Ver Lucas 6.27,28.
* 12.15 Ver Lucas 6.31. A unidade genuína do corpo de
Cristo é evidente especialmente na simpatia entre seus membros, em momentos de
grande alegria ou de profunda tristeza.
* 12.16 A linguagem usada por Paulo dá a idéia de que
os crentes compartilhavam dos mesmos pensamentos uns com os outros, uma outra
indicação do papel estratégico da mente na santificação (vs. 1,2). Uma das
manifestações disso será a ausência de presunção e de orgulho nas posições
seculares (Fp 2.1-8). Os crentes deveriam distinguir-se por sua prontidão em se
"associarem aos humildes".
não sejais sábios aos vossos
próprios olhos. Ver Pv 3.7. Esse é mais um enfoque sobre o âmbito dos
pensamentos. A forma que pensamos determina a nossa maneira de viver.
* 12.17 O tema unificador dos vs. 17-21 é a maneira
como o crente reage diante de um meio ambiente não-cristão.
* 12.18 tende paz com todos os homens. O crente é
um pacificador por obrigação e por ideal de vida. Nem sempre a harmonia é
possível, visto que a verdade tanto divide quanto unifica. A dupla qualificação
de Paulo ("se possível" e "quanto depender de vós")
reconhece esse fato, mas permanece de pé a nossa obrigação de esforçarmo-nos
por manter a paz nas relações pessoais.
* 12.19-21 O cristão deve libertar-se do desejo de
"acertar as contas" com outras pessoas. Tal libertação do instinto da
vingança é possível porque o crente sabe que Deus corrigirá todos os erros em
seu próprio perfeito julgamento (Dt 32.35). Outrossim, as Escrituras nos
exortam a mostrar graça para com o próximo, enquanto Deus permanece paciente
com o malfeitor (Pv 25.21,22).
* 12.20 amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça. Isso pode
conduzir à conversão os que nos fizerem o mal, ou, pelo menos, a um senso de
vergonha tal que eles modifiquem o seu comportamento.
* 13.1 Os crentes têm uma base racional distinta
para se submeterem, de modo apropriado, às autoridades governamentais: o
reconhecimento de que o próprio Deus é a fonte do governo na sociedade humana
(Pv 8.15,16; Dn 2.21). Ver a nota teológica, "Os Cristãos e o Governo
Civil", índice.
* 13.2,3 Rebelar-se contra as autoridades
civis implica em rebeldia contra a ordenança divina.
* 13.4 ministro de Deus para teu bem. A
autoridade do estado visa ao benefício da sociedade; essa é a sua função
normal, e Paulo pressupõe que isso pode ter lugar em termos práticos, mesmo
quando as autoridades do governo sejam professadamente não-cristãs.
a espada. Ou seja, o
poder de vida e morte. Sem dúvida está em pauta a punição capital. Em outro
lugar, Paulo também aceita tal punição, em princípio, quando a mesma é apropriada
(At 25.11).
para castigar o que pratica o mal. O que um
indivíduo não pode fazer por motivo de vingança (12.19), o estado pode fazer de
modo legítimo, na busca pela justiça.
* 13.6 Por esse motivo, também pagais tributos. A
submissão cristã é uma reação diante da consciência instruída pela revelação
divina. Visto que a tarefa do governo é divinamente ordenada e requer apoio
financeiro, o crente pode pagar imposto com um motivo distintivo e com grande
compreensão, como um elemento de sua devoção a Deus.
* 13.7 Pagai a todos o que lhes é devido. Ver Mt
22.21. Paulo estava, como é evidente, familiarizado com a declaração de Jesus,
e aqui indica como essa declaração é empregada.
* 13.8-10 Paulo agora aplica um pouco mais o
seu princípio fundamental de consagração cristã. O elo de ligação entre os vs.
7 e 8 encontra-se na exortação do v. 7, que o crente tem uma obrigação
financeira diante do estado. Essa é uma aplicação de um princípio geral agora
declarado, que todas as obrigações do crente devem ser cumpridas por ele. E há
uma obrigação permanente — amar o próximo.
* 13.8 tem cumprido a lei. Ver
"Antinomismo", em 1Jo 3.7.
* 13.9 Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Ver Lv
19.18; "Amor" em 1Co 13.13. Não temos aqui uma exortação para que o
crente ame a si mesmo, mas antes que ele se preocupe com o próximo como alguém
que foi criado segundo a imagem de Deus (Gn 1.26,27). Essa é a atitude que
devemos demonstrar para com os nossos semelhantes (Lc 6.31).
* 13.11 conheceis o tempo. O
discernimento espiritual está arraigado na apreensão da revelação divina. A
saliência de Paulo no papel desempenhado pela mente se evidencia de novo.
salvação. Aqui no
sentido de redenção final, no futuro (8.23).
* 13.12 Vai alta a noite. Paulo fala
aqui da "noite" desta era presente. A "luz do mundo" já
veio (Jo 8.12), e nos devemos preparar para o Segundo Advento de Cristo e para
a era vindoura.
Deixemos, pois, as obras das trevas
e revistamo-nos. O uso da metáfora das "armas da luz"
salienta que o desenvolvimento das graças espirituais positivas, e não a mera
rejeição dos vícios, é algo essencial para a defesa espiritual.
* 13.13 Andemos dignamente. Ver a
referência lateral. A advertência de Paulo contra um estilo de vida pecaminoso
inclui, notavelmente, não somente os pecados tradicionais da carne ("em
orgias e bebedices"... em impudicícias e dissoluções") mas também os
vícios insidiosos, que podem ser abrigados ou mesmo exibidos no coração da
igreja ("em contendas e ciúmes").
* 13.14 mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo. Outra
exposição do que significa "revestir-se das armas da luz" (v. 12),
mostrando que aqueles que estão em Cristo devem viver de modo coerente com a
sua nova posição espiritual (Ef 4.1).
* 14.1 Acolhei ao que é débil na fé. A atitude
básica do crente para com um colega cristão deve ser a atitude da boa acolhida
e da aceitação, com base na atitude de Deus para conosco, em Cristo (v. 3;
15.7). Deve haver caridade para com os "débeis", cuja consciência
continua presa a escrúpulos dos quais o evangelho, normalmente, nos liberta (v.
2).
não, porém, para discutir opiniões. Nesta
instância, questões de alimentos, bebidas e observância religiosa de dias. Se
Paulo não considerava insolúveis essas controvérsias, ele considerava a unidade
da comunhão na igreja como mais importante do que resolvê-las (cf. 12.5,10,16).
As questões aqui em vista não faziam parte do evangelho, mas da força ou
fraqueza relativas da fé do indivíduo no evangelho. Sempre que princípios
essenciais do evangelho estavam em jogo, a reação de Paulo era muito diferente
(p.ex., Gl 1.6,7; 3.1-5; Fp 3.2,18,19).
* 14.2 mas o débil come legumes. Um regime
vegetariano não era requerido pelo Antigo Testamento, embora apareça ali
(p.ex., Dn 1.12).
* 14.3 não despreze... não julgue. A
tendência daqueles que compreendem melhor o evangelho consiste em mostrarem-se
impacientes com as inibições dos "débeis" à escravidão do legalismo.
A tentação dos "débeis" é condenar os "fortes" por um
comportamento que parece ser uma licença sem lei. Essas reações equivocadas
deveriam ceder diante da luz da graciosa aceitação, da parte de Deus, tanto dos
"débeis" quanto dos "fortes". Ademais, um irmão na fé é
servo de Deus, e não nosso, e responderá a ele, e não diante de nós. Devemos
compreender que as questões nessas disputas possíveis não envolvem questões
realmente morais, mas são moralmente indiferentes.
* 14.5 Um faz diferença entre dia e dia. Um padrão
de dias santos, que era uma característica do ano judaico, sendo provável que
Paulo se referisse aqui a esses dias santos, e não ao sábado. Se o sábado
estivesse em vista seria mais natural dizer: "Um considera o sábado acima
dos outros dias".
Cada um tenha opinião bem definida
em sua própria mente. Ver 4.21.
* 14.6,7 Um apelo àquilo que era
compartilhado por ambos os grupos (v. 3), a saber, o desejo de honrar o mesmo
Senhor. O fato que pessoas de ambos os grupos pertencem a Cristo põe em
perspectiva pequenas diferenças. Ver "O Reino de Deus", em Lc 17.20.
* 14.9-12 Somente Cristo é o Senhor (v. 8) e o
Juiz de seu povo (ver "O Julgamento Final", em Mt 25.41). O custo em
torno desse privilégio de Cristo foi imenso, e desmascara quão impróprio é que
os crentes julguem ou desprezem aos irmãos. Devemos prestar conta de nossas
próprias vidas ao Senhor como aqueles que estão sendo julgados, e não como
aqueles que julgam.
* 14.13—15.4 Enquanto a própria consciência de Paulo
havia sido liberada pelo ensino de Cristo (v. 14; cf. Mc 7.18,19), ele
reconhecia que nem todos os crentes tinham chegado a desfrutar dessa
libertação. A consideração por tais crentes ("andar segundo o amor",
v. 15) significa evitar um comportamento que poderia entristecê-los ou
pressioná-los. Duas injunções específicas, quanto a essa questão, seguem-se nos
vs. 15 e 16.
* 14.15 Por causa da tua comida, não faças perecer
aquele a favor de quem Cristo morreu. No contexto da fé judaica,
"destruir" significa cortar da comunidade da aliança (Dt
28.21,45,48,51,61,63). Encorajar um comportamento que a consciência do crente
débil proíbe é encorajá-los a agirem contra as suas consciências, um ato sério
e perigoso.
* 14.16-18 Os crentes fortes são exortados a pesar
quão importante é exercitar a sua liberdade cristã em face de duas
considerações: (a) o uso dessa liberdade pode trazer divisão e descrédito sobre
a igreja; (b) o reino de Deus (e, portanto, a nossa liberdade) não é uma
questão de alimentos e bebidas, mas das bênçãos da graça (5.1,2). Visto que a
liberdade não consiste nessas coisas, não podemos perdê-la se nos refrearmos
delas.
* 14.18 aprovado pelos homens. Ver o v.
16. Enquanto Deus é o nosso único Juiz (v. 12), o impacto de nossos atos sobre
outras pessoas desempenha um papel vital na comunhão e no evangelismo.
* 14.19-21 A responsabilidade do crente é agora
declarada de modo positivo: evitar a destruição de outros crentes é
complementado pela promoção da "paz" e das coisas que
"edificam" (v. 19). Quanto aos "fortes" (15.1), isso inclui
tanto manter comunhão com os "débeis" como também encorajá-los a
compreender a liberdade de que eles gozam em Cristo. Quando esses alvos estão
em mira, a liberdade de comer e beber tornar-se-á subserviente para eles; e o
bem-estar de um irmão tomará precedência sobre o aprazimento de carne ou vinho.
* 14.22,23 Paulo também exorta os crentes
"fortes" (15.1) a desfrutarem
do fato de sua liberdade de consciência na presença de Deus (apesar de se
restringirem do uso público dessas coisas). Ver "A Consciência e a Lei",
em 1Sm 24.7.
* 15.1-4 nós que somos fortes devemos suportar
as debilidades dos fracos. Paulo considera-se um dos "fortes". Ele
percebe a consciência mal formada dos "fracos" como uma fraqueza
real; não obstante, ele enfatiza a responsabilidade dos "fortes" em
dar apoio aos "fracos". E não encoraja sentimentos de orgulho, e nem
que o crente forte se vangloriasse de sua liberdade em questões ofensivas para
os crentes débeis.
* 15.2 Ver 14.19; 1Co 8.1; 10.23.
* 15.3 Paulo cita aqui Sl 69.9, um dos salmos mais freqüentemente citados no Novo
Testamento. A disposição do Messias em negar a si mesmo e a sofrer em favor de
outros homens deveria servir de exemplo aos crentes de Roma.
* 15.4 para o nosso ensino foi escrito. É ensino
básico do Novo Testamento que as Escrituras do Antigo Testamento foram
escritas, pela inspiração divina, para benefício dos crentes (1Co 10.11; 2Tm
3.15-17; 1Pe 1.10-12).
* 15.6 para que concordemente e a uma voz. Ver
10.9,10. A unidade na Igreja é algo essencial se o objetivo é glorificar a
Deus. Paulo já havia demonstrado que a humanidade, que está destituída da
glória de Deus, é restaurada a essa glória mediante a obra reconciliadora de
Cristo (1.21,23; 3.23; 5.2,11; 8.17,30).
* 15.8 Cristo... ministro da circuncisão. A
aceitação mútua dos crentes está arraigada na humildade de Cristo (Mc 10.45).
* 15.13 Ver "Esperança", em Hb 6.18. O que
foi descrito como o efeito das Escrituras, no v. 4 (ter esperança) é agora
atribuído à operação do Espírito Santo. Paulo segue aqui um padrão evidente por
todo o Novo Testamento, segundo o qual os atos salvíficos de Deus são
atribuídos tanto à Palavra de Deus como à operação do Espírito Santo (p.ex., a
regeneração, 1Pe 1.23; a santificação, Jo 17.17; a salvação, Rm 1.16; e o
discernimento do coração, Hb 4.12).
* 15.14-22 Paulo começa agora a levar sua epístola
ao encerramento, retornando ao tema de sua introdução — o seu próprio
ministério e a sua visão quanto à expansão da influência do evangelho.
* 15.14 meus irmãos. Uma outra
indicação de uma emoção profunda (1.13; 7.1,4; 11.25; 12.1). Graciosamente,
Paulo assegura aos crentes romanos de que sua longa exposição do evangelho não
tencionava levantar dúvidas sobre a compreensão espiritual deles. Não estava em
questão o seu conhecimento do evangelho e nem a capacidade deles aplicarem o
evangelho de modo prático em admoestações mútuas ("aptos para vos
admoestardes uns aos outros"; cf. Cl 3.16).
* 15.16 anunciar o evangelho de Deus. Paulo vê a
pregação do evangelho como o meio mediante o qual os gentios seriam conduzidos
a Deus como uma oferenda agradável de ação de graça (12.1).
* 15.17-20 Paulo descreve o seu ministério, mui
naturalmente, em termos trinitarianos (Deus Pai, vs. 17,18; o Filho, vs. 17-20;
e o Espírito Santo, v. 19; cf. o v. 16).
* 15.19 por força de sinais e prodígios. Ver Êx 7.3; Dt 4.34; 6.22; 7.19; Is 8.18; Dn 6.27. Uma frase
arraigada na autenticação do ministério de Moisés no tempo do Êxodo. Deus
realizava periodicamente tais milagres, em conjunturas críticas da história da
redenção, como no êxodo de Israel do Egito, e nos ministérios proféticos de
Elias e Eliseu, ou na preservação de seu povo, nos tempos de Daniel, e no
ministério de Cristo e seus apóstolos. Esses acontecimentos são incomuns, e não
normais, e apontam para sucessivos estágios da história da redenção e da nova
revelação que os acompanha.
desde Jerusalém e
circunvizinhanças, até ao Ilírico. As viagens de Paulo, de acordo com
o livro de Atos, se estenderam desde a parte oriental do mar Mediterrâneo até o
distante Oeste como a Macedônia. Não há nenhum registro histórico de seu
ministério no Ilírico (noroeste da Macedônia). Apesar de Paulo ter podido fazer
isso, parece mais provável que ele quis dizer que fora até à Macedônia. Paulo
estabelecia centros missionários, em lugar de pregar pessoalmente em cada
local. A partir de tais centros, até o Ilírico pode ter sido atingido com o
evangelho.
* 15.23,24 Duas coisas tornavam agora possível
uma visita a Roma: (a) a atual fase da comissão de Paulo fora cumprida; (b) a
nova fase que envolvia uma visita à Espanha estava iminente, e Paulo busca a
comunhão com os crentes que habitavam na cidade de Roma.
* 15.24 Espanha. Essa era a extremidade
ocidental do mundo antigo. Alguns sugerem que Paulo pensava na Espanha como a
Társis de Is 66.19, e via a extensão de sua pregação até à Espanha como uma
fase significativa da missão cristã (Mt 24.14; At 1.8).
* 15.25-33 Paulo desvenda agora seus planos
imediatos de visitar Jerusalém, levando as dádivas que as igrejas tinham
levantado para os crentes de Jerusalém. Jerusalém era uma cidade empobrecida de
maneira geral; em adição, os crentes dali sofriam de durezas particulares, como
uma minoria suspeita. Mas Paulo vê uma significação mais profunda do que a mera
caridade nessa dádiva. Isto é um dever (v. 27), uma obrigação solene da parte
dos gentios, em face do privilégio por terem sido enxertados na oliveira de
Deus (11.17). Isso se conforma ao princípio geral de que aqueles que recebem
bênçãos espirituais devem repartir suas bênçãos materiais (1Co 9.3-14; Gl 6.6).
* 15.29 irei na plenitude da bênção de Cristo. Um notável
comentário à vista da maneira como se cumpriram as aspirações de Paulo (ver At
28.11-16).
* 15.31 A preocupação de Paulo é dupla: (a) que ele
fosse protegido da hostilidade dos judeus, que tinha marcado a totalidade de
seu ministério; (b) que os crentes judeus, em Jerusalém, correspondessem à
dádiva dos crentes gentios, selando o ministério do apóstolo Paulo (v. 32).
* 15.33 E o Deus da paz. Uma das
designações favoritas de Paulo para indicar Deus (16.20; 2Co 13.11; Fp 4.9; 1Ts
5.23; 2Ts 3.16), mas particularmente apropriada aqui, em relação à sua luta
presente (v. 30).
* 16.1-27 As epístolas de Paulo tipicamente
terminam com notícias e saudações pessoais. O capítulo final da epístola aos
Romanos é notável pelo grande número de crentes que foram mencionados. Estes
versículos nos dão um certo discernimento quanto ao calor das relações pessoais
do apóstolo, bem como quanto à comunhão entre os crentes primitivos.
* 16.1 Febe. Provavelmente foi ela a
portadora da epístola de Paulo. O nome é comum na mitologia grega, e indica um
pano de fundo gentílico.
que está servindo. A palavra
usada por Paulo (no grego, diákonos) tem sido diferentemente traduzida
por "servo", "ministro" (1Tm 4.6) ou "diácono"
(Fp 1.1; 1Tm 3.8). É incerto se o apóstolo usou o termo para referir-se ao
ofício eclesiástico específico ou se ele estava descrevendo Febe como uma serva
da igreja, em um sentido mais genérico.
Cencréia. O porto de
Corinto, no golfo Sarônico, indicando onde Paulo estava quando foi enviada a
epístola aos Romanos.
* 16.3 Priscila e Áquila. Esse casal
tinha por profissão a fabricação de tendas, como Paulo (At 18.3). Ele estava
com eles em Corinto. Eles tinham deixado Roma, depois do decreto de Claudio, e
acompanharam Paulo a Éfeso (At 18.18). Eles ensinaram a Apolo (At 18.24-26), e
mais tarde retornaram a Roma.
* 16.5 Epêneto. Evidentemente foi o
primeiro de uma colheita de convertidos na Ásia.
* 16.6 Maria, que muito trabalhou por vós. Paulo
reconhece o dedicado serviço das mulheres (v.12).
16.7 a Andrônico e a Júnias. Os
primeiros comentadores compreendiam que esses dois eram marido e mulher. Eram
judeus como Paulo e se tinham convertido a Cristo antes do próprio Paulo. Ao
que tudo indica, tinham estado na prisão por algum tempo com Paulo (cf. 2Co
11.23), e tinham servido com distinção como enviados especiais
("apóstolos") das igrejas. Esse uso da palavra "apóstolo" é
mais amplo que o sentido estrito que ocupavam os doze, além de Paulo (ver 2Co
1.1, nota).
* 16.8 Amplíato. Esse pode ser Amplíato,
provavelmente um escravo, cujo nome aparece em um túmulo na catacumba de
Domitila, sobrinha do imperador Domiciano.
* 16.9 Urbano... Estáquis. Nomes
comuns de escravos. O primeiro desses nomes era romano, e o segundo era grego.
* 16.10 Apeles. Um comum nome grego, nome
de um crente que se havia distinguido por meio da tribulação mas tinha
permanecido fiel (12.2).
Aristóbulo. Esse homem
pode ter sido neto de Herodes o Grande e amigo do imperador Cláudio.
* 16.11 Herodião. Talvez um da casa de
Herodes, visto que estes tomavam o nome de seu senhor.
* Narciso. Talvez
deva ser identificado com o Narciso que foi ajudante de Cláudio, o qual foi
forçado a cometer suicídio por Agripina, após Nero ter subido ao trono.
* 16.12 Trifena e Trifosa, as quais trabalhavam no
Senhor. Duas mulheres com nomes derivados de uma única raiz
("gentil" e "delicada"), e, portanto, possivelmente irmãs.
* 16.13 Rufo, eleito no Senhor. Um dos
nomes mais intrigantes dos aqui alistados, em vista de Marcos 15.21, um
evangelho possivelmente escrito em Roma. "Eleito" pode refletir as
circunstâncias ímpares que puseram sua família em contato com Cristo. A alusão
de Paulo à mãe de Rufo, como "a sua mãe, que também tem sido mãe para
mim", sugere uma profunda afeição do apóstolo pela família de Rufo.
* 16.16 com ósculo santo. O ósculo
era um sinal comum de saudação nos países do oriente. Aqui Paulo exorta os
crentes a santificarem suas saudações como símbolos de comunhão.
* 16.17-20 A reflexão sobre o conhecimento que
Paulo tinha daqueles crentes, seus problemas em Roma (cap. 14) e a atividade de
divisão de Satanás (v. 20), evoca uma urgente convocação para que eles
guardassem sua unidade (Ef 4.3). Eles deveriam evitar aqueles que "provocam
divisões e escândalos, em desacordo com a doutrina que aprendestes".
Aparentemente, Paulo indica que o espírito de divisão dos tais é pecaminoso, um
sinal da vida carnal, e uma forma de auto-indulgência (Gl 5.19,20). Os crentes
devem aprender a não se deixar enganar por "suaves palavras e
lisonjas" (v. 18).
* 16.19 símplices. Ver a referência lateral.
Os crentes romanos precisavam de sabedoria e de corações espirituais, sem
qualquer mistura com o mal.
* 16.20 Antes das saudações finais e da doxologia,
Paulo inclui uma promessa de natureza profética, arraigada na primeira promessa
bíblica de livramento, em Gn 3.15. Satanás é a origem de todo o "mal"
(v. 19; cf. Gn 3.12; ver também "Satanás", em Jó 1.6). O "Deus
da paz" (conjuntamente integridade e tranqüilidade) agiria como o
Guerreiro divino para vencer o diabo. Isso teria lugar "em breve".
Paulo podia estar falando aqui de questões relativas a seu futuro próximo, ou
podia estar falando sobre as últimas coisas, as quais, pela fé, sempre parecem
estar às portas.
A graça de nosso Senhor Jesus seja
convosco. Um encerramento de epístola caracteristicamente paulino (ver
Gl 6.18; 1Ts 5.28).
* 16.21 Juntamente com Silas, Timóteo tornou-se o
principal cooperador de Paulo, depois do desacordo com Barnabé (At 15.36-40), e
é mencionado em dez das epístolas de Paulo. Lúcio (que alguns estudiosos
identificam com Lucas), Jasom (talvez hospedeiro de Paulo em Tessalônica, At
17.5-9) e Sosípatro (At 20.4), talvez fossem delegados da igreja que
acompanhavam a Paulo para entregar a coleta em Jerusalém.
* 16.22 Eu, Tércio. Paulo usava regularmente um
amanuense, identificando as epístolas como suas mediante uma breve saudação
escrita de próprio punho (1Co 16.21; Gl 6.11; Cl 4.18; 2Ts 3.17).
* 16.23 Paulo talvez estivesse residindo na companhia
de Gaio, no tempo da escrita desta epístola. Presumivelmente, ele deve ser
identificado com o Gaio referido em 1Co 1.14, e também pode ter sido o (Gaio?)
Tito Justo, de At 18.7. Um certo Erasto foi mencionado em At 19.22 e 2Tm 4.20.
Não sabemos dizer se ele é o mesmo homem. De maior interesse ainda é o fato de
que um cristão ocupasse posto de tanta responsabilidade no governo local de
Corinto. Acerca de Quarto, nada se sabe.
* 16.25-27 A autenticidade desta doxologia final é
questionada por alguns estudiosos em face de seu comprimento, de sua ênfase
sobre um mistério, e de sua história textual (encontra-se em diferentes pontos
da epístola, ou mesmo é completamente omitida em vários manuscritos antigos).
Todavia, o comprimento desta doxologia é, até certo ponto, apropriado, vindo no
fim de uma epístola como a dos Romanos. Seus temas levam a uma adequada
conclusão muito daquilo que já tinha sido dito. Em particular, Paulo chama a
atenção para o seu próprio ensino do evangelho (2.16; cf. 1Ts 1.5; 2Tm 2.8), e
para o seu poder de edificar (1.11), para a revelação do mistério de Deus
(11.25; cf. Ef 3.2-6), para a fé e a obediência entre as nações (1.5) e para a
sabedoria de Deus na redenção (11.33; cf. Ef 3.10-12).
* 16.26 e que agora... foi dado a conhecer por meio
das Escrituras proféticas. A palavra "agora", usada por Paulo, pode
sugerir que ele se referia às Escrituras do Novo Testamento, mas a sua ênfase é
que somente agora, à luz da vinda de Cristo, a mensagem já contida no Antigo Testamento,
foi difundida às nações.
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sergiovalentin